Discos do mês - Fevereiro de 2018

Por Fabricio C. Boppré em 06/03/2018

Rush - Different Stages

O que eu tenho escutado de Rush nas últimas semanas é algo bastante grave. Um verdadeiro escândalo! Prevejo até uma cena desenrolando-se num futuro que espero ainda distante, certo dia em que irei olhar para trás e relembrar, cheio de nostalgia e dores nas costas: “houve um ano, no início deste século…” — a imprecisão temporal que há de vir com a idade — “… naquele ano eu tive um Verão do Rush”. Vou torrar a paciência de algum outro infeliz alquebrado como eu com minhas reminiscências musicais… Meu “Verão do Rush”, conjugando-o ainda no presente: tranquilo, não tão quente quanto os últimos, feito de visitas a mares serenos e longas caminhadas por ruazinhas e servidões vítimas em variados graus do processo de serem engolidas pelas árvores — a natureza reclamante admoestada para trás com muito esforço pelos poucos que ainda não necessitam de bairros urbanos com farmácias em todas as esquinas —, a companhia de tucanos e seus vôos impossíveis, e pelo menos uma sessão do trio canadense por dia. A febre começou com um ou outro disco, inofensivamente, em homenagem aos célebres novos aposentados do rock ’n’ roll, e logo percebi que não conheço tão bem assim os álbuns mais antigos da banda; depois relembrei que sempre adorei sem nenhum constrangimento ou reserva aqueles discos cheios de teclados dos anos 80, discos que, aliás, lembro de já terem sido parte da minha trilha-sonora de um outro verão mais antigo, passado num cenário não muito diferente deste (na mesma ilha), num ano em que choveu intensamente, intransigentemente, sem trégua, e passei aqueles dias de férias em que simplesmente não havia mais nada para se fazer ouvindo fitas cassetes que traziam gravados os álbuns Signals, Grace Under Pressure e Power Windows, o walkman no colo enquanto observava as goteiras despencando pesadas das beiradas do telhado da velha casa de praia da família, sentado numa espécie de cadeira de balanço que mais parecia um enigma geométrico de marcenaria experimental. Isso foi há bastante tempo. Na paixonite (palavra que ouvi uma menina falando dia desses no ônibus) atual, além de dedicar-me com mais atenção aos discos dos anos 70, tenho escutado bastante aos muitos registros ao vivo que o Rush lançou ao longo do seus 40 anos (li em algum lugar que a banda tinha a política de lançar um disco ao vivo a cada quatro de estúdios lançados), preferência explicada pelo conveniente destas compilações trazerem sempre algumas incríveis sequências de jóias do maravilhoso catálogo da banda. Veja, por exemplo, a sequência final de A Show of Hands, de 1989: Force Ten, Time Stand Still, Red Sector A e Closer To The Heart. Ou então, minha favorita: as quatros faixas finais do segundo disco do Different Stages, lançado em 1998: Natural Science, The Spirit of Radio, Tom Sawyer e YYZ. Os discos ao vivo do Rush são excepcionais, justificam-se plenamente através de suas dosagens perfeitas de técnica, paixão e repertório. Toda a discografia desses caras é, na verdade, algo quase sem nenhuma reparação necessária (desde que você, evidentemente, não faça parte da outra metade do mundo, aquela que odeia o Rush; nesse caso, a mera existência da banda é um único e enorme e irreparável erro), o que acaba por suprimir quaisquer tristezas que poderiam advir do recente anúncio do fim do trio. Deve ocorrer justo o contrário: o fã de Rush deve ser todo orgulho por vê-los saindo de cena com grande dignidade, sem máculas, o que pouquíssimas bandas sabem fazê-lo. A lamentar somente o fato de eu, este fã meio relapso, não tê-los visto ao vivo.

Trevor Jones & Randy Edelman: The Last of the Mohicans Soundtrack

Eu tinha, já há algum tempo, um certo tema de música de cinema na cabeça, uma música épica e orquestrada, de melodia grandiloquente, que eu não conseguia me lembrar de qual filme ela fazia parte. Era aflitivo: de tempos em tempos o tema me vinha à lembrança e o filme parecia prestes a ressurgir diante dos meus olhos, e então… Nada. Tela negra, nada de filme nem de cenas nem de personagem algum, só a música desenrolando-se imperturbável em minha mente, em seu tempo espaçado e imponente, com uma nota subjacente de zombaria pela minha memória fraca. Até que dia desses resolvi re-assistir um filme do Michael Mann chamado O Último dos Moicanos, como parte de uma nova chance que eu estava disposto a dar a este diretor, de quem eu havia me tornado inicialmente indiferente (em ordem cronológica:) quando assisti a um dos seus filmes pela primeira vez, justamente esse O Último dos Moicanos, e não gostado nem um pouco (mas foi aí, agora eu sei, que a música alojou-se na minha cabeça, muito tempo atrás); depois tornei-me fã quando ele lançou aquele filme Heat, com o Al Pacino e o Robert De Niro fazendo uma das duplas de antagonistas mais memoráveis de todos os tempos; depois, contudo, perdi o interesse nos filmes de Mann quando saiu Colateral, que achei muito ruim, a despeito dos louvores quase unânimes que o filme recebeu na época; finalmente, umas semanas atrás, assinei novamente minha ficha de filiação ao fã-clube deste diretor americano quando vi um de seus primeiros filmes, Manhunter, a primeira adaptação cinematográfica de Hollywood para uma obra do escritor Thomas Harris, o criador do Hannibal Lecter. Essa insistência em tentar gostar de Mann se dá porque reconheço nele um diretor, como se costuma dizer, “autoral”, desses que têm idéias estéticas próprias, um cuidado especial com a música, desenvolve seus personagens, etc. Todos os diretores deveriam ser assim, mas como Hollywood deixou há muito tempo de ser sobre arte e passou a ser sobre dinheiro, estes artistas estão tornando-se cada vez mais raros: eles vão perdendo suas oportunidades de trabalho para aqueles que são profissionais mais competentes em produzir sucessos de bilheteria, o que não necessariamente significa bons filmes com alguma relevância artística. Bem, assisti novamente ao O Último dos Moicanos, e lá está o tema orquestrado épico que por tanto tempo fustigou minha memória em busca do filme ao qual pertencia, sempre em vão. O filme continua bem ruim, na minha opinião, bastante bagunçado, um ritmo estranho que denuncia claramente que houve todo tipo de problemas em sua produção (ingerências de estúdio, edições exigidas por produtores ou sei lá quem, demissões de pessoas no meio de seus trabalhos, coisas do gênero), e o uso da música sofre e denuncia tudo isso: frequentemente têm-se a impressão de que ela está num tempo errado, desconectada em relação ao que se passa na tela, como que deslocada — às vezes prematura, outras simplesmente inadequada. A coisa toda é bastante convoluta. Mas o tema principal, autoria de Trevor Jones e Randy Edelman, é mesmo ótimo, e o disco da trilha-sonora traz ainda diversas outras faixas acessórias menores (que tenho a impressão de aparecerem em maior proporção no filme do que no álbum), vários sons que quase exageram nos clichês new age/world music — vocais à moda Enya, gaitas de fole, etc. — e que muito provavelmente, de fato, exageram, e bem além daquilo que pessoas saudáveis conseguem tolerar, mas como eu tenho esse enguiço cerebral de adorar esses sons clichês daquela época, então para mim isso não é problema. O disco é ótimo, melhor do que o filme. Como diretor, Michael Mann é altamente inconstante, mas na música de seus filmes ele e seus colaboradores quase nunca erram.

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