Impressões auditivas, Vol. IV

Por Fabricio C. Boppré em 06/04/2018

  • Houve um filósofo, na Grécia de mais de 20 séculos atrás — alguém que certamente não se referia a si próprio dessa forma, “filósofo”, mas como deveria ele chamar-se então? pensador? poeta? físico? — aquele filósofo disse: “o tempo é uma criança brincando”. O tipo de frase cujo aparente enigma se esvai em menos de um segundo, se você pára para pensar: você a repete e a entende, compreende sua verdade, pois há no íntimo de todos nós a chave que decodifica a metáfora imediatamente, instintivamente. “O tempo é uma criança brincando.” Pensava nisso ontem enquanto ouvia uma gravação da quinta sinfonia de Tchaikovsky, essa alegre maravilha de fins do século XIX, bela como algumas das páginas mais reservadas de Whitman, ainda que aquele embalo mais solto e colorido do segundo movimento possa ter feito levantar-se da cadeira o velho poeta e colocado-o para dançar, o homem que era todos os homens e sua barba desgrenhada rodopiando e rindo das aflições do passado e do futuro, rindo dos vivos, rindo dos mortos, e Tchaikovsky, sisudo como vemos nas fotos e imagens, ali ao seu lado, aprovando, secretamente, com sua barba bem delineada, o efeito desvairado de sua música.
  • O caso é que sinfonias, frequentemente, assemelham-se às dramáticas figuras de pedra da imagem acima: titânicas, intimidantes, coisas de durações e lógicas desmedidas, relíquias de um tempo que já ficou distante. Outras vezes, contudo, elas descem ao território profano das duas figuras pedestrianas da mesma foto, o mundo simplório e secular do casal confabulando seus assuntos cotidianos, com suas típicas indumentárias humanas, os passos leves sobre o chão, passando indiferentes ao peso colossal do tempo.
  • Tendo dito tudo isso, se por acaso eu tiver acendido uma fagulha de curiosidade em alguém que nunca ouviu sinfonia alguma, então, além das famosas de Tchaikovsky, Beethoven, Mahler e Brahms, sugiro um outro nome: Bruckner. É um oceano ao qual eu apenas acabo de me lançar — mal deixei o porto invisível para trás — mas já estou fascinado. (Comecei pela de número 7, desta gravação.)
  • Mudando de assunto: yes, it’s been too damn long.

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Créditos da imagem: Le Combat du Centaure, de Robert Doisneau (1971).



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