Discos do mês - Julho de 2018

Por Fabricio C. Boppré em 01/08/2018

Hora de escrever novamente sobre o Thaw: tem disco novo deles na praça — na verdade, não tão novo assim: foi lançado em dezembro passado, mas só uns dias atrás é que fui escutá-lo — e é música nada menos do que espetacular, como aparentemente sempre haverá de ser em se tratando desses poloneses. Vou ainda mais longe: metal não pode ficar melhor do que isso, pelo menos não se você concordar comigo a respeito de quais são os atributos mais importantes do gênero, a saber: seriedade, peso, escuridão, misticismo, mistério. O triunfo do Thaw é assinalar este grande momento da música tenebrosa, quando uma de suas facetas não apenas evoluiu e deixou de ser coisa de adolescentes arruaceiros e tornou-se arte de verdade — arte que mereça ser chamada por esse nome, sem rodeios e nem escusas —, mas quando tornou-se inclusive do tipo grande, arte profunda e elevada, concebida e transmitida com coragem e independência inegociáveis, visão e intuição legítimas antecedendo a técnica, e um sentido de jornada espiritual que claramente os distingue (ao Thaw e a todos os outros que estejam seguindo nesta mesma senda) da grande maioria dos grupos de música pesada mundo afora. Porque fazer barulho e encher as letras e as capas dos discos com referências ao capeta é fácil; fazer o som que esses caras fazem, isso já é outra história.

Não dá de afirmar nada parecido sobre o Amorphis, temos que reconhecer, mas eu também gosto muito desses finlandeses. Ao longo deste mês de julho escutei intensamente ao Tuonela, CD que lembro de ter comprado junto com o Machina/The Machines of God do Smashing Pumpkins logo após o lançamento deste último, no começo de 2000 — e lá se vão quase 20 anos. Durante todo esse tempo, nunca acumulou muito pó em torno dele: tiro-o da estante para escutar com bastante frequência (me refiro ao Tuonela; do Machina/The Machines of God não posso dizer o mesmo) e já há muito tempo sou completamente familiarizado com todas as suas faixas, conheço-o inteiramente do primeiro ao último segundo. Por isso me parece incrível que, mesmo com toda essa intimidade, o disco ainda retenha algo mágico que pode torná-lo, subitamente, quase que numa novidade, algo de potência inédita e magnética: por cerca de uma semana escutei-o diariamente, completamente deslumbrado por músicas fantásticas como Greed e The Way. Não é incrível isso? Se eu tivesse que meter apressadamente numa mala apenas uma pequena pilha de discos, digamos que uns 20, em meio a uma fuga urgente devido a um incêndio ou a um segundo turno de eleição presidencial com Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro, ou qualquer outra catástrofe desesperadora deste tipo, acho que eu não esqueceria do meu Tuonela.

Não me esqueceria tampouco de meter na mala o disco duplo que traz as duas gravações de Glenn Gould para as Goldberg Variations, a obra-prima de Bach (há quem prefira as missas ou as cantatas; eu fico com as Goldberg Variations). Ou talvez nem fosse necessário: pois este é do tipo mágico de música que basta uma única audição para que se leve-a consigo para o resto da vida, sem que seja necessária a posse de CDs ou de qualquer outro tipo de objeto físico que reproduza as ondas sonoras correspondentes — a música permanece conosco, sua Aria, ao menos (as variações podemos cada um inventar nossas próprias), invisível, tranquila, imperecível, flutuando por aquele canto nosso mais íntimo e empático que tende a resistir aos apelos por desumanização e por discórdia, por mais que estes pareçam elevar cada vez mais o volume e a estridência de suas vozes. Podem vir: venham mais ruidosos e insistentes; mais raivosos e histéricos. Venham Alckmin, Bolsonaro, sei lá mais quem, essa gente cínica e arrivista prestes a tomar conta das conversas de todo mundo até o fim do ano, a berrar preconceitos e desinformação em palanques apinhados de gente que deveria estar na cadeia por tantos e tantos crimes e por nunca utilizar um maldito dum desodorante que evite aquelas marcas redondas de suor debaixo do braço, mal escondendo quem são seus patrões, a quais interesses servem, a pobreza de suas visões de mundo. Podem vir: não irão corromper, nunca, aqueles que têm consigo as Goldberg Variations. Ao piano — instrumento mais próximo ao cravo para o qual Bach originalmente compôs sua partitura — Glenn talvez seja imbatível, mas a riqueza dessa música é algo tão extraordinário que ao experimentá-la sendo executada por um quarteto de cordas, ninguém estará necessariamente fora de seu juízo se cogitar estar ouvindo a versão ideal, o máximo da beleza possível, a própria execução perfeita tal qual teria sido imaginada em sonhos pelo seu autor, o mestre supremo, o velho Johann Sebastian, em meio aos seus incontáveis filhos, seus potes de tinta e canetas tinteiros e suas pilhas de papéis, instrumentos por todos os lados, seu mundo particular feito de mais música do que já o foi o de qualquer outro ser humano. Cortesia do Quatuor Ardeo essa maravilhosa transcrição das Goldberg Variations para dois violinos, uma viola e um violoncelo.

Agora sinto que devo pedir desculpas a quem estiver me lendo, por citar estes tão indignos geraldos e jaires nos parágrafos anteriores: perdoem-me por mencionar gente dessa estatura junto de Bach e Glenn Gould e das moças do Quatuor Ardeo, pelo travo azedo que devo ter adicionado aí na periferia de suas mentes. Creio que teremos sim gente digna concorrendo no pleito de outubro; citei apenas os asquerosos para efeito de contraste. Parafraseando Carl Sagan naquele lindíssimo episódio final da série Cosmos: “we are what hydrogen atoms can do after 15 billion years of cosmic evolution”: a beleza infindável de um Bach, mas também a iniquidade de um lambe-botas de militares assassinos. Sorte que estes terão, pouco a pouco, seus nomes escoados para o esgoto da história, e no futuro suas imagens assustarão somente os pobres infelizes que passarem diante das ridículas fileiras de retratos de ex-não-sei-o-quês que haverão de estar ainda penduradas nas paredes dos prédios públicos em cujas salas tais figuras tocavam suas negociatas — as salas com seus quadros bregas e pomposos, seus computadores praticamente vazios para evitar que municiem de provas algum eventual acusador que consiga apreender-lhes os arquivos, menções à Deus e à pátria em algum lugar sobre as mesas —, e seus legados serão relembrados, com triste e incontestável desprezo, somente por sociólogos e outros masoquistas que se dedicarem a estudar nossa triste sina de corrupção e atraso. Enquanto isso e até o fim dos tempos Bach permanecerá um gigante, e tudo que se pode pensar quando se tem este nome diante de si é reverência, felicidade, fraternidade, assim como Brahms — finalmente cheguei ao nome que queria, e quanto nos custou! — e a beleza farta e generosa de sua obra, cuja parte que sempre mais me atraiu, apesar de suas quatro magníficas sinfonias — e apesar até mesmo de Ein deutsches Requiem, obra majestosa pela qual sinto um fascínio absoluto —, é a camerística: os quartetos, quintetos, trios, sonatas, etc. Acabo de perceber, aliás, que raramente cito gravações de Brahms por aqui, o que é bastante estranho considerando-se que ele é, provavelmente, meu compositor favorito… Bem, talvez seja a própria perenidade de sua música aqui comigo o que me faz escrever pouco a respeito dela. Como esse texto já vai longo demais, deixo apenas recomendado um disco dedicado à Brahms lançado há pouco: Jean-Guihen Queyras no violoncelo e Alexandre Tharaud no piano tocando duas sonatas e algumas das Danças húngaras. A quinta destas Danças húngaras, a mais famosa de todas, possui uma curiosidade: Brahms escreveu-a pensando estar transcrevendo para o piano uma antiga e anônima canção popular húngara, quando na verdade tratava-se de uma composição de Béla Kéler. Bem, acaso eu tenha estragado o dia de alguém ao citar deprimentes personagens da política brasileira — alguém que esteja disciplinadamente tentando manter-se saudável e feliz, longe da interminável tragédia do noticiário pátrio, e não imaginava ver esse nomes por aqui — espero que com a recomendação deste disco eu tenha pago uma indenização bem mais do que justa. E se nunca escutou às Goldberg Variations, sugiro também que o faça imediatamente: é poção mágica cujo efeito persiste por 1.000 anos.

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