Um dia banal qualquer

Por Fabricio C. Boppré em 21/03/2018

Ah, as recompensas e delícias de ser um caçador de discos! Mesmo numa cidade periférica no mundo da música (de qualquer mundo, na verdade, o que tem as suas vantagens e suas desvantagens) como Florianópolis. Fato é que alguém, algum dia, importou, ou ganhou de presente de um amigo estrangeiro, ou trouxe em sua bagagem esse CD da Blue Note, a mítica gravadora americana cujos discos e suas lindíssimas capas são parte essencial do mundo jazz. Eu andava pelo coração da cidade, entre a catedral e a Praça XV, indo fazer a coisa mais vulgar e ordinária de todas: sacar dinheiro no banco. Andava e pensava nisso e naquilo, o trabalho que tinha que fazer quando chegasse em casa, o horário do ônibus que me levaria até lá assim que saísse do banco, etc., e meio perplexo, como sempre, com a variedade de rostos e personalidades que se vê habitualmente num centro urbano em horário de movimento. Na feira que se instala naquele espaço às terças-feiras tem a banca do seu Lima, com seu usual lote de quinquilharias (candelabros, conchas e tabuleiros de xadrez cujas peculiaridades especiais residem no fato de não terem absolutamente nenhuma peculiaridade especial) dividindo espaço com livros e discos usados. Dei uma olhada automática meio de longe, distraidamente, e a capa de um CD me chamou a atenção de imediato, um pequeno quadradinho monocromático em meio às múltiplas cores das outras coisas todas empilhadas na mesa diante do seu Lima, uma única coisa estática e silenciosa em meio ao alvoroço e ao burburinho da multidão que atravessava a feira naquele momento, como que uma pérola brilhante afixada no meio de uma montanha de objetos foscos e cambiantes, mas ao contrário — só aquele disco não refulgia sob o sol alto das 13h, só aquele objeto parecia não estar envolvido no esforço de locomoção e de chamar a atenção que atravessava em ondas a multidão barulhenta em seus caminhos frenéticos, em suas jornadas repetitivas e infrutíferas neste país cuja rotina prioritária parece ser, cada vez mais, acostumar-se e tornar-se indiferente às piores atrocidades. Fui em direção ao seu Lima imediatamente, a intuição do caçador sussurrando que aquilo era algo que eu poderia querer levar comigo para casa, eu que já carregava uma caixa retirada do correio minutos antes. Pois bem, o disco era nada mais nada menos do que Money Jungle, lançado pela Blue Note em 1963 e gravado por Duke Ellington, Charles Mingus e Max Roach, um daqueles times que, quando rememorados pelos devotos do jazz, provocam imediatamente francas e largas gargalhadas de puro prazer, pura alegria em saber que um dia esses três mestres já fizeram música juntos, e essas pessoas ficam sem saber o que falar, continuam simplesmente rindo, seus olhares transmitindo: “É Duke, Mingus e Max juntos, oras, não precisa dizer mais nada”, mais ou menos como os saudosos dos bons tempos do futebol brasileiro devem se expressar sobre a Seleção de 1958, aquela que tinha Pelé e Garrincha. Comprei o CD por 15,00 reais, em excelente estado, praticamente novo, ainda que os vestígios de uma história agora irrecuperável — como esse disco foi parar numa banca de cacarecos usados, ao lado de estandes vendendo geléias e roupinhas para bebês? — as marcas que comprovam que ele já foi manipulado antes estejam nas bordas do encarte e numa e noutra mancha de dedo na parte de cima do CD. Como alguém adquiriu-o, tirou-o de seu plástico original, possivelmente escutou sua música exuberante e o descartou em troca de sei lá quantos pouquíssimos reais? Não saberemos jamais… A caixa que eu trazia comigo tinha dentro o meu tão aguardado Moving Picures em vinil, mas de noite, ontem (pois isso tudo foi ontem), esquecemos o Rush e o que escutamos foi Duke Ellington, Charles Mingus e Max Roach, e enxugamos uma garrafa de vinho, e nos deslumbramos com a sorte de eu ter achado esse pequeno mistério no centro da cidade num dia absolutamente banal qualquer, e depois lavei a louça e recoloquei o disco em sua caixinha e juntei-o às dezenas de outros pequenos mistérios que já ocupam quase todos os espaços da minha estante de discos.

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