Estação da música

Por Fabricio C. Boppré em 19/10/2017

Embora ainda tenhamos que nos precaver ao sair muito cedo ou muito tarde de casa, o inverno já ficou para trás. Os guapuruvus começaram a florir, pontilhando de buquês amarelos os morros da Ilha de Santa Catarina; é o primeiro sinal efetivo da chegada da primavera, um mês depois da data oficial assinalada no calendário. Na algazarra dos pássaros também já é possível discernir uma mudança de tom, como se os dedos da natureza tivessem feito avançar as páginas de uma partitura infinita, e enquanto experimento uma tranquila euforia ao perceber tudo isso, me pergunto se não me chegou o tempo em que, quando chegado à Borges, fê-lo escrever “agora prefiro as manhãs, o centro e a serenidade”. Quero dizer, eu ainda adoro o verão, mas não é raro, durante os dias mais insuportavelmente quentes — e estes têm sido mais frequentes a cada ano que passa— não é raro eu praguejar contra a estação das melhores lembranças da infância e da adolescência e agora, adulto, ansiar pelo inverno; de modo análogo, eu adoro o inverno, amo o frio e seria ainda mais feliz do que já sou se houvesse neve por aqui — daquelas nevascas de verdade, que dão outros usos para as pás — mas depois de duas ou três semanas seguidas em que sair da cama de manhã cedo é coisa para atletas olímpicos ou ascetas, nesta altura eu passo a não gostar mais tanto assim e começo a desejar mais do que tudo que chegue logo o calor do verão. Quase pode-se dizer que eu nunca estou satisfeito…“Quase”, porque existe a primavera: esta, ao contrário das outras duas, e também ao contrário do outono e seus prenúncios, é incontestável. A primavera nos dá tudo em doses equilibradas; é também o trecho da jornada da Terra em sua órbita ao redor do Sol onde, primeiro em uma das faces do planeta e depois em outra, o prodígio da vida parece tornar-se mais compreensível, mais natural e invencível, e a chave para se compreender este momento está justamente no tal equilíbrio proporcionado pela estação — é como se um espírito renovado encarnasse na natureza, e então, em sua mente pacificada e revigorada, em suas ações mais suaves e moderadas, ela pode conceber e dar origem a todas essas coisas que brilham e cantam e se reproduzem e se multiplicam. Na observação deste estágio primaveril e sua equidistância para os períodos de condições mais radicais podemos aprender muito sobre nós mesmos e sobre os ciclos dos quais fazemos parte. Outro benefício é: quase qualquer música cabe nesse estado de espírito da mente-natureza. Percorrendo esse caminho do meio, não estamos distantes de nada; mesmo os extremos estão ao alcance de nossos sentidos e nenhuma aventura nos parece desaconselhável, nenhuma música descabida. Há lugar para madrigais de frágeis vozes humanas recitando textos renascentistas e para retumbantes sinfonias mahlerianas; cabem também na primavera as longas meditações eletrônicas de Éliane Radigue, as evocações cavernosas do Sunn O))) e as experimentações e as orações de Miles e Coltrane. As sonatas de Schubert e Beethoven cabem em qualquer circunstância, mas na primavera elas são ainda mais emocionantes, e o synthpop está perfeitamente desculpado — não é preciso nenhuma daquelas desculpas esfarrapadas com as quais eu sempre introduzo a-Ha e Erasure nos meus relatos mensais. Cabem perfeitamente Neil Young, Bob Dylan e Bob Marley; cabem Chico, Gil e Elis. Por fim, para os dias mais ensolarados e festivos, qualquer rock ’n’ roll com o qual já tenhamos alguma história soará como os hinos definitivos de nossas vidas — você pode ir de uma ponta à outra, pode ir de Byrds à Bad Brains, e tudo soará extasiante — enquanto que o heavy metal e suas variantes mais ou menos malignas, bem, estes tem que caber de qualquer jeito, afinal, para nós aqui no hemisfério sul, cai justamente na primavera a data mais legal do ano, o Dia das Bruxas. Então em outubro temos King Diamond, Black Sabbath e Rob Zombie dividindo espaço com todos esses nomes citados acima, e muitos outros. “Estação das flores” é uma alcunha muito bonitinha inventada para nos referirmos à primavera, contudo, se me perguntarem, eu respondo que “estação da música” é muito melhor.

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Créditos da imagem: Obra de Vincent Van Gogh.



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