Discos do mês - Maio de 2018

Por Fabricio C. Boppré em 01/06/2018

São duas imagens somente aí em cima, mas não se enganem: elas abarcam um universo de música, um espaço imenso composto de harmonias celestiais, buracos negros, multidões de anjos, e tudo o mais que par de olhos algum jamais viu mas a imaginação humana, que vai bem além do que a visão consegue captar, já os intuiu e garantiu-lhes a existência. Pois é, a toada continua a mesma dos últimos meses: new age, experimentos eletrônicos, e por aí afora. Paisagens sonoras amplas e desterradas. E Bach. Estou atravessando uma longa maratona barroca: escutando atentamente, disco a disco, a linda caixa Bach Cantatas, lançada pela Soli Deo Gloria em 2013. Aqui estão reunidas todas as cantatas de temática religiosa compostas por Johann Sebastian Bach e gravadas por John Eliot Gardiner em um projeto que ficou conhecido como Bach Cantata Pilgrimage. São todas as gravadas por Gardiner e seus conjuntos corais, ainda que não sejam exatamente todas as compostas por Bach, uma vez que é tido como certo que muitas de suas partituras de canções litúrgicas se perderam ao longo do anos. Não dá, no entanto, de reclamar de má sorte: sobraram-nos suficientes para preencher 28 discos duplos (*), horas e horas de música de alta voltagem espiritual, compostas em um tempo em que os homens ainda entendiam a arte musical como uma evidência da ordem divina e, por conseguinte, a missão dos compositores na Terra não era coisa pequena, não era matéria para amadores ou diletantes quaisquer. É recente meu interesse por esse tipo de música (acho que dá de localizar seu início exatamente aqui), e apenas um pouco mais jovem do que minha admiração por essa figura gigante que foi Bach. Estou ainda no começo da peregrinação — hoje (domingo, dia 27 de maio) devo escutar o disco número 5 — mas já posso dizer tranquilamente que a beleza da coisa toda não cabe em palavras. Passaram-se então dois séculos da morte de Bach, mudaram-se os meios e os instrumentos, e temos Laurie Spiegel. Nem todo mundo hoje relaciona música com desígnios divinos — nem todo mundo hoje sequer acredita no divino, o que me parece uma inescapável e muito bem vinda mudança na mentalidade humana — mas o entendimento da música como algo que supera o homem, algo que está na base mesmo da estrutura universal, a percepção disso creio que todo mundo já deve ter experimentado ao menos uma vez na vida, por mais periférico que seja o seu interesse nesta arte. Há extensa literatura entrelaçando música e astronomia, música e as leis que movem os astros, teorias e tratados que descrevem solenemente essa relação com ares de mistério e misticismo, quando o mais provável é que o fascínio pela música — não só pelo ouvir música, mas também pelo fazer, pelo compreender, etc. — e essas visões grandiloqüentes de música como uma linguagem sobre-humana, cósmica, demiúrgica, o mais provável é que tudo isso seja explicado pelo fato de que nossa capacidade de fazer e de apreciar ritmos e melodias é íntima da nossa capacidade de compreender e admirar o universo, ou aquela é uma espécie de antevisão desta: é como uma forma que inventamos, antes das muitas descobertas acerca das leis físicas que regem o universo, uma forma metafórica e poética que inventamos para admirar e reverenciar o cosmos, usando como matéria-prima um de seus elementos básicos e que temos todos (ou quase todos) à disposição de nossos sentidos, um dos itens essenciais da vida cá na Terra: o som. Tudo isso enquanto nos esforçamos para compreendê-los, som e universo, para desvendá-los cada vez mais a fundo, de acordo com as precariedades e ilusões de cada época. É como um processo inevitável: há o universo, e há a música, porque estamos o tempo todo olhando para o céu. Quase perdi o fio da meada, mas de Bach a Laurie Spiegel, o que eu queria dizer é que alguns princípios não mudaram: a devoção destes criadores pela sua missão; a reverência e a perplexidade; a consciência de que são ambos, céu e música, engendrados a partir de uma mesma origem e que entender um é entender o outro. Laura Spiegel está entre as pioneiras de uma nova forma de se empreender esta busca, forma surgida em meados do século passado: a música eletrônica. Uma de suas gravações, The Expanding Universe, lançada originalmente em 1980 e relançada em uma fantástica edição ampliada em 2012, é item essencial para qualquer um que se interesse por esse tipo de música experimental e especulativa na linha de Pauline Oliveros e Karlheinz Stockhausen. Talvez, para nós aqui neste nosso momento da história, com nossa já ampla bagagem de computadores, video-games e efeitos especiais no cinema, talvez os sons a que somos apresentados inicialmente em The Expanding Universe soem um pouco ingênuos, como que feitos a partir de nossos primeiros brinquedos eletrônicos nos anos 80 — as traquitanas da Tectoy, o Atari, o Genius, os primeiros PCs com suas placas de som da Sound Blaster. Mas é um efeito que não dura; as faixas começam a se estender, criam ambiências e texturas que logo reconhecemos em nosso íntimo e nos absorvem, e reconhecemos também alguns dos ritmos que predominam em nossas mentes nos momentos de maior abstração e quietude e que parecem ser ainda os últimos vestígios de nossa origem estelar, ecos remotos persistindo obstinadamente em nossos sentidos como uma lembrança vaga, ancestral. Aqui uma página cuja leitura é imperdível para quem se interessar por The Expanding Universe e pelo trabalho de Laurie Spiegel. A certa altura, elaborando sobre a composição Kepler’s Harmony of the Worlds, ela comenta sobre as conjecturas de Johannes Kepler a respeito da possibilidade de existir uma certa harmonia das estrelas, que seria audível apenas pelos ouvidos de Deus. É tudo muito bonito e comovente, mas Laurie, entre outras, fez algo ainda mais belo: ajudou a nos desvencilharmos dessas amarras mitológicas todas e a explorarmos o mundo sem medo, o que nos proporcionou enfim a possibilidade de admiração ampla e irrestrita pela música e pelo universo. São as mulheres, como sempre, melhorando aquilo que fizeram os homens antes delas.


(*) Uma nota sobre os CDs: a imagem que ilustra o alto deste post é da caixa que abriga os discos; estes, no entanto, possuem também artes próprias, sendo a capa de cada um deles o retrato de uma pessoa vestida e ornamentada de acordo com culturas e épocas diversas. Digite “bach cantatas gardiner” no Google Images para ver uma amostra dessas imagens. É uma das artes fonográficas mais lindas que já vi na minha vida — se não a mais a bela de todas.

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