Impressões auditivas, Vol. VI

Por Fabricio C. Boppré em 15/08/2018

  • Estava aqui pensando sobre os usos utilitários da música. Um deles, nem um pouco desimportante: escutá-la alta, com fones de ouvido, para abafar o barulho que vizinhos pouco civilizados impõem, cada vez mais frequentemente, a todos ao seu redor. Valha-me Deus! Das tantas tragédias nossas em andamento, neste país, esta é certamente uma das menos graves, das menos relevantes, mas justo ela, creio, ainda vai me render um AVC ou um infarte fulminante: a perda gradual do direito ao silêncio, do direito ao descanso. “Sansão, os filisteus estão chegando!”
  • Foi durante o Romantismo que alguns compositores e instrumentistas começaram a desenvolver certos desacordos (quando não ojeriza frontal e conflituosa) com os gostos do seu público — me refiro ao público de concertos, que começava a se tornar um dos vetores no mundo da música, naquela época, com a popularização dos concertos abertos ao público e com a transformação dos músicos em heróis populares. Este fenômeno correlato começou então a desenvolver-se: músicos começaram a se dividir em dois tipos, os que compunham para o público (e, portanto, para a fama e sucesso) e os que compunham para si, em detrimento explícito da causa que movia aqueles do primeiro tipo (Beethoven talvez tenha sido o primeiro grande representante desta categoria, ele, que na época de seu rompimento com as expectativas do público e da crítica, já era um grande herói popular e reconhecidamente genial). Estes últimos, não raro, fizeram referências em suas composições e em seus textos acerca daquilo que identificavam ser uma vulgarização crescente do gosto do público, a mediocridade espiritual da burguesia materialista que frequentava seus concertos mas que não conseguia acompanhar ou entender a evolução de sua música, um público que só queria saber de música fácil e de óperas cômicas italianas, etc. A última das 20 peças que compõe a obra Carnaval de Robert Schumann se chama Marche des “Davidsbündler” contre les Philistins. Schumann talvez tenha sido o romântico arquetípico. Morreu aos 46 anos de uma doença, à época, diagnosticada como “melancolia psicótica”. As últimas obras de Beethoven foram consideradas “ruínas” e “escombros” por muitos de seus críticos contemporâneos, o que, para mim, soam como belos elogios, mas evidentemente não o eram naquela época.
  • Andrei Bely: “Talvez eu deva lhe contar o maior dos mistérios dentre os mistérios, para que você sossegue de uma vez: não existem mistérios.”

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Créditos da imagem: “Chanteurs”, de Honoré Daumier (1860), copiada daqui.



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