Discos do mês - Setembro de 2018

Por Fabricio C. Boppré em 03/10/2018

Eu vinha escutando continuamente algumas gravações do único quarteto de cordas escrito por Jean Sibelius, obra conhecida como Voces intimae. Isso foi lá no começo de setembro: ainda fazia frio, ainda era tempo de recolhimento e roupas grossas, a possível tragédia nas nossas eleições ainda parecia distante. Estas gravações do quarteto de Sibelius não raro vêm acompanhadas por um dos dois quartetos de Grieg, compositor cuja afinidade com Sibelius é uma questão de nacionalidades: Sibelius era finlandês; Grieg, norueguês. Não sei se chegaram a conhecer um ao outro, mas os cenários nórdicos descortinados pela música de ambos aproximam seus trabalhos naturalmente, e seus legados gozam hoje do status de serem partes indissociáveis da identidade nacional de seus países de origem, nações vizinhas de terra e de folclore e que calculo ficarem distantes do Brasil cerca de, numa estimativa conservadora, uns 400 trilhões de anos-luz. Não pode ser menos do que isso, tal a diferença entre cá e lá. Mas eu dizia: em pelo menos dois discos que tenho aqui comigo com o Voces intimae um dos quartetos de Grieg vem junto. Eu escutava com interesse maior o trabalho de Sibelius, mas ia assimilando aos poucos os de Grieg, gostando cada vez mais, e comecei a esboçar um texto para este post que foi logo delineando-se uma reflexão não tanto sobre as obras em si, mas sobre minha intensa paixão por este formato de música: sim, de novo embarcava em um panegírico entusiasmado — e provavelmente muito brega — acerca da beleza inebriante dos dois violinos somados a um violoncelo e uma viola (“beleza inebriante dos dois violinos somados a um violoncelo e uma viola” eu copiei daquele texto — como podem ver, estava ficando péssimo), e acrescentei algo sobre os méritos do suposto inventor dos quartetos, Joseph Haydn, e falei ainda alguma coisa sobre o fato dos invernos nos ensinarem mais do que os verões, mas já não lembro porque e já não importa. Escrevi também algo sobre as diferenças culturais entre as pessoas e especulei acerca da possibilidade de existir algum mínimo denominador comum entre nós todos. O texto estava ainda em andamento, cheio de idéias incompletas e totalmente insatisfatório, quando de repente tive que interrompê-lo pois surgiu um compromisso em São Paulo. Viagem marcada; hotel reservado; planos feitos. Sobrava-nos ainda algum tempo livre na megalópole quando tive a idéia de dar uma olhada na programação da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, e olha só o que estava marcado para exatamente a primeira das duas noites que passaríamos na cidade: quartetos de Grieg e Sibelius. Quase dá de dizer que havia deuses operando em meu favor, não? Afinal, a paz e a prosperidade reinam imperturbáveis no mundo, não há muito por aí que esteja necessitando de mais intervenção divina do que minha carência de música ao vivo… Bem, foi uma noite muitíssimo bonita: Sibelius e Grieg foram apresentados com grande ímpeto e destreza (o quarteto selecionado de Grieg foi o segundo, que o compositor não chegou a terminar mas que costuma ser apresentado assim mesmo incompleto mundo afora, tal qual a famosa sinfonia inacabada de Schubert), e também a terceira peça da noite, o primeiro quarteto do francês Philippe Manoury (que estava presente lá no público), achei excepcional: obra extravagante e experimental, que claramente desagradou algumas pessoas, mas eu fiquei hipnotizado pela música e gostei muito. O quarteto de cordas da OSESP me pareceu muito bom, digo do alto do meu amadorismo no assunto. Talvez o Brasil não fique, afinal, tão longe assim da Noruega e da Finlândia… De volta em casa, na província onde moro, perdi a vontade de finalizar aquele texto, mas voltei a escutar algumas das gravações citadas anteriormente, em especial, a do Emerson String Quartet que traz, além do Voces intimae, o primeiro quarteto de Grieg — que prefiro ao apresentado pelo quarteto da OSESP — e também uma peça menor de Nielsen. A experiência da música ao vivo é insubstituível, mas esse disco não é, de maneira alguma, menos valioso.

Outro CD que escutei diversas vezes nos últimos dias foi este gravado em parceria por Kurt Vile e Courtney Barnett. Vile eu já conhecia, e gosto muito de seus discos; sobre a australiana Courtney Barnett eu já tinha lido algo a respeito aqui e ali, mas nunca tinha escutado sua música. O álbum, que se chama Lotta Sea Lice, é muitíssimo bom; tivesse escutado ano passado, ele certamente teria aparecido na minha lista de favoritos daquele ano! As canções da dupla têm uma brandura e uma intimidade que nascem, em primeiro lugar, de suas vozes, vozes que não são, de modo algum, as de cantores na acepção mais formal do termo: parece que eles estão ali, durante todo o tempo do disco, envolvidos numa coisa mais privada e descompromissada do que a execução e a gravação de canções de trabalho, algo voltado para pessoas que estão mais ali por perto, compartilhando histórias e bebida enquanto conduzem, na medida do possível, sem maiores esforços — como que para ter algo para fazer com os dedos e com as mãos, algo para abraçar as palavras — uma eletricidade calma e afável. É algo que adoro: as guitarras — que suponho tocadas pelos dois, pois são ambos guitarristas em seus discos solos — vagam a esmo ao longo de faixas que parecem nascer espontaneamente, gravadas num take, concebidas no ato. Fazem-me lembrar frequentemente dos meus discos favoritos do Neil Young, a maneira como muitas de suas melhores músicas soam como que coisas em andamento, despojadas de fórmulas e notações mais estritas, em conexão direta com algo que reside no inconsciente do músico. Kurt e Courtney (estes, não aqueles) devem ter um bom punhado de vinis do velho Neil em suas coleções, eu apostaria nisso. Há ainda em Lotta Sea Lice alguns violões e alguma desilusão inevitável; uma alegria moderada aqui e ali e um certo cansaço que parece ter se acumulado cedo demais na vida desses jovens. Não há pretensão alguma: apenas ótimas canções, amigos fazendo o que têm de fazer, o que sabem fazer, preenchendo o tempo de suas vidas.

Pra finalizar, menção rápida — até porque não escutei tanto quanto os dois discos citados acima — ao A.O. Mod. TV. Vers. do Spy V Spy. Porque há aqueles dias em que nostalgia adolescente e rock ’n’ roll australiano são os únicos refúgios possíveis…

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