A noble good time

Por Fabricio C. Boppré em 31/01/2018

Jim é o escravo que fugiu, foi recapturado, e agora está em vias de ser libertado por seus amigos Tom Sawyer e Huckleberry Finn. Estamos em uma fazendo às margens do rio Mississipi, nos EUA, por volta de 1840. A fuga, no entanto, deve ser empreendida com “estilo”, à maneira das grandes “autoridades”, insiste Tom. Significa: não basta ajudar Jim a escapulir pela janela mal gradeada de sua prisão e sair correndo, não, isso seria inadmissivelmente fácil e indigno; eles próprios, dada a inépcia dos captores, terão que providenciar toda sorte de perigos e dificuldades para que a evasão (“heróis não fogem, evadem”) seja inscrita nos anais da aventura. E assim cartas anônimas são distribuídas, mensagens obscuras e brasões meticulosamente imaginados são entalhados nas paredes da prisão, túneis são cavados com pás (“mas vamos fingir que são pequenas colheres”), etc. E o prisioneiro tem que ter um animal de estimação, alguém que lhe sirva de único companheiro na solidão do encarceramento de tantas décadas (na verdade, foram só alguns dias). Tom sugere uma cascavel, pois, se ele muito não está enganado, isso nunca foi feito antes por nenhum outro grande rebelde em fuga, e tal ineditismo emprestaria ainda mais glória e notoriedade à façanha do trio. Mas Jim não gosta de cascavéis, prefere até mesmo permanecer cativo se tiver que se meter com uma… Depois de muita discussão, Tom concede que sejam pequenas cobrinhas inofensivas de jardim com botões colados em suas caudas, para que se pareçam com cascavéis. Finalmente, Tom assevera que Jim, nas noites que precederão a evasão, deve tocar algum tipo de música para os animais (às cobras e pequenos outros animais, ratos e aranhas, que Huck e Tom conseguiram capturar e introduzir na cela). Jim argumenta que os animais não ligariam para a música; Tom responde:

Yes, they would. They don’t care what kind of music ’tis. A jews-harp [em português conhecido como berimbau de boca, e uma das poucas posses de Jim] is plenty good enough for a rat. All animals likes music — in prison they dote on it. Specially, painful music; and you can’t get no other kind out of a jews-harp. It always interests them; they come out to see what’s the matter with you. Yes, you’re all right; you’re fixed very well. You want to set on your bed nights before you go to sleep, and early in the mornings, and play your jews-harp; play The Last Link is Broken — that’s the thing that‘ll scoop a rat quicker‘n anything else; and when you’ve played about two minutes you’ll see all the rats, and the snakes, and spiders, and things begin to feel worried about you, and come. And they’ll just fairly swarm over you, and have a noble good time.

Jim, o escravo negro, é um dos seres humanos mais decentes em toda a aventura de Huckleberry Finn ao longo do Mississipi. É convivendo com Jim que Huck torna-se também ele um ser humano consciencioso e sela de vez seu divórcio com a sociedade racista ao seu redor. No fim do livro (spoilers à frente), Tom Sawyer toma um tiro e quase morre; Huck, por sua vez, alimenta planos de fugir para o oeste selvagem; Jim, finalmente, torna-se um homem livre. Só não fica claro se lembrou-se ele, antes da evasão, de brindar seus companheiros de cela com o som do berimbau de boca ou com algum melancólico spiritual.

Categoria(s) associada(s): Literatura musical

Créditos da imagem: “Huck Finn”, de Thomas Hart Benton, copiada daqui.



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