Discos do mês - Janeiro de 2018

Por Fabricio C. Boppré em 06/02/2018

R.E.M. - Around the Sun

Diferente do que ocorre com, digamos, Pearl Jam e Radiohead, com o R.E.M. eu estou sempre renovando meus votos de paixão fiel. Posso passar longos períodos de tempo sem escutar aos dois outros citados pesos-pesados dos anos 90, a quem adoro de verdade, e também ao Smashing Pumpkins e ao Jane’s Addiction, também eles estimadíssimos grupos cujos discos acontece-me vez por outra de passar meses sem ouvir, porém com o R.E.M. nada disso ocorre — meu vínculo com eles não permite, o status dessa banda comigo é algo que eu não saberia nomear. Escrevi dia desses algo sobre o Automatic for the People, não foi? (E só não vou pesquisar no histórico do blog quando foi exatamente pois, sendo esse um dos meus álbuns mais queridos, tenho certeza que deitei longas linhas de bobagens melodramáticas, então pouparei-me o constrangimento de reler aquilo.) E também escuto muito frequentemente ao New Adventures in Hi-Fi e ao Murmur, e ao Monster e ao Out of Time. Tenho, contudo, uma dívida com a banda: os três últimos discos. Acho que o último álbum lançado pelo R.E.M. a quem dediquei o tempo merecido foi o Reveal; os três que saíram depois eu escutei muito pouco. Pois bem, resolvi dar um jeito nisso, começando pelo Around the Sun, que Stipe, Buck & Mills lançaram em 2004 — é o terceiro álbum sem Berry, o baterista que deixou o grupo logo após o lançamento de New Adventures in Hi-Fi. Minha lembrança da época em que Around the Sun foi lançado é de ter ficado bastante frustrado com o disco, que pareceu-me débil e evanescente exatamente como as figuras que aparecem em sua capa. Isso foi o que ficou registrado na minha memória: a capa desse disco é uma imagem fidedigna da música que ele contém, e talvez venha indicando a chegada do inverno da banda, o começo do fim. E assim a coisa ficou. Mas não é raro acontecer o seguinte: o tempo passa e as bandas se dissolvem, e o julgamento mais duro que reservávamos a este ou àquele álbum, opiniões calcificadas pela falta de provas e contestações, passam a pedir por reavaliações. Afinal, é isto o que teremos para sempre; não haverá acréscimos, reviravoltas, retificações. Não são apenas os tempos verbais que mudam: um sentimento premente de não se poder descartar nada nos leva a adotar ouvidos mais ternos e receptivos para os discos que julgávamos menores, discos que talvez — agora enfim percebemos, ou nos convencemos — tenham sido afetados por expectativas irreais na época de seus lançamentos, sabotados pelas decepções que traziam quando enfim chegavam em nossas mãos e não encontrávamos neles uma correspondência entre uma coisa e outra, entre o que queríamos e o que a banda tinha para oferecer, e tais frustrações anexavam-se aos discos e lá ficavam enquanto a banda existia e estava disponível para, em breve, quem sabe, reabilitar-se. Enfim — acontece, às vezes, da banda não estar mais lá; acontece, às vezes, de nos vermos obrigados a reconfigurar nossas relações com estes álbuns aos quais não estávamos em bons termos, porque é tudo o que nos resta. E adivinha? Pois é: Around the Sun já não me parece tão deficiente assim. Há coisas perigosamente próximas de serem mais do que apenas descartáveis no disco, sim, mas isso é uma constante na discografia do R.E.M., há deslizes e tombos monumentais mesmo em seus melhores álbuns. E há as pérolas: Final Straw, Electron Blue e Wanderlust são as faixas de que mais gosto em Around the Sun. Ok, talvez não dê de enumerar tantas faixas boas assim… Mas o disco não é, de modo algum, fraco como eu me lembrava. Aquelas formas humanas na capa parecem ter ganhado um pouco mais de cor e de foco. Vamos ver como irão sair-se, na sequência, Accelerate e Collapse into Now, os dois últimos álbuns do R.E.M..

Pink Floyd - A Momentary Lapse of Reason

Suponho que esse processo de luto e ressignificação que descrevi acima deve ter acontecido com muitos órfãos do Pink Floyd em um momento ou outro do longo e agonizante perecimento da banda, a respeito desse ou daquele álbum, mas principalmente em relação ao A Momentary Lapse of Reason, o primeiro disco que o grupo lançou após a conturbada saída de Roger Waters, lá no remoto ano de 1987. Bem, comigo não foi o caso: sempre gostei deste álbum, desde que escutei-o pela primeira vez. Considero-me um fã relativamente profissional de Pink Floyd e não tenho preferência por Waters ou Gilmour, essa polarização boboca que existe entre muitos fãs e que em geral determina as opiniões a respeito desse disco. É um outro Pink Floyd este comandado por Gilmour, sem dúvida, mas o Pink Floyd exatamente anterior, o do The Final Cut, era algo que o mundo poderia perfeitamente abrir mão sem perder muita coisa. Mesmo o The Wall, que tem canções maravilhosas e todo um culto erguido ao seu redor, mesmo esse disco eu acho bastante irregular, já apontando para um futuro bastante incerto para a banda caso algo não mudasse. Mas, sobre o A Momentary Lapse of Reason, eu dizia: eu gosto do disco, e dia desses a música One Slip me assaltou subitamente; sem tê-la escutado — pelo menos não no estado de vigília — ela de repente tomou minha consciência como refém e ficou dias e dias em execução no meu cérebro, e foi só uns três ou quatro dias depois que resolvi enfim escutar ao disco para ver se negociava uma rendição. Abri, finalmente, a versão remasterizada em CD que estava na minha estante já há uns bons dois ou três anos, esse tempo todo com o plástico intacto esperando a ocasião correta para ser rompido, e escutei-a atentamente e relembrei que é isso mesmo, eu gosto deste disco, de seu núcleo caloroso que se manifesta sob a forma de pulsos sobre uma superfície aparentemente árida e fria (o álbum quase ele todo um desdobramento de Welcome to the Machine, do Wish You Were Here), mas… Bem, ele tem um problema. Ele continua tendo esse maldito problema, uma droga d’um problema que sempre me incomodou profundamente, e eu tinha a esperança de que uma nova visita ao disco depois de tanto tempo o encontrasse não tão grave assim, quiçá até resolvido, amenizado, sei lá. Que nada: ele continua lá, inabalável. Pergunto: como é que esses caras puderam colocar Learning to Fly na segunda faixa? O que essa música tem a ver com o fim de Signs of Life, a magnífica instrumental de abertura? Signs of Life constrói lentamente todo um clima mágico e promissor para o disco — só para ver tudo destroçado por Learning to Fly? Ninguém percebeu a incongruência? Ninguém avisou-os que aquelas sessões de gravação não eram para um dos mixurucas discos solos do Gilmour? Não é exatamente uma música ruim, mas é totalmente inadequada: aquelas guitarras e teclados álacres resvalando na pura breguice, que melhor soariam num disco da Madonna ou do Michael Jackson, são como um balde de água despejado sobre uma bela fogueira, uma faixa tão anti-Pink Floyd quanto possível, um colossal anti-clímax. É uma pena, uma enorme e lastimável pena, pois depois o disco cresce, a fogueira ganha vida novamente, e segue majestosa e crepitante até o fim. O The Division Bell também tem uma faixa assim, que não me lembro o título, mas ela está meio escondida, inofensiva, alijada em algum ponto da segunda metade do álbum, se eu não me engano, e não na importantíssima posição que Learning to Fly ocupa em A Momentary Lapse of Reason. Fico pensando se não foi uma provocação ao Roger Waters, cuja seriedade nunca permitiria isso.

Mastodon - Emperor Of Sand

Tivesse ouvido antes, talvez este último do Mastodon aparecesse na minha lista de favoritos de 2017. Havia perdido um pouco esses caras de vista; bom saber que eles continuam em forma! A ressalva (pode até parecer, mas ressalvas não são o tema deste post) é: quando Emperor Of Sand chega lá pela metade — e tal acontece comigo em todos os álbuns do quarteto — a minha capacidade de atenção começa a dar sinais de esgotamento, e depois disso é um longo e doloroso triturar de neurônios devido ao excesso de volume e peso e arpejos e acordes complicados… A coisa vai tornando-se, pouco a pouco, uma maçaroca sonora indistinguível. Nesse ponto, porém, a viagem já foi plenamente compensada, e o botão de pausa e de stop são nossos amigos e servem para isso mesmo. Mas talvez a banda devesse, não sei, colocar uma advertência na contra-capa do álbum, sugerindo a audição em duas sessões, ou algo assim… Bem, é pouco provável que o façam: eles se chamam Mastodon, afinal de contas. A melhor música do álbum tem também um vídeo bem divertido:


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1 comentário:

  • Sid Costa em 19/02/2018

    Quando eu escutei Divinations do Crack the Skye tive a impressão de que o Mastodon fosse o próximo Metallica. Os singles deles são muito bons, funcionam como iscas, quando o sujeito pega o disco não raro acontece o que vc disse. Geralmente quando a coisa trava eu guardo e escuto quando eu acordo na sintonia certa.

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