Discos do mês - Novembro de 2017

Por Fabricio C. Boppré há 1 semana, 1 dia

Continuo saboreando generosas doses diárias de quartetos de cordas. O cardápio foi bem variado neste mês que passou — teve black metal, teve blues e teve Bach — mas as peças para dois violinos, uma viola e um violoncelo continuam em evidência. Nos últimos dias atravessei, novamente, o conjunto dos 15 quartetos escritos por Dmitri Shostakovich e gravados pelo Quatuor Danel, horas e horas de música sublime espalhada em uma caixa de cinco CDs e, na capa, o russo fumando e lendo o Pravda, expressão algo contrariada, cenho franzido, talvez percebendo que a utopia comunista começava a se tornar pesadelo totalitário. Estes são alguns dos meus quartetos favoritos, junto com os de Szymanowski, Bartók e Schubert. Os de Beethoven eu sei que são muito estimados pelos fãs de música clássica, devido sobretudo à diversidade em termos de estilos e significados (o gênio natural do alemão, presente em tudo que ele compôs, não é necessário citar), mas estes eu não encarei ainda — estou esperando por uma ocasião especial. Voltando aos de Shostakovich: se alguém ficar curioso e começar a escutá-los, e se apaixonar também por eles, então aqui vai mais um presente: este site.

Agora, para variar um pouco, vou falar mal de um disco. Eu conheci o primeiro do Elbow, o Asleep in the Back, tão logo ele foi lançado em 2001, e me tornei fã da banda imediatamente. Após a prolongada estação de fúria e guitarras dos anos 90, ele parecia representar, naquele momento, uma pausa para respirar e refletir — uma nova música para os novos tempos que iniciavam-se, a rebeldia adolescente ficando para trás, a vida mudando em diversas frentes (era este o meu ponto de vista). Havia outras bandas criando esta ambientação, mas o Elbow logo ganhou posição de destaque. Os discos seguintes foram ficando ainda melhores e a banda continua uma das minhas favoritas; o Asleep in the Back, no entanto, ficou meio de lado, eclipsado pelos lançamentos posteriores, e passei muito tempo sem escutá-lo. Resolvi fazer isso uns dias atrás e fiquei um pouco decepcionado com o que ouvi. O caso é que em 2001 eu ainda não conhecia o Talk Talk, influência confessa do Elbow. Não sei dizer quando foi que enfim descobri esta fantástica banda, mas o certo é que não demorei muito para perceber a beleza tão superior e refinada de seu último álbum, o miraculoso Laughing Stock. E agora, ao revisitar o Asleep in the Back, foram várias as faixas que me fizeram pensar que o Elbow não estava fazendo muito mais do que (tentando) emular a mágica da obra-prima do Talk Talk, aquela cadência meio ébria, letárgica, uma música que parece nascer e morrer e ressuscitar o tempo todo, existindo em uma linha de tempo própria — mas sem, evidentemente, atingir os resultados sublimes de Laughing Stock. Até uma música com fim abrupto tem no Asleep in the Back, o que soa como um gesto de reverência demasiadamente honesto, ou então algo que na verdade tem outro nome. Não passei a considerá-lo um disco ruim, claro que não — um disco que tem em seu tracklist uma música como Scattered Black and Whites nunca será um disco ruim — porém um dos efeitos colaterais de portentos como o Laughing Stock é este: empalidecer os outros que lhe são tributários.

Mas eu não gosto de ocupar este espaço com opiniões depreciativas, ainda mais a respeito de bandas queridas, então finalizo dizendo que o Howl, este sim continua inabalavelmente magnífico! Nunca fico muito tempo sem escutar ao Black Rebel Motorcycle Club, mas esta nova visita ao meu álbum favorito deles, no mês passado, se deu por um motivo especialíssimo: chegou, finalmente, minha aguardada versão em vinil, que encomendei meses atrás e as acrobacias da logística do comércio globalizado fizeram com que, antes de ser finalmente entregue em minha caixa postal, o pacote que a trazia fosse primeiro dar um rolê pelas Bahamas, pegasse um sol por lá e fizesse um pouco do que seja lá o que for que se faz nas Bahamas, e no meio do passeio ganhasse uns amassados nos cantos da capa que abriga os dois discos, mas tudo bem, eles chegaram inteiros e soando gloriosamente bem. Sempre desconfiei que é este o jeito correto de apreciar este álbum: a partir do negro e pesado vinilzão. O último lado do segundo disco é um fenômeno, música que sempre escuto em estado de embevecimento total: são três faixas, Sympathetic Noose, The Line e uma faixa escondida que já vi nomeada em algum lugar como Open Invitation (esse título não aparece em lugar nenhum do vinil, e nem na versão em CD), três músicas que sempre me dão a impressão de serem ainda melhores do que o máximo que esta banda poderá jamais ser… E olha que eu sou fã incondicional do BRMC, adoro-os intensamente e gosto até mesmo de exibir isso — estou vestindo, no momento em que escrevo isto, uma camiseta da banda —, o que não me impede, todavia, de reconhecer neles um grupo de rock ’n’ roll que tem seus limites criativos. Estes, no entanto, em Howl, foram solenemente ignorados e superados num desses maravilhosos milagres da música que sempre me faz pensar naquelas histórias de velhos cantores de blues assinando pactos com o diabo em encruzilhadas poeirentas e abandonadas no interior profundo dos Estados Unidos. Pois é, parece que em 2005 o tinhoso andou fazendo negócios em San Francisco.

Categoria(s) associada(s): Discos do mês



Nenhum comentário.

Comentar