Discos do mês - Agosto de 2017

Por Fabricio C. Boppré em 03/09/2017

Trail of Dead - IX

Source Tags and Codes continua sendo, na minha opinião, o melhor disco de rock — rockzão puro sangue, rock pauleira — lançado no século XXI. A nova rodada de cem anos apenas começava (2002), mas nada do que veio depois conseguiu ainda chegar perto deste colosso, que inclusive acaba de ganhar uma reedição especial de aniversário de 15 anos. Os dois álbuns que o Trail of Dead lançou na sequência, no entanto, são meio, como podemos colocar… esquisitos? Algo assim, com a devida complacência que a banda merece. Embora tenha certo apreço pelo Worlds Apart, posso compreender a saraivada de críticas negativas que o sucessor do Source Tags and Codes recebeu na época. Ninguém entendeu nada, e a empolgação quase unânime que existia em torno da banda murchou um pouco. Em reação, eles parecem ter pensado: “vocês ainda não viram nada”, e gravaram o ainda mais extravagante So Divided, consolidando de vez a opinião de que a banda tornara-se completamente desorientada, mais perdida do que cego em tiroteio, sem eira nem beira, zuretinha da silva. Foi justo quando eu, que não sou lá muito fã de montanhas-russas de emoções, perdi o interesse no Trail of Dead, foi justo nesse momento que o bonde que vinha desgovernado parece ter voltado aos trilhos e os quatro discos que saíram depois do So Divided foram gradualmente reabilitando o Trail of Dead. São álbuns que exigem apenas que você tenha vivido os anos 90 para que simpatize com eles, diferente dos dois anteriores, que exigiam que você tivesse uma miríade bastante ampla e improvável de interesses que incluíssem rock progressivo, canções folclóricas russas, Guided by Voices, pop pomposo açucarado, pedantismos do tipo November Rain, e já nem lembro mais o quê… Uma misturança por demais bizarra e indigesta, tipo sorvete com catchup e fanta-uva. Os álbuns que vieram na sequência, contudo, como eu dizia, são bons; o The Century of Self e o Tao of the Dead eu escutei displicentemente na época de seus lançamentos (em 2006 e 2009, respectivamente), e se não chegaram a reacender a chama da minha paixão pela banda — paixão que lá pelos idos de 2003 poderia ser facilmente qualificada como obsessiva — ao menos eu lembro de ter gostado moderadamente de ambos, sem maiores ressalvas. Claro estava que a banda voltava a ter algo parecido com um foco. Já o Lost Songs, de 2012, esse sim é um belo disco, e finalmente, IX, lançado em 2014, este é provavelmente o terceiro melhor item da discografia da banda, ficando atrás apenas do Source Tags and Codes e do Madonna. Àqueles que se entusiasmaram tanto com os três primeiros discos do Trail of Dead e depois largaram de mão durante a fase desvairada da banda, fica portanto a recomendação: vale a pena dar uma nova chance aos moços, pois eles ainda sabem protagonizar uma barulheira noventista de primeira linha.

Glenn Gould: Bach - Variações Goldberg

Carregar sempre consigo, aonde quer que fosse, o banquinho que seu pai construíra para ele parece ter sido a menor das excentricidades de Glenn Gould. O pianista canadense ia apresentar-se nos EUA e a peça de madeira e estofado tomava o avião com ele; viajava ao outro lado do mundo e lá estava o banquinho diante do piano para o divertimento respeitosamente silencioso do público japonês antes que o músico entrasse em cena; para a Europa também, para todo lado — apenas naquele assento Gould poderia sentar-se para tocar o piano. Tocar o piano: no caso de Glenn Gould trata-se de uma simplificação, evidentemente. Podemos perdoar-lhe todas as manias e até mesmo o fato de ter parado de dar concertos públicos ainda em 1964 quando se escuta suas gravações das Variações Goldberg de Bach. Os fenômenos e as complexidades que envolvem as relações dos grandes intérpretes com a obra de seus compositores favoritos são revelados nestas gravações — que são duas, uma em 1955 e outra em 1981 — com grande eloquência; a beleza da música é inexprimível, mas há tempo suficiente nestas execuções para que se rompa o fascínio hipnótico vez por ou outra e deixe-se cair, aqueles que têm alguma tendência para isso, numa apreciação mais racional da técnica sobrenatural exibida pelo pianista, e também das nuances de tempos e ritmos, e é possível ainda distrair-se com o jogo intelectual de identificar as variações do tema principal aqui e ali, e de novo a técnica, e de novo a beleza pura e simples — e finalmente o arremate final da volta do tema principal, que, tendo sido atravessadas todas as 30 variações, soa incrivelmente pungente e luminosa, como que o maior dos deleites possíveis de ser experimentado pelos sentidos humanos, um momento de êxtase que conta ainda com a conveniência de poder ser reproduzido sempre que se quiser, bastando para isso ter o disco e uma horinha de tempo disponível para ouvi-lo. Todo mundo deveria ter uma hora semanal para escutar as Variações Goldberg, de preferência essas executadas por Glenn Gould. Tem de tudo nesta música inesgotável e exuberante, e a paixão que Gould demonstra por ela é igualmente comovente. É um pacote completo, do tipo que nos faz pensar que talvez não fosse preciso mais nada além disso para se atravessar a vida, e o sujeito que finalmente puder fazer a experiência de escutá-las diariamente, talvez acabe se transformando no ser humano mais longevo e feliz de todos os tempos. Talvez venha até mesmo a viver para sempre. Meu apego pela primeira versão, a de 1955, é maior creio que simplesmente por tê-la ouvido mais vezes, mas assim como foi chegada a hora de Gould gravar a segunda (movido por mudanças em sua forma de encarar a música de Bach e, talvez, a música de modo geral), acho que é chegada a hora de eu adotá-la também. E uma nota final sobre Bach: demorei e demorei e demorei, e cheguei mesmo a pensar que nem aconteceria… Porém, começo a compreender, finalmente, a devoção das pessoas por este antigo mestre. Onde eu assino minha ficha de convertido?

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