Amputação

Por Fabricio C. Boppré em 25/10/2018

Low, Spiritualized, Stereolab, Marissa Nadler, Kate Bush, Mount Eerie, Wendy Carlos, as trilhas-sonoras do John Carpenter, o Música para cordas, percussão e celesta de Bela Bartók — eu fazia um esforço meio distraído, constantemente interrompido, para relembrar os discos que escutei nos últimos dias e tentar imaginar algo para escrever sobre eles, esforço que me rendesse alguma concentração sossegada por pelo menos um par de horas. Esforço natimorto. A rotina dos últimos dias é ser interrompido; é desligar-se gradualmente da rotina anterior sem ter ainda uma nova para colocar em seu lugar; é tentar resignar-se com a vileza que em breve estará certificada e liberada para ser o novo princípio pátrio, ou não tão novo assim, mas agora democraticamente eleito, majoritariamente legitimado, oficialmente ungido. As notícias dos jornais — meu deus, as notícias do jornal. E então minha mãe me liga para contar que minha avó amputou um pé. Não me ocorreu na hora perguntar se foi o pé esquerdo ou o direito… Acho que as bandas e artistas que mais escutei nos últimos dias foram mesmo Low, Mount Eerie e John Carpenter, além dos novos discos do Spiritualized e da Marissa Nadler, que são ótimos. O Spiritualized é destas bandas que ainda fazemos questão absoluta de comprar os discos assim que anunciados e postos em pré-venda, para depois saborear a expectativa de sua chegada, quem sabe ouvir com indulgência uma ou outra faixa que apareça como aperitivo na internet, e finalmente recebê-lo na caixa postal e planejar uma noite especial em casa em torno dele, em torno de sua primeira audição, o primeiro contato da agulha com o vinil. Vinho, luzes baixas, essas coisas. Noites como estas nós ainda temos aqui em casa, mas ultimamente elas têm vindo acompanhadas de uma certa contrição, um gosto amargo de culpa e aflição. Vejam os sorrisos dessas pessoas na imagem acima — como descrever isso? Como seguir normalmente a vida depois disso? Como chegamos a esse nível de covardia e barbárie? Morando em um país que normalizou essa violência absurda, essa desumanidade sem nome, como ter uma noite de música e sossego e alegria inebriada? É como se estivéssemos indo um passo além da impossibilidade da poesia, que Adorno apontou como uma das consequências do Holocausto. O dito do filósofo alemão era a respeito de “fazer poesia”; pois nós brasileiros vamos inaugurar a impossibilidade de “escutar poesia”. Em meio a tanta desolação, assim que minha mãe me informou a respeito da cirurgia da minha avó, não foi difícil consolar-me com o fato de que ela já não precisa tanto de seus pés, e quase me vi invejoso do fiapo que lhe resta de consciência, de lucidez, vivendo seus dias e noites infinitos sem sair da cama da enfermaria em que vive: quem quer ser lúcido em tempos como estes?

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