Discos do mês - Abril de 2018

Por Fabricio C. Boppré em 01/05/2018

Neste mês que passou não tive muito tempo para escrever — pelo menos não com alguma medida pessoal mínima de capricho e concentração — sobre os discos que venho escutando nestes dias tão atarefados, portanto me perdoem caso o relato que segue esteja mais confuso do que o habitual. Primeiro: que excelente surpresa este Harmony of Difference do Kamasi Washington! Digo “surpresa” porque seu trabalho anterior, The Epic, apesar da enorme expectativa que criou em mim quando fiquei sabendo que se tratava de um disco triplo — ou justamente por causa dessa enorme expectativa — este portento de 173 minutos acabou me decepcionando. Sei exatamente quantas vezes escutei-o: foram três, e ao final da terceira eu me dei conta de que não havia mais nenhum motivo para repetir a dose. O disco é exigente e audacioso, a capa é linda, todos os sinais apontavam para algo pelo qual eu me apaixonaria intensamente, porém nos mais de 500 minutos que passei em sua companhia, nem a mais microscópica semente que fizesse florescer um interesse continuado foi plantada em minha mente — o épico não despertou afeição alguma em mim, suas músicas passavam em brancas nuvens, não me vi em momento algum pensando “quero ouvir esse disco quando chegar em casa”. E é isso, basicamente, o que define minhas paixões musicais. Dei-o como descartado no fim desta terceira audição, e foi bastante desconfiado que resolvi experimentar Harmony of Difference… E que bom que o fiz! Já na segunda faixa eu estava bastante empolgado com o disco, que em pouco mais de 30 minutos entrega, pelo menos aos meus sentidos, muitíssimo mais do que aqueles tantos outros de The Epic. E nem foi o jazz que mais me encantou nestes últimos dias: este atende pelo nome de Cecil Taylor, cujo obituário figurou nos jornais e portais musicais no dia 5 de abril, uma perda muito triste. Seus discos são fabulosos, e são muitos, um incrível universo de música aventureira, tumultuosa e instigante, uma alegria sem fim para quem gosta de desafios. Cecil tinha 89 anos quando morreu; Bob Dylan tem 76 anos. Não é fantástico termos uma figura do porte de Dylan ainda entre nós, ainda compondo e escrevendo e levando sua Never Ending Tour mundo afora? Acho perfeitamente compreensível tanta gente torcer o nariz para o trovador norte-americano: sua voz pode mesmo ser um obstáculo muito grande para a apreciação de seus discos. Eu, no entanto, sempre gostei muito de Dylan, e no que diz respeito ao instrumento natural alojado dentro de sua garganta, que parece ter vindo com algum defeito de fábrica, tenho com este uma relação similar à que tenho com a voz de Chico Buarque: também o “cantor” Chico Buarque é frequentemente enxovalhado, e também esta voz tão peculiar, e sua aparente falta de jeito como cantor, muito me atraem e têm o efeito inverso de me agradar por soarem únicos, idiossincráticos, corajosos na interpretação de suas próprios composições a despeito da falta de carisma ou de uma aptidão natural que se encaixe nos padrões mercadológicos. São, ambos, criadores e contadores de histórias e cenários exclusivos, inigualáveis, e isso começa por suas letras e passa também, inevitavelmente, por suas vozes. E, claro, seus mais importantes talentos — os da escrita — estes suplantam em muito estes pormenores. Chico é um gigante, e os insultos que vêm recebendo nestes últimos tempos por conta de suas opiniões políticas, neste nosso país tão grosseiro e tacanho, só evidenciam mais e mais sua grandeza; Dylan não fica atrás: não foi à toa que o americano ganhou dia desses o Nobel de Literatura; não à toa sua obra é uma pedra angular nas artes modernas deste lado do Atlântico e na compreensão deste capítulo tão importante na história do mundo que são os EUA, uma voz crítica e poética e mística e política tudo ao mesmo tempo, abarcando toda a complexidade e contradições e belezas americanas. Uma pequena amostra disso, para quem nunca conseguiu levar a sério a mais famosa voz fanha de todos os tempos, está em With God on Our Side, do álbum The Times They Are a-Changin’ (que escutei repetidas vezes nos últimos dias). Ouça esta música, leia sua letra com atenção, e torne-se também um admirador arrebatado de Bob Dylan.

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