Discos do mês - Dezembro de 2017

Por Fabricio C. Boppré em 01/01/2018

Fine Young Cannibals - The Raw & The Cooked

Foi bem no começo de dezembro quando, em resposta a uma destas minhas recorrentes crises de nostalgia, resolvi baixar o segundo disco do Fine Young Cannibals, o The Raw & The Cooked, lançado em 1988. A idéia era escutar novamente, depois de muitos anos, o inesquecível hit She Drives Me Crazy, e quem sabe descobrir alguma outra coisa interessante entre as demais canções do disco, faixas que eu supunha nunca ter escutado antes. Era um tranquilo dia de semana, de temperatura ainda amena — no momento em que escrevo isso, já próximo do Natal, o calor do verão já está derretendo tudo aí fora — e a voz engraçada do cantor da banda, Roland Gift, não demorou para se transformar em uma boa companhia para a próxima hora de trabalho que eu tinha pela frente. As músicas foram então se sucedendo, a maioria delas bastante razoável se for considerar as reduzidas expectativas que costumo ter em relação à música pop deste tipo, e eu até já considerava a hipótese de reavaliar a banda como algo mais do que uma frívola one-hit wonder quando resolvi fazer uma pausa para um café — pausa no trabalho somente, enquanto o disco continuou em execução. Lá fui eu para a cozinha e comecei a manipular filtro, coador, água fervendo, o cheiro delicioso do café desobstruindo vasos e agitando neurônios antes mesmo do primeiro gole, quando então uma nova faixa inicia e me paralisa imediatamente. Reconhecia-a inteira de uma só vez, toda a melodia e a sequência de verso, pré-refrão, refrão, etc., e as guitarras que repicam no refrão, e até mesmo os “u-huuu-huuu” em volume diminuto já no fade-out do fim da música (uma coisa bem comum naquela época: quando uma música começava a acabar, toda sorte de uivos e gritos eram vazados nas gravações, como que para demonstrar que na banda eram todos amigos e estavam se divertindo para valer no estúdio), tudo isso numa acrobacia cerebral vertiginosa que comprimiu, de algum modo, três minutos e meio dentro de uma mera fração de segundo, e em seguida os tais três minutos e meio na velocidade normal e eu mergulhado em total perplexidade, de algum jeito finalizando o preparo do café sem reparar direito no que fazia com as mãos e a pergunta acachapante, irretorquível, ganhando forma e ocupando pouco a pouco todo o espaço restante do dia: como é possível que eu não me lembrava de Don’t Look Back? Como é possível essa música ter ficado armazenada e adormecida no meu cérebro por tantos e tantos anos, sem ter vindo à superfície da consciência em nenhum momento (ao contrário de She Drives Me Crazy, que eu muito frequentemente cantarolo), e no entanto, quando finalmente evocada, ela se apresentou absolutamente inteira, intacta, em todos os seus detalhes, chegando até mesmo a me parecer que eu venho escutando-a diariamente desde 1988? Como pode? Não achei resposta plausível ainda.

Marin Alsop & Bournemouth Symphony Orchestra - John Adams: Shaker Loops

Eu adoro vários compositores americanos do século XX — aliás, eu adoro os Estados Unidos. Nunca me deixei cair no lugar-comum do anti-americanismo, que soa para mim uma estupidez tão grande quanto certo tipo de patriotismo, aquele nacionalismo tosco que não raro é apenas ignorância ou mesmo ódio explícito dos outros disfarçado de algo positivo, em geral para fins políticos e eleitoreiros. É isso: anti-americanismo (ou anti-qualquer outro país) e patriotismo são as duas faces da mesma moeda, cujo valor de troca é preguiça intelectual e preconceito. Essas abstrações a que chamamos países nos dão um sem número de motivos para amá-los e detestá-los, e o saldo em todos os casos é sempre o mesmo. E não venham me falar em tendências para a opressão ou autoritarismo: elas apenas se alternam, de acordo com as circunstâncias. Quem não tem o seu quinhão? Que país é livre dos pecados humanos? Oras, os Estados Unidos nos deram golpes de estado e Donald Trump, mas também Walt Whitman e Jimi Hendrix… Como odiá-los? No fim das contas, estou com William Burroughs (outro grande cidadão norte-americano): países não deveriam existir, e tampouco famílias. Mas não vim aqui falar sobre isso, perdoem-me a divagação; eu dizia que adoro os compositores norte-americanos do século passado, gente como Samuel Barber, Charles Ives e John Adams, principalmente este último, que ainda está vivo e produtivo. Há ainda os minimalistas e também os inclassificáveis Morton Feldman e John Cage, e adoro todos esses também, contudo, ao longo de 2017, eu acho que escutei mais frequentemente aqueles primeiros nomes citados, autores de uma obra mais facilmente reconhecível como música clássica na linha da grande tradição européia, ainda que tenham, cada um a seu modo, injetado em suas composições boas doses da paisagem e do espírito mítico americanos. Adams, na verdade, pode figurar tanto ao lado dos pioneiros Ives e Barber como também dos modernos Steve Reich e Philip Glass, por conta de algumas aventuras suas no mundo da música mínima, como por exemplo em Shaker Loops. Composta originalmente em 1978 para um septeto de cordas, tenho este CD onde a maestra Marin Alsop rege toda a seção de cordas da Bournemouth Symphony Orchestra e o resultado é excepcional: a música ganha um vulto estonteante, irradiante mesmo em seus trechos mais lentos e meditativos, que mal conseguem esconder o pulso que anima toda a composição e que parece capturar de maneira mais profunda a atenção do ouvinte, submergindo-o na corrente sonora e indo mais fundo, trazendo-o para dentro de si, para o centro de seu motor que parece cheio de um combustível ultra-aditivado alquímico. Em geral, quando começo a escutá-la, não quero que essa música acabe nunca: temo que ela esteja tomando o lugar do sangue que corre pelas veias, e, na sua falta, o corpo desfaleça, a vida falte. Inspirado por Steve Reich e também por Terry Riley, Adams criou um tipo de música muito especial, que eu planejo explorar amplamente neste novo ano que está iniciando.

U2 - War

Para finalizar, em dezembro tive também uma fase U2. Em geral, sou bastante indiferente ao U2, tendo sempre considerado que um disco de Bono Vox e cia. só pode ser bom na mesma medida em que um filme com o Mel Gibson pode ser bom, ou seja, a coisa esbarra em muitas limitações naturais, essas que ditam os princípios do entretenimento de massa. Mas Mel Gibson é o Mad Max original e também o U2 tem alguns grandes álbuns nos anos 80. Por que então não escuto-os com mais frequência? Pensei seriamente sobre isso e encontrei três motivos: 1) na banda tem um cara que se chama (?) “The Edge”; 2) o ultrajante disco Pop; 3) a música Pride (In The Name Of Love). Meu problema com Pride é o refrão que nunca consegui entender o motivo para ter sido gravado daquele jeito tão excessivamente esgoelado (porque de resto a música é muito boa), um esforço físico tão exagerado e desnecessário que sempre me faz cogitar ter sido a intenção de Bono Vox garantir que sempre que alguém viesse a escutar esta música, então todo ser vivo dotado de orelhas num raio de cinco quilômetros fosse obrigado a escutá-la também. Não necessariamente escutar à música — escutar à sua voz, exclusivamente. Sim, acho a coisa bastante nauseante, e ela se repete, sei lá, umas cinco ou seis vezes, mas parece mesmo 300 vezes. Acho que é principalmente por causa de Pride (In The Name Of Love) que eu não escuto tanto ao U2: ela trincou alguma coisa no meu cérebro e o dano permanente faz com que eu raramente me lembre da banda, mais ou menos da mesma maneira como algumas pessoas suprimem de suas lembranças certos eventos traumáticos do passado. Mas reconheço que The Joshua Tree é um belíssimo álbum, e o próprio The Unforgettable Fire também é muito bom, a despeito de Pride — aliás, ambos os álbuns produzidos por Brian Eno e Daniel Lanois. Meu favorito, porém, é o disco que precedeu este dois, o War, de 1983, um dos discos de música pop mais ácidos e relevantes de todos os tempos. New Year’s Day é minha música favorita do U2. Aliás, sei que no atual cenário brasileiro é quase um acinte dizer isso, mas seguindo a tradição: feliz 2018 para todos! Façamos o que for possível.

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