Antes do sol

Por Fabricio C. Boppré em 16/07/2018

Dê uma olhada na pintura acima (ou em maiores dimensões aqui), obra atribuída a Giorgione, artista italiano que viveu entre os séculos XV e XVI. Há um mundo de coisas que podem ser ditas sobre ela, mas é claro que o mais importante é o que se pode dizer a respeito da figura com o violino fazendo sua pequena música. Quase consigo ouvi-la: simples e espontânea, arranhada, baixinha (em meio aos sons naturais ao redor), feita de pausas e recomeços distraídos. Mal sendo escutada pela concentrada figura ao lado — mas esta, por certo, percebe-a em algum nível, talvez até mesmo viva dentro dela. Voltaremos às duas figuras humanas depois; comecemos pelo o que está em segundo plano, o sol que nasce ao longe, emergindo de uma fenda nas montanhas que parece evocar o nascimento de uma criança tal como visto do ponto de vista único da mãe — a mãe olhando pela primeira vez para seu filho ou filha enquanto este(a) deixa seu primeiro abrigo, o ventre materno, as pernas flexionadas e afastadas que lhe revelam (à mãe) a visão da criança como no quadro as montanhas revelam a visão do sol, e a dor e a alegria sublimes que eu, como um homem, sequer cogito imaginar ou descrever qualquer coisa a respeito. Posso ser tolo e pretensioso o suficiente para me meter a escrever sobre uma sonata de Schubert, ou um noturno de Chopin, mas não para escrever sobre uma mãe dando à luz um filho. Permitirei-me apenas revelar o seguinte pensamento: sempre considerei que um filho é, sobretudo, filho de sua mãe. Antes e acima de tudo. O pai, o homem, é uma figura marginal, costumeiramente espaçosa, quase meramente biológica, e não raro arrogante (quando não hostil), e creio que a humanidade irá melhorar bastante quando os homens ao redor do mundo começarem a perceber isso. (E antes que algum eventual psicanalista que esteja me lendo comece a imaginar problemas meus com meu pai, adianto que não é a minha experiência familiar que me diz isso: é a minha experiência completa de vida. E é claro que um psicanalista não irá me acreditar…). Mas eu dizia que o sol nasce ao longe, iniciando ou reiniciando o ciclo da vida naquele pequeno pedaço do mundo, e já ali — presume-se que antes mesmo da luz solar e portanto, alegoricamente, antes da vida — há a música, o som preenchendo o espaço antes mesmo da luz fazê-lo, contradizendo a narrativa bíblica que diz que em primeiro lugar houve a luz. E há também uma casa do lado direito, quase escondida, e agora, na minha visão, há uma questão de proporção (às margens do lago sob o sol parece haver também uma vila ou algo do tipo). A casa — e o vilarejo, se for isso mesmo — ocupam o quê, 5% de toda a imagem? O mundo como era naquela época de Giorgione: algo imenso e de limites desconhecidos, obscuro, inexplorado, feito essencialmente de florestas e mares e montanhas sem fim, tendo ainda como senhorio absoluto a natureza, enquanto ao homem e suas edificações sobrava apenas um papel secundário, coadjuvante, minoritário, avançando cheio de temores e perplexidade, as pernas trêmulas, o dia de amanhã incerto, ou sentado em uma clareira para refletir… E fazer música, apaziguando-se de suas angústias. Alguma medida de nossa subalternidade perante a natureza decerto ainda existe nos dias de hoje, mas parece já não haver a deferência, a relação respeitosa, e são cada vez mais frequentes os sinais de que isso pode não dar muito certo. Finalmente, a segunda figura na tela, o pensador, o especulador manipulando sua ampulheta (costuma-se chamar essa obra de “A ampulheta”) enquanto esforça-se para compreender algo sobre o mistério fundamental e inesgotável que é o tempo. Penso que o início da consciência acerca do tempo é o início da própria consciência humana — ou pelo menos da consciência humana em seu mais recente estágio — e a tela parece insistir na precedência da música: mesmo antes de tentarmos compreender porque vivemos já nos ocupávamos de ter alguma música ao fundo, como se fosse ela que nos dotasse de razão, a nutrição espiritual necessária para a existência e para a posterior e inevitável reflexão sobre a existência. A figura da ampulheta é um homem enquanto a do violino é (ou parece ser) uma mulher; contudo, para além da simbologia disso, para além de qualquer outro contraste visual entre as duas personagens, uma vestida de vermelho e a outra vestida de branco, há também algo em comum entre elas, algo que as aproxima em um outro nível: o grau de abstração de ambas, o exílio mental provisório que parecem experimentar violinista e filósofo em relação ao mundo ao seu redor, à presença física um do outro, e até mesmo em relação à si próprios. Retirados da paisagem e dos corpos; reunidos em espírito. Pois há essa vida da mente, do pensamento, quando então somos mais do que corpos perambulando por aí e por conta do que pensamos e criamos podemos continuar existindo até mesmo depois que nossos corpos são silenciados e baixados de volta à terra. Estamos aqui, afinal, falando sobre o trabalho de um homem que morreu séculos atrás. Talvez não seja, no entanto, necessária toda esta reflexão sobre o quadro de Giorgione: basta olhá-lo com alguma dose possível da calma que nos resta nestes tempos tão histéricos para perceber-lhe a aura de serenidade, o fascínio e a reverência que seus poucos elementos conjuram, sem maiores caprichos, sem maiores detalhes. A generosidade do artista e o comovente testemunho de humanidade estampados em sua tela. É provavelmente a menor quantidade de linhas e de cores e de tintas a jamais abarcar esse tanto do essencial e do maravilhoso da jornada humana.

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