Impressões auditivas, Vol. II

Por Fabricio C. Boppré em 12/02/2018

  • Das lacunas inexplicáveis na coleção de discos: Moving Pictures, do Rush. Como é possível eu nunca ter adquirido esse álbum?
  • Aliás, foi com as palavras a seguir que o guitarrista Alex Lifeson, coisa de três semanas atrás, anunciou que o Rush deixou de ser banda e tornou-se lenda: “We’re basically done. After 41 years, we felt it was enough.”
  • Thomas Pynchon não é um escritor de livros de fantasia. O universo de suas histórias parece ser este mesmo em que vivemos, este cada vez mais esquadrinhado e desencantando1 pelos nossos computadores, e seus temas centrais são feitos das mesmas questões contemporâneas que nos afligem aqui do lado de fora do mundo da ficção. Não obstante tudo isso, seus livros são frequentemente pontuados por passagens sobrenaturais e até mesmo bizarras. As tramas são enormes e os personagens são dezenas, mas nunca falta espaço para pequenos interstícios insólitos, que surgem do nada e encerram-se sem deixar vestígios, e ficam por isso mesmo, sem maiores explicações e sem influir de modo determinante na narrativa que está em curso. Pynchon parece se divertir em fazer o contrário com o inverso do que ocorre no cinema: nunca vemos, nos filmes, pequenos fatos banais e inconsequentes como um telefone tocar e ser engano, ou um pernilongo morder a perna de um personagem que tem que se abaixar para coçá-la antes de continuar a fazer seja lá o que for que ele esteja fazendo — em suma, as pequenas interrupções que nos acontecem o tempo todo na vida real, mas nunca aos personagens de um filme, de modo que, quando estas parecem acontecer na tela, nossos cérebros calejados imediatamente nos alertam de que tal fato aparentemente banal não vai demorar para se revelar, na verdade, crucial para o seguimento da trama, como a caneta que o diretor da prisão de Hannibal Lecter se dá conta que perdeu, na cena em que ele precisa assinar determinado documento e a procura em vão em seus bolsos, em O Silêncio dos Inocentes. Obviamente, não é uma mera caneta perdida. O procedimento de Pynchon é o mesmo do cinema, mas com os sinais invertidos: o extraordinário prosaico é descrito — ou: não é omitido — e não redunda em nada. Por exemplo: em Contra o dia, um personagem vai a um concerto numa catedral para assistir The Lark Ascending, de Elgar. Durante o concerto, ele próprio, o dito personagem, começa a levitar em meio ao público, movido pela beleza da obra. Não é uma mera sensação descrita por ele — é levitação mesmo, física, minuciosamente narrada em seus detalhes espaciais e testemunhada pelos outros presentes na catedral. Por isso que eu disse que o procedimento de Pynchon é o contrário com o inverso: no filme, uma caneta que é só uma caneta (menos ainda: uma caneta perdida) desempenha papel fundamental na trama, sua (não-)presença cumpre uma missão essencial à narrativa; no livro, uma música que é uma música tão fantástica e tão linda faz um ser humano levitar sem que isso, no entanto, se desdobre em algo importante, sem que isso faça diferença alguma, algo que sequer precisaria ter sido mencionado…
  • Aliás, uma frase atribuída a Thelonious Monk serve de epígrafe no começo de Contra o dia: “É sempre noite, do contrário a gente não precisaria de luz.”

1 “Desencantado”, claro, se levarmos em conta o conceito secular de “encanto”. Aqueles de mente mais científica, por outro lado, devem julgar que o universo está ficando, na verdade, cada vez mais encantado… Tendo a concordar com eles.

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