Impressões auditivas, Vol. VII

Por Fabricio C. Boppré em 28/08/2018

  • Mariposas ficam enlouquecidas com o barulho produzido por um molho de chaves balançando. É verdade, fizemos o teste aqui em casa, e a pobre da mariposa que nos serviu de cobaia ficou doidinha voando desvairadamente de um lado para outro, fazendo bruscas mudanças de direção, um comportamento bem diferente daquele eterno voar em círculos que lhes é característico. A explicação vem pela física: as chaves se estatelando umas nas outras produzem determinado som que nós humanos não percebemos (devido sua frequência superior àquela que nossos ouvidos conseguem captar), ruído semelhante ao som que os morcegos emitem durante seus vôos noturnos e que os auxilia a desviarem-se de obstáculos invisíveis na escuridão — os ecos que eles recebem de volta o tempo todo, rebatidos por tudo ao seu redor, permitem aos morcegos “enxergar com os ouvidos” o terreno no qual se encontram. Trata-se de um ultrassom para nós humanos, mas não para as mariposas: elas conseguem escutar este som emitido pelos morcegos, que, como se sabe, além de se transformarem em Bela Lugosi e Christopher Lee para degustar sangue humano, curtem também um tartare de mariposa de vez em quando, para variar o cardápio. Os tantos e tantos anos de evolução, de conflitos entre seres esfomeados e seres apetitosos, dotaram então as frágeis mariposas desta tática evasiva, que é posta em ação quando elas captam o som ameaçador de um morcego movendo-se pelas cercanias: voar alucinadas de um lado para outro, para escapar do predador que pode estar indo em sua direção. Não é incrível tudo isto? O epílogo dessa nota, contudo, é meio triste: a pobre coitada da cobaia aqui de casa estava bem protegida de morcegos e de quaisquer outros perigos; o ambiente estava aquecido e iluminado, a música que ouvíamos decerto não era má. O destino, não obstante, foi implacável e encontrou-se com ela minutos depois, terminando-lhe os dias no azulejo da sala, morte por esmagamento, pisada por alguém que não a percebeu ali parada, provavelmente exausta depois de nosso cruel experimento científico. Suponho que serão ainda necessárias muitas gerações de mariposas antes que elas aprendam os perigos de se pousar no chão de um apartamento.
  • Mas isso tudo foi outro dia, e aquele fôra um dia bastante normal — ter como companheira uma astrofísica faz com que experimentos científicos caseiros não sejam exatamente uma novidade para mim. Ontem, por outro lado, em certo momento o dia pareceu-me algo estranho, inerte, esgotado antes do previsto, sem mudanças de cor, sem mariposas sondando as janelas, como se já defunto antes mesmo de tornar-se amanhã — um dia liquidado antes mesmo do crepúsculo e da noite. E assim, julguei sem maiores alarmes, as coisas ficariam, irresolvidas e inéditas, as horas desgarradas e suspensas no infinito. Sorte que tem música para isso, tem música para tudo: Alwyn: String Quartets Nos. 10 to 13, quatro quartetos do compositor inglês William Alwyn gravados pelo também inglês Tippett Quartet. Sei de nada sobre Alwyn, mas afeiçoei-me bastante a estes quartetos, sem que eles sejam propriamente uma música extraordinária. De fato, interrompi tudo que estava fazendo, trabalho e tarefas domésticas, para exclusivamente escutar-lhes, e decidi assim ficar enquanto o tempo permanecesse retido em seu dilema — quem sabe tivesse ele próprio subitamente tornado-se consciente de sua natureza secreta e indecifrável, e assim ficou, estancado, indeciso, estarrecido, e sabe-se lá quanto tempo demoraria o tempo voltar a ser tempo. A música amena e descomplicada de Alwyn ressoou alto aqui em casa, flutuando alheia ao imbróglio todo, e então, nem percebi exatamente quando, o impasse resolveu-se: o disco acabou, encaminhou-se a noite, tudo terminou como de costume. Dia seguido de noite, nem mais dia nem menos dia do que qualquer outro antes ou depois. Luzes amarelas e mariposas noturnas, leitura errática e sono corretivo.

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Créditos da imagem: “L’empire des lumières” (1954), de René Magritte.



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