Discos do mês - Setembro de 2017

Por Fabricio C. Boppré em 30/09/2017

Difícil imaginar coisa que seja mais símbolo de outra maior do que Led Zeppelin e hard rock setentista, certo? Certo. Portanto, se eu disser que neste mês que passou a minha trilha sonora foi feita praticamente só de velhos discos de hard rock dos anos 70, é razoável supor que eu tenha escutado aos murros de Bonham (a parte maravilhosa do som da banda) e às cordas de Page e Jones (a parte miraculosa) e ao gogó de Plant (a parte, é… vocal da banda) em algum momento, certo? Certo também, mas não aconteceu. Escutei bandos e bandos de cabeludos hedonistas amantes de blues e de cannabis, alguns que já me causaram danos auditivos anteriormente, outros que me foram apresentados pela primeira vez, porém não escutei nada, absolutamente coisa alguma do embaixador de todos eles, o sacrossanto Led Zeppelin. A explicação para esse incrível fenômeno que deve estar deixando você, meu caro leitor, perplexo de curiosidade, começa trivial, sem planejamento algum. Aconteceu que certo dia resolvi escutar o primeiro disco do Budgie e foi tal qual um rastilho de pólvora: enfileirei os discos dessa fantástica banda galesa um atrás do outro. Acho que até então eu nunca tinha ouvido um álbum inteiro do Budgie, cuja referência maior em minha cabeça ainda era a versão do Metallica para Breadfan e cuja voz à frente dos instrumentos, pelo pouco que eu me recordava das faixas esparsas escutadas aqui e ali, eu pensava ser uma voz feminina. Ou seja: eu realmente mal conhecia a banda. Um vídeo do Lenny Kaye falando da paixão dele pelo primeiro álbum do Budgie, no entanto, me fez ficar curioso e me levou a organizar um rápido assalto pirata em águas virtuais, assalto que, inicialmente, seria algo inocente, breve, sem maiores prejuízos a seja lá quem for que esteja sendo prejudicado quando se baixa arquivos mp3 da internet, porém, esse pequeno ilícito acabou se transformando, à medida que eu ia escutando o que ia encontrando, em alguns gigabytes a mais de música ilegalmente adquirida no meu computador, pois acho que no fim das contas baixei a discografia completa dos caras (posto que são três caras, nenhuma mulher), algo em torno de 15 discos, entre os de estúdio e alguns ao vivo. Eu recuso, de todo modo, acusações de banditismo ou imoralidade: eu nunca compraria um disco do Budgie sem tê-los escutado antes, e agora que virei fã do trio, certamente irei comprá-los quando tiver oportunidade, vou comprá-los até mesmo antes de comprar o primeiro disco do Led Zeppelin, que até hoje eu não tenho em minha coleção pois não sou lá grande fã desse álbum — muitos dos discos do Budgie que eu escutei nestes últimos dias são bem melhores do que o I do Led, melhores até mesmo do que o celebrado II (e claro que a partir do III, Plant, Page, Bonham e Jones se transmutam em outra coisa contra a qual poucas bandas podem rivalizar). O Budgie tinha, evidentemente, a vantagem de ir pisando em território já desbravado antes pelo Led Zeppelin e pelo Cream — é necessário fazer esta deferência em favor dos pioneiros —, porém o caso é que o faziam com total destreza e furor, um rock ‘n’ roll barulhento e exultante como poucos. A citada Breadfan está no terceiro álbum da banda, Never Turn Your Back On A Friend, lançado em 1973, uma belezura de disco do início ao fim, mas é no Bandolier, lançado dois anos depois, que está a minha faixa preferida do Budgie, Napoleon Bona - Part One & Two. E só agora que eu escrevi o título dessa música e bati os olhos nele é que percebi a piadinha boba.

Foram horas e horas trabalhando e ouvindo Budgie nos últimos dias, e não duvido que as intermináveis linhas de código-fonte que escrevi nesse período estejam de algum modo contaminadas por este som. Houve, contudo, outra coisa que eu ouvi ainda mais do que os galeses: trata-se dessa fantástica, enorme e sui generis banda inglesa chamada Hawkwind (eles são tão incríveis, fenomenais e prolíficos que quando você vai elogiá-los, é necessário atribuir-lhes pelo menos três adjetivos para dar conta da tarefa). Eu já conhecia de longa data o clássico Warrior on the Edge of Time, o disco mais famoso deles, e cultivei por algum tempo o plano de ler sobre a história da banda e procurar por mais alguma coisa de sua discografia, porém tudo caminhava para que, sendo a palavra “plano” uma daquelas que comportam muitos significados e sendo um deles “algo que você escreve numa lista de coisas para fazer e nunca faz”, tudo caminhava para que essa exploração fosse ficar só no mundo das intenções e em minha mente o Hawkwind se transformasse, pouco a pouco, em mais um dos dinossauros setentistas sobre os quais eu não estou perdendo muita coisa por não conhecer mais a fundo, tipo Deep Purple. Foi sorte eu ter lembrado desses caras e resolvido finalmente investigar! Vem sendo uma longa e divertidíssima aventura: longa por que os caras começaram a lançar discos em 1970 e não pararam mais, e divertida porque, bem, você sabe, os três adjetivos. Falando sério: é uma discografia fantástica. Deve ser a única banda na história que dá de associar, em um momento ou outro, ao rock progressivo, ao heavy metal, ao punk rock, ao hard rock, e a quase qualquer outro rock que seja digno de nota, por mais díspares ou até mesmo antagônicos que sejam entre si. Tem discos do Hawkwind cujas capas se parecem com as do Iron Maiden, enquanto que outras se parecem com as da Madonna, e outras lembram ainda Kraftwerk, e outras Big Brother and the Holding Company, e outras Rob Zombie, e Yes e Wolfbrigade. E não se trata da banda mais oportunista ou tresloucada da história, pelo contrário: em geral eles estavam lá no começo das barafundas todas, inventando ou ajudando a inventar ou no mínimo sendo citados pelos inventores. Digo “eles” mas a banda é basicamente Dave Brock, cantor, guitarrista e compositor de umas letras muito peculiares que parecem abranger todos os temas favoritos da clássica série americana The Twilight Zone — e com isso, além de tudo, a banda é tida também como a inventora do tal space rock. Nada mais justo: um termo bombástico como esse tinha que ser criado para conter o Hawkwind. Como pode ser que nunca cruzei com nenhum fã fanático desses caras, assim como existem os fanáticos pelo Pink Floyd, pelo Rush, pelo Black Sabbath e até mesmo pelo Jethro Tull? Para mim é um mistério. No momento em que escrevo isto, eu já escutei uns dez álbuns do Hawkwind — além do disco único do Hawklords, que foi um projeto paralelo no fim dos anos 70 — e são todos no mínimo ótimos, e cito dois logo de uma vez para ilustrar este panegírico e engordar a imagem que o encima: In Search of Space e Hall of the Mountain Grill, 1971 e 1974, respectivamente. E se nada disso que eu escrevi até aqui o convenceu de que o Hawkwind é um fenômeno que vale a pena conhecer, fique sabendo que entre 1971 e 1975, antes de formar o Motörhead, Ian Fraser Kilmister, vulgo “Lemmy”, fez parte do line-up da banda — “Motorhead”, inclusive, é o nome de uma canção que Lemmy compôs enquanto tocava baixo e dividia os vocais com Brock, lançada como b-side de um dos singles de Warrior on the Edge of Time. Depois do lançamento desse disco, Lemmy foi demitido porque já naquela época ele exagerava nas doses de Jack Daniels, e isso, em um meio em que ninguém é exatamente famoso pela moderação, deve significar alguma coisa. Não se pode lamentar, no entanto, esse desfecho: também o Motörhead começou a lançar discos e não parou mais, quero dizer, parou faz pouco tempo, quando enfim a natureza cobrou a conta de Lemmy, mas houve tempo suficiente para que hoje tenhamos dezenas e dezenas de discos fantásticos de uma e outra banda para alegrar nossos turnos de trabalho.

Pois bem, ouvi ainda alguns outros nomes irmanados destes citados acima, parentescos estabelecidos seja pela música, seja pela época, seja pelo apetite por narcóticos, e no mais das vezes por tudo isso ao mesmo tempo. Ouvi o Nazareth, banda escocesa cujo disco Razamanaz certa vez comprei de um hippie provindo de algum país vizinho e que vendia, no centro de Florianópolis, fitas K7 piratas com capinhas toscas xerocadas em preto e branco, comércio feito na praça central da cidade sob a sombra das árvores que abrigavam ainda diversos outros artesões de procedências várias, as fitas daquele dispostas sobre uma toalha estendida no chão e os colares e incensos dos outros expostos do mesmo modo, e todos eles negociavam também outras coisas que não ficavam expostas, mas isso é outra história — sobre o camarada das fitas K7, ficou na minha memória que durante nossa breve conversa ele insistiu para que eu lesse “Las Venas” de Eduardo Galeano, dito assim mesmo, em sua língua natal, e só depois eu compreendi que ele se referia ao As Veias Abertas da América Latina. Tenho até hoje a fita; o livro eu ainda não o li. Ouvi também o Iron Claw, famosa pelo suposto processo que meteu-lhes Tony Iommi por terem eles um som demasiado parecido com o do Black Sabbath (não duvido que isso tenha mesmo acontecido; depois de ler o livro de Mick Wall sobre o Sabbath, a impressão que fica sobre Iommi não é lá muito positiva, infelizmente). Subindo um pouco a árvore genealógica, já nos anos 80, ouvi alguns dos culpados por transformarem o hard rock em glam metal, tranqueiras tipo Winger e Mötley Crüe, que obviamente não merecem que eu me estenda muito sobre elas… Finalizo citando uma das poucas notas destoantes, mas apenas em termos cronológicos, porque no que diz respeito ao som, é perfeitamente compatível com tudo que citei acima: o novo disco do Black Angels é um espetáculo! Sonzeira entorpecente e espacial cheia de ecos e sensações de viagens incorpóreas, o vocal vindo lá de algum ponto bem longe no tempo e no espaço. Para mim, isso é psicodelia feita do jeito certo.

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3 comentários:

  • Sid Costa em 04/10/2017

    Iron Claw… vou pesquisar. Já ouvi dizer que o baterista do Budgie é bem bom. Já escutou o Cactus? Podemos fazer um paralelo com o Led. Aliás, o Carmine Appice, batera do Cactus foi influência declarada do Bonham.

  • Fabricio em 05/10/2017

    Ainda não escutei o Cactus. Vou procurar! Conhece o Hawkwind, Sid? Experimente, acho que podes gostar. Estou agora mergulhado nos discos ao vivo deles, são sensacionais os três ou quatro mais antigos que escutei até aqui. Continuo espantado com o fato de não se falar tanto sobre essa banda…

  • Sid Costa em 05/10/2017

    Curto o Hawkwind Fabrício, não sou conhecedor da obra dos caras, mas gosto do que escutei. E realmente deveria ser mais badalada, principalmente depois do hype das bandas stoner.

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