Discos do mês - Outubro de 2017

Por Fabricio C. Boppré em 05/11/2017

Os dois titãs do post-rock, Mogwai e Godspeed You! Black Emperor, lançaram novos discos recentemente, e embora sejam ambos ótimos, eles o são em correspondência à expectativas diferentes. O álbum do Mogwai parece ser apenas a sequência natural de uma rotina que a banda estabeleceu para si, uma ética profissional cuja regularidade no lançamento de seus resultados me leva a crer que os caras da banda têm calendários padronizados pregados nas paredes de suas cozinhas, e lá estão alguns dias do ano circulados em vermelho e anotados com “compor novo disco”, e depois no mês seguinte, “gravar novo disco”, e daí por diante, e a coisa não falha — a cada dois ou três anos temos a newsletter do Mogwai chegando em nossas caixas postais com o anúncio de uma data de lançamento. Até aqui, essa diligência não deixou de render discos no mínimo satisfatórios, e com frequência eles são até muito bons, ainda que eu tenha a impressão de que depois do Rock Action eles foram se tornando cada vez menos distinguíveis entre si, como se tivessem passado a obedecer rigorosamente a uma cartilha de fórmulas ou algo do tipo, falhando assim em surpreender e maravilhar, coisa que o Mogwai logrou fazer espetacularmente em seus três primeiros álbuns. Não me entendam mal: Every Country’s Sun é ótimo, escutei-o diversas vezes nos últimos dias — acho até que já é o disco pós-Happy Songs for Happy People que mais vezes escutei —, e se o Mogwai têm de fato uma fôrma para criar suas músicas, então ela continua muito bem azeitada, não há dúvidas quanto a isso. E também não acho ruim que uma banda trabalhe bastante e lance vários discos, é claro que não… No entanto, acho que esses escoceses prometiam algo mais do que isso, alguns anos atrás, quando surgiram e deram ao mundo, logo de cara, três obras-primas, frutos que pareciam resultados menos de perícia e assiduidade profissional do que de inspirações sobrenaturais.

Já o Godspeed You! Black Emperor é outra história completamente diferente. Essa trupe continua anárquica, imprevisível, sem calendários nas paredes. Seus discos são esses portentos que aparecem de repente inundando o mundo com uma música de alma sinfônica, intensa e catártica, corajosa em suas extensões e ambições, sem fazer concessão alguma, atributos possíveis somente para um grupo de artistas cuja energia vital não foi domesticada pelos compromissos com a indústria musical, e apesar de nos últimos cinco anos termos tido três álbuns do GY!BE, o tempo parece transcorrer de forma diferente para eles. Talvez o fato de não se ter tantas notícias sobre a banda nos leve a pensar que eles estejam sempre recolhidos, acumulando o vigor e o conhecimento alquímico necessários para a gestação de um novo álbum, e então, quando estes finalmente surgem, as primeiras audições sempre fazem surgir em minha mente imagens como as vistas nestas impressionantes fotos do universo — galáxias, nebulosas, nascimentos e mortes de estrelas, colossos cósmicos que dão a impressão de portar alguma espécie de vida ou consciência, de estarem com seus imensos olhos abertos, as retinas dilatadas e duradouras de um espírito primordial encarando eternamente a si próprio. Os relatos do que vêem, claro, ficam a cargo dessa criação sua, o ser humano. O GY!BE é, nesse sentido, uma espécie de Dante Alighieri revivido: o explorador que se aventura pelas esferas superiores e inferiores, que viaja pelos céus dos astros e pelos mundos dos mortos, e volta para descrever aos seus pares, dessa vez por via de som e eletricidade, aquilo que seus olhos testemunharam.

Meu grande momento musical neste mês que passou, contudo, não veio de uma novidade. Fazia muito tempo que eu não escutava ao Automatic for the People em modo de concentração exclusiva. “Concentração exclusiva”, na verdade, é apenas uma maneira de dizer, uma vez que os outros sentidos não podem ser desligados enquanto o da audição está ocupado… Em todo o caso, aconteceu de eu me encontrar dia desses numa das minhas situações preferidas para ouvir música: um trajeto relativamente longo de ônibus por cenários novos e bastante diferentes daqueles aos quais estou habituado, longe de casa e completamente fora da rotina. Por motivos que a neuroquímica deve explicar, nesse tipo de situação as capacidades de registro e apreciação dos sentidos da visão e da audição amplificam-se e alimentam-se um do outro, num processo que não raro faz nos sentirmos mais leves e exultantes do que nunca. Navegando pelos discos que trazia comigo, o Automatic for the People surgiu como primeiro candidato à trilha-sonora; um disco de Chopin interpretado pela Martha Argerich foi também cogitado, e alguma coisa do Jan Garbarek. Coube mesmo ao R.E.M., no fim das contas, a tarefa de me acompanhar naquele trecho da viagem que começava então a terminar — o desfecho de uma semana maravilhosa perambulando por um país em que eu nunca havia estado antes, imerso em uma forma de vida e uma cultura inéditas para mim, uma enorme coleção de novas imagens e aromas e sensações no cérebro e acho que nas veias ainda os resquícios de um excesso de tequila cometido uns dois ou três dias antes, um raro descomedimento já absorvido e diluído, servindo apenas de lembrança periférica desta certeza íntima adquirida há tempos, a de que prefiro sempre estar sóbrio e atento, exatamente como eu estava naquele momento. Com as pernas cansadas e o espírito aberto, preparava-me para voltar para a casa — era esse o contexto no momento em que apertei o play e começou Drive. O álbum, por ser um dos meus favoritos, me é muito familiar, porém, devido ao tempo sem escutá-lo — absurdo cuja explicação reside neste cruel imenso oceano de coisas que temos à disposição para ouvir hoje em dia —, aconteceu de ele me surpreender um punhado de vezes durante seus pouco mais de 45 minutos: às vezes por eu não me recordar que música seguiria-se ao fim de outra — era uma surpresa que vinha sempre aos pares: a primeira surgia subitamente no breve silêncio entre as faixas ao não lembrar-me de imediato do som que estava prestes a iniciar e a segunda um ou dois segundos depois quando, óbvio!, é tal música! — e também, em outras ocasiões, pela redescoberta de detalhes e letras que estavam um pouco empoeirados na memória. Sweetness Follows é uma das minhas músicas mais queridas e que mais vezes escutei em toda minha vida, e, mesmo assim, eu juro, me emocionei de verdade naquele primeiro e inesperado oooh ooooh, oooh ooooh, sweetness follows, aquela inflexão tão sutil e tão pungente na melodia e na voz de Michael Stipe. O cenário que passava lentamente pela janela, no plano mais ao fundo, era o verde de tons nobres de bosques e florestas ancestrais, alguns vulcões, muitas montanhas, terreno onde muito tempo atrás habitaram maias e astecas, e hoje, nas pequenas vilas e lugarejos à beira da estrada, em primeiro plano, passando velozes junto ao ônibus — instantâneos de crianças brincando despreocupadas, perros preguiçosos, taquerias e habitações desgastadas pelo tempo e pela falta de dinheiro — hoje naquele território moram os mexicanos, um povo que me pareceu tão simpático e humilde, orgulhoso e zeloso do legado de arte e conhecimento deixado pelas civilizações antigas das quais descendem, uma gente que tem no sangue ainda a lembrança do extermínio de seus antepassados pelos europeus e que nos tempos atuais tem que conviver com a humilhação imposta pelo repugnante agiota que sabe-se lá como chegou à presidência do país mais ao norte prometendo construir um muro para vetar aos mexicanos o direito que deveria ser o de todos os seres vivos, o de ir e vir livremente sobre a Terra, a qualquer momento, em qualquer lugar. Man on the Moon, faixa já lá pro final do disco e pela qual eu nunca nutri maiores simpatias por achá-la excessivamente formulaica, mesmo ela desta vez me soou algo diferente, como se naquele calmo recitar de anedotas desconexas houvesse uma intimação subjacente para que eu afrouxe um pouco esta minha inclinação à seriedade, e para que eu reavalie minhas expectativas em relação ao mundo, expectativas estas tão esvaziadas nos últimos tempos, em particular pelos acontecimentos dos últimos dois ou três anos no Brasil. Nightswimming, por outro lado, sempre foi especial para mim: ela muito me ajudou, em outros tempos, a conviver em paz com minhas preferências por recolhimento e solidão, a aceitar sem maiores traumas minha introversão, coisa que a essa altura da vida já não faz muita diferença, e no entanto, nesses tempos de histeria e conflito por toda parte, uma nova luz parece emanar dessa canção, uma luz que será sempre renovada quando necessário, que estará sempre pronta para acolher quem dela precisar. No México, nos restaurantes, as pessoas que chegam e vão se encaminhando para suas mesas passam desejando buen provecho aos totais estranhos sentados nas outras mesas, e isso para um brasileiro é uma coisa espantosa, uma folga muitíssimo bem-vinda em nossa tragédia cotidiana de falta de compreensão e de xingamentos infantis aprendidos em redes sociais, nossa triste sina de intolerância e agressão. O México tem cidades chamadas Tlaxcala, Teotihuacán e Tlaquepaque, nomes sólidos e eternos que parecem por si só tranquilizar os seus habitantes quanto à reparação vindoura, a certeza de que o direito e o exercício pleno da dignidade virá algum dia, enquanto que no Brasil… Bem, antes que eu entre em uma nova espiral de amargura, finalizo dizendo que Find the River sempre opera a mágica de apaziguar meus pensamentos, de evocar lembranças de um passado que acumulou-se num presente, apesar dos pesares, bastante tranquilo e ditoso, e também lembranças de um futuro (citando Borges novamente) em que vamos todos sobreviver às tragédias contemporâneas, vamos todos sobreviver a isso em que se transformou o Brasil ou ao que quer que seja, prognóstico esse assegurado pelos backing vocals de Mike Mills, aquele canto distante pairando sobre a canção, de uma beleza celestial que não pode significar outra coisa.

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1 comentário:

  • Sid Costa em 12/11/2017

    O Automatic é lindo. Sem caetanices. É lindo mesmo. Lembro de coisas que me parecem bem recentes. Aqui onde eu moro na época do lançamento do disco (acho que foi 92/93) havia um serviço de sonorização, nos postes tinham caixas de som penduradas, era como uma rádio, tinha programas de música e publicidade. Três músicas que passavam me chamavam muito a atenção, eram Até quando e Túnel do Tempo *dos Engenheiros e *The Sidewinder Sleeps Tonite. Até hoje quando escuto essas músicas, eu sinto um nó na garganta. Claro, já conhecia as duas bandas, mas eu conheci o Automatic através desse serviço de sonorização. Ainda demorei um ano pra comprar os dois discos. O engraçado é que Sidewinder é meio que renegada por eles, vai entender…

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