Descendo

Por Fabricio C. Boppré em 29/10/2018

É no poema de Virgílio que encontramos aquela preciosa advertência: “descer até o inferno é fácil; seus portões estão abertos dia e noite. Retornar de lá, voltar ao ar livre, aí está a tarefa difícil.” Supõe-se que o romano entendia do assunto, afinal, Dante não elegeria um qualquer para servir-lhe de guia em suas perambulações pelo outro mundo. É incrível como neste país chamado Brasil evaporaram-se a inteligência, a experiência, o discernimento básico. Ou: incrível como arrancou-se sem pudor algum, sem reflexão alguma, a máscara que vinha escondendo isso que hoje temo ser obrigado a reconhecer como nossa verdadeira natureza. A estupidez que grassa por aqui sempre foi enorme e notória, mas chancelá-la democraticamente como norma pública e política de estado, isso eu realmente não achei que veria acontecer — achei que a parcela minimamente razoável da população teria tamanho e força suficientes para evitar. Que horror tanta gente sentir-se representada por este sujeito minúsculo e grotesco. Que horror tanta gente não perceber a obtusidade e a indignidade deste que acabaram de nomear mandatário da república. Que horror esse mundo virtual do Facebook e do WhatsApp, essas negações da vida real que a intuição sempre me aconselhou permanecer o mais afastado possível. Que horror nossa falta de educação, de cultura, de tudo. A história, no entanto, irá cobrar sua conta: país algum elege um fascista presidente e passa impune por isso. Não tenho vontade nenhuma de escrever sobre a música que ouvi ao longo deste tenebroso mês de outubro (e foi bastante música, talvez até mais do que de costume). Estou prestes a me mudar e passar um tempo na Escócia, e somente as muitas tarefas envolvidas na mudança me impedem de descer até algum nível inédito de tristeza e frustração. Estarei longe, mas de alguma forma o inferno chegará até mim, tenho certeza. Que a escalada de volta comece logo, antes que o caminho para tal suma de uma vez por todas de nossas vistas.

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Créditos da imagem: Uma das ilustração de Gustave Doré para o A Divina Comédia, de Dante Alighieri.



2 comentários:

  • Sid Costa em 29/10/2018

    Mesmo longe a empatia será seu Virgílio.

  • Alexandre Luzardo em 02/11/2018

    A impressão que dá é que continuamos descendo.

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