Discos do mês - Março de 2018

Por Fabricio C. Boppré em 02/04/2018

O estado de calamidade em que vivemos neste país, por mais inconcebível que isso possa parecer, continua a agravar-se, a despeito do que dizem os velhacos de ternos bem cortados e português tosco lá de Brasília. E como no resto do mundo as notícias não são de deixar ninguém muito mais otimista, a vontade que sinto é de fugir para algum mundo impossível como o fundo do mar, ou buscar refúgio nalgum interstício de espaço-tempo que me desconecte totalmente disso que estamos fazendo com este espaço e este tempo, com este planeta e esta gente, em especial com os mais necessitados, e com as minorias, e com os que ousam defender estas minorias, e os nascidos nas zonas de guerra do mundo. Tornar-se um apátrida, um excomungado de toda e qualquer organização humana, para ao menos não ter o desgosto da associação — geográfica, social, genética, qualquer que seja — com certa parcela de humanos que não se sabe se por ignorância ou por pura e simples perversidade parece estar se divertindo e aplaudindo a visão do fundo do poço, cada vez mais perto, todos rindo e urrando ante a degradação total daquilo a que costumávamos nos referir como nossa “humanidade”, ante a visão de nosso colapso final. Como essas fugas são todas impossíveis, ao menos uma, repetida dia após dia, ritualmente, durante algumas frações de tempo destas cansativas jornadas: em direção ao mundo desterrado da música. Dessa ainda não nos despojaram. Tenho escutado intensamente um certo tipo de música que, na impossibilidade de identificá-la por apenas um ou dois rótulos mais precisos, vou então listar desordenadamente alguns de seus elementos distintivos, algumas medidas que, a despeito da diversidade de tipos e ordens de grandeza, compartilham de alguma coisa meio indefinida, algo de ordem mais abstrata, para além do fato de estarmos falando mais ou menos de uma mesma época (por volta dos anos 70 e 80) e de uma mesma forma (é sobretudo música instrumental): new age, krautrock, alemães malucos experimentando sons eletrônicos, sintetizadores, esoterismo, música ambient e minimalista. Viagens astrais, expansão da mente e música cósmica. Deu para ter uma idéia? Talvez o que toda essa música tenha em comum seja uma espécie de gênese onírica, lisérgica, nada que seja terreno completamente inexplorado para mim, mas nunca antes eu havia passado tanto tempo seguido em companhia de Tangerine Dream, Vangelis, Kitaro, Isao Tomita, Steve Roach, La Monte Young, Lisa Gerrard, entre outros. São bandas e artistas (ou pelo menos boa parte deles) que tinham tudo para soar, hoje em dia, bastante datados, obsoletos, alguns até mesmo inapelavelmente bregas, e, no entanto, estranhamente, nada disso acontece — ao menos para mim eles têm oferecido uma boa alternativa para essas fugas impossíveis, um bom destino para recobrar o ânimo, frequentemente de caráter escapista e fugaz, é verdade, mas nem sempre: uma ou outra visão oferecida pelos seus mais audaciosos mensageiros pode fixar-se poderosamente no espírito. Considere o clássico Zeit, dos alemães do Tangerine Dream: este amplo e vaporoso firmamento sonoro poderá ir bem além da mera expurgação mental que nos é exigida após a leitura das notícias do dia; poderá mesmo ocasionar uma inesperada viagem extragaláctica, sem naves ou propulsores, sem preparativos, sem nada — um mergulho súbito e profundo para cima, rumo ao incógnito. Tem sido esta minha rotina nas últimas semanas: acordo, tomo meu café e leio as notícias; depois, coloco algo do Tangerine Dream ou do Vangelis para tocar, desconecto-me do mundo e começo a trabalhar. Já entre os sons mais recreativos, tem uma banda que eu descobri alguns dias atrás, uns alemães (eles novamente) que se chamam You e cujo disco Time Code, de 1984, é sensacional: sons eletrônicos que parecem gravados por uma gente que se criou nos mundos surreais daqueles filmes de ficção-científica ultra-coloridos dos anos 50 e 60, Fantastic Voyage, Forbidden Planet, entre outros clássicos. Sim, é realmente espantosa a quantidade de música fantástica que começou a surgir na Alemanha a partir do fim dos anos 60.

Kitaro, por sua vez, é a face mais popular da new age, a mais reconhecível e terrena. Mesmo que este nome aparentemente não lhe diga nada, é muito provável que você já tenha escutado algumas de suas flautas e teclados, a trilha-sonora oficial de todos aqueles maravilhosos clichês: os sons de um novo amanhecer, do homem emancipado, do Übermensch de Nietzsche tomando banho nas águas termais da Big Sur de Henry Miller, de tudo aquilo que não temos mais absolutamente nenhuma esperança de ver tornar-se realidade algum dia. E mesmo que não, que você nunca tenha escutado nenhuma de suas músicas, então não é sequer necessário que o faça para saber do que se trata, pois basta ler seus títulos: Cosmic Energy, Rising Sun, Fragrance Of The Nature… Estas são algumas das faixas de Oasis, disco que Kitaro lançou em 1979, o mesmo ano em que o Clash lançou London Calling — enquanto os punks convocavam a rebelião e os alemães especulavam sobre como seria a música feita por hippies alienígenas, o velho japonês sugeria o recolhimento e a meditação.

Tenho ouvido também muito Jimi Hendrix e Led Zeppelin — dos ingleses, muitos bootlegs, que muitas vezes são sublimes, outras tantas apenas exercícios de prolongada paciência cujo desejo de voltar a escutar uma segunda vez não consigo imaginar habitando a mente de alguém que goze de boa saúde psíquica — mas desses nada tenho de novo para escrever… Já dediquei centenas de laudas deste blog para estes velhos heróis do passado. Jimi: a tattoo ainda vai sair, meu chapa, tenha paciência (o que na sua atual condição creio que não lhe seja muito difícil). Tem um outro disco, no entanto, de outro artista que cito recorrentemente por aqui, que eu queria tentar dizer alguma coisa. Trata-se de The Harp Of New Albion, de Terry Riley. O mestre americano, homenageado pelo Who na canção Baba O’Riley e ainda vivo e produtivo, toca o piano solo deste álbum duplo baseado num mito cuja explicação mais detalhada não achei em lugar nenhum — sei apenas que Albion era um nome antigo para a Inglaterra e New Albion foi uma das primeiras denominações da Baía de San Francisco, na California. Pouco importa: a música é suficiente. Para mim, mais do que suficiente: me vejo, neste momento, às portas da obsessão por ela, cada vez mais refém de seu incrível efeito de hipnose. Algumas das dez partes da obra atingem tal nível de beleza, de intensidade sonora, que tem-se a nítida impressão que aquilo não é apenas um piano, mas uma orquestra completa; de fato, em seus melhores momentos, uma espécie de halo forma-se sobre a música, uma massa sonora flutuante e elusiva que, a princípio, assombra e confunde o ouvinte, enquanto segue acumulando-se e tornando-se cada vez mais densa, dissipando pouco a pouco a incredulidade, convertendo-a em puro e concentrado deslumbramento. Aqui também se trata de música para refugiar-se dentro dela, e enquanto ela dura, não parece haver nenhuma outra possibilidade de vida mais sublime.

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