Discos do mês - Junho de 2017

Por Fabricio C. Boppré em 01/07/2017

Singles, o filme, é uma bobagem, mas sua trilha-sonora continua sensacional, não é mesmo? No mês passado, durante a comoção pela morte do Chris Cornell e a nostalgia inevitavelmente suscitada, revisitei este disco (que, aliás, numa triste coincidência, acabara de ter sua versão especial de 25 anos lançada, acho que um dia antes da morte de Cornell) e relembrei num misto de exultação adolescente e ternura adulta o quão espetacular é esta seleção de músicas, como que um álbum de recordações feito só de fotos tiradas pelos melhores fotógrafos da época. Levando-se em conta o contexto geográfico do filme, faltou, evidentemente, o Nirvana, e para os meus gostos estranhos e particulares o Melvins, sendo a ausência do primeiro provavelmente explicada por motivos burocráticos e a do segundo por motivos óbvios de nexo — o filme é uma comédia romântica, afinal de contas — e mesmo assim o álbum é uma maravilha do início ao fim. A abertura com esta esfinge sonora chamada Would? — uma música que continua tão especial quanto era um quarto de século atrás — põe logo tudo abaixo e fica difícil não considerar que foi o Alice in Chains a melhor de todas aquelas bandas, coisa que já cogitei por aqui mais de uma vez, apesar da minha relação mais próxima com o Pearl Jam. Seasons, do Cornell, é magnífica, e também a faixa do agora definitivamente liquidado Soundgarden, Birth Ritual, é outro super-trunfo do disco. State of Love and Trust, do Pearl Jam, é uma das melhores b-sides de todos os tempos, distinção que poderíamos igualmente atribuir à Drown, do Smashing Pumpkins — e também ela está no tracklist, embora a banda seja de Chicago. Pena que exagerei na dose e resolvi assistir ao filme novamente, mesmo restando bastante vívida a lembrança de tê-lo achado uma porcaria na primeira vez em que o vi, e no fim das contas tive que retificar minha memória: o negócio é ainda pior do que eu lembrava! Nem esse tanto de música fantástica (e ainda outras mais que tocam no filme e que não estão no disco da trilha-sonora, como R.E.M. e Jane’s Addiction) e tampouco a ambientação na cidade onde a maioria dessas bandas nasceu, nos clubes onde elas fizeram suas primeiras apresentações, nas esquinas e cafés cheias de pôsteres artesanais anunciando shows, nada disso salva o filme de ser uma hora e pouco de tempo perdido.

Mas eu queria falar um pouco dos sons do presente. Suponho que os amigos que estejam mais em dia com o rock ‘n’ roll contemporâneo, quando lêem aqui sobre minhas últimas descobertas nestas cercanias, devem dar risadas, afinal, são sempre bandas que já têm três ou quatro discos lançados, já existem pelo menos desde a década passada, já devem até mesmo ter feito shows pelo Brasil, enfim, já não são mais novidade para quase ninguém. War on Drugs, Ty Segall, xx, Kurt Vile, Savages, DIIV, Warpaint, são algumas que venho escutando desde o ano passado, tendo já citado uma e outra por aqui. E agora, mais uma para a lista: Lower Dens. Escutei esse nome pela primeira vez num dos vídeos da What’s in my Bag?, ótima série de entrevistas produzida por esta filial do paraíso na Terra chamada Amoeba Records. Não me recordo quem era exatamente a entrevistada, lembro-me apenas que era uma moça, e entre um e outro vinil ela comentou estar comprando também o novo Lower Dens, enquanto um trecho muito breve de uma das músicas deste álbum tocava ao fundo. O som me chamou a atenção de imediato; comecei a pesquisar sobre a banda e de repente, sem que eu percebesse, a internet transferiu para o meu computador os três discos que eles lançaram até aqui, aproveitando alguma brecha nos dispositivos de segurança do meu sistema… (Tenho chance de ser acreditado e absolvido, se eu disser isso perante um júri?) Bem, não querendo contrariar a internet, ouvi os três discos e achei-os todos sensacionais, com o título de favorito ficando com o Nootropics, lançado em 2012. Esta é uma de suas faixas:


Li em algum lugar o rótulo “dream pop” associado ao Lower Dens e admito que acho a etiqueta bonitinha: a textura dos sonhos está, de fato, em boa parte de suas músicas. E se o “pop” está na alma da banda, na genética identificamos o pertencimento à linhagem do post-punk, aquela mesma estética levada aos limites da saúde auditiva pelo shoegaze e que a partir de então foi sendo gradualmente sublimada, como se o desconforto e o mormaço das roupas pesadas e dos efeitos sem fim nas guitarras tivessem finalmente se tornado insuportáveis e cada nova geração de bandas fosse deixando pelo caminho um pouco daqueles excessos e juntando outras influências de acordo com suas predileções, por exemplo, o synthpop do New Order e do Depeche Mode aparece com frequência, o gótico de Cure e Cocteau Twins também fez escola, e no caso do Lower Dens, pelo menos neste Nootropics, há infusões muito sagazes de krautrock — aquelas progressões estranhas e ritmos esparsos que me parece estarem também entre os amores do xx, que é outra das minhas descobertas tardias — e também algumas doses de lisergias pinkfloydianas. Em resumo, um mistura muito rica que rende um caldo muitíssimo bom. Aliás, por falar em shoegaze, parece que andou rolando um shoegazing revival recentemente, não é isso? Ou ainda está rolando, não sei… Slowdive e Jesus and Mary Chain gravaram discos novos, estou sabendo, e, no entanto, não me vejo muito compelido a escutá-los, assim como o tão aguardado terceiro LP do patriarca deles todos, o líder da Congregação da Santíssima Guitarra, o My Bloody Valentine, o disco que eles lançaram finalmente em 2013 eu o escutei umas duas ou três vezes apenas e a coisa esgotou-se para mim… Embora eu ainda escute tudo isso de vez em quando (principalmente ao Honey’s Dead, do Jesus, que sempre foi uma ardorosa paixão pessoal) e também as bandas de Seattle citadas acima, em termos de rock ‘n’ roll ou música popular minhas atenções atuais estão voltadas, definitivamente, aos herdeiros dessa turma aí, bandas com integrantes mais jovens do que eu e amálgamas sonoros refinados que resultam numa música que pode-se dizer pertencente ao novo milênio. Tudo se recicla, afinal, no mundo da música pop, sem nenhum constrangimento, o contrário do que parece ocorrer no universo da música clássica, onde as obsessões e teoricismos acerca de questões como a evolução da composição e o papel da arte musical na contemporaneidade muitas vezes acabam por sabotar a própria música.

E, por fim, há músicas que parecem não se preocupar com nada disso, que parecem viver fora do tempo, independentes de tudo, independentes até mesmo da própria natureza restrita às leis da física do som — estão mais para cosmologias temporariamente abreviadas à condição de música, se bem que alguém poderia dizer “elevadas à condição de” e eu não contestaria. Deep Listening, de Pauline Oliveros e seus colaboradores Stuart Dempster e Peter Ward (aka Panaiotis), é um destes exemplares: música que equivale ao que propõem as imagens do filme 2001: A Space Odyssey. Ou às maiores cogitações dos maiores filósofos. É o som do infinito, o som que nos leva onde, movendo-se livre de cronologia e prescindindo de matéria, talvez não cheguemos por outros meios jamais, digressão necessária de vez em quando porque a rotina diária nos esmaga e nos faz esquecer, pouco a pouco, do quão extraordinário é estarmos “aqui, e não lá, neste tempo, e não noutro”, como dizia Blaise Pascal. As pessoas de antigamente mantinham seus rituais, temiam entidades invisíveis e inescrutáveis, celebravam missas e cultos o tempo todo, viam a si próprias de modo mais humilde e inserido em algo muito maior, conjecturando quais e quais formações estelares eram simpáticas ou contrárias à natureza humana… Eram vidas onde o encanto e a perplexidade com o que não se entendia ainda era parte importante da existência, enquanto que atualmente, não obstante ainda existir tanta coisa inexplicada ou obscura, parecemos estar cada vez mais abdicando de tais reflexões por não caberem mais em nossos cotidianos repletos de demandas por atenção, e agendas abarrotadas de trabalho, e estamos perdendo até mesmo o hábito milenar de dar uma breve espiada no céu noturno e seu manto de estrelas, visão inspiradora que, sobre nossas cabeças, permanece a mesma daqueles tempos antigos, talvez um pouco ofuscada pelo excesso de luzes urbanas, mas lá ainda, imensa e desconcertante. E vai nos custando caro essa vida moderna, essa capitulação diante das forças mundanas às quais não convém que as pessoas permaneçam livres e conectadas à natureza… Não proponho que voltemos às igrejas, ao mundo assombrado por demônios de outrora, evidente que não; aos templos das religiões institucionais só resta mesmo cumprir o destino que outro filósofo lhes previu, o de tornarem-se escombros. Um pouco mais de aberturas ao deslumbramento, contudo, acho que não seria nada mal. Os caminhos possíveis para isso hoje em dia são bem outros, naturalmente: poesia, ciência, metafísica, estas são algumas possibilidades ao alcance de qualquer um… Há, porém, um atalho mágico, que tenho certeza que vocês que me lêem sabem qual direi ser ele: música! De volta ao disco, pois: a mágica operada por Deep Listening, com eficácia poucas vezes igualada, é fazer o cidadão tecnologicamente evoluído e espiritualmente debilitado do século XXI adentrar uma espécie de portal cujas recompensas após terminada a incursão poderão ser os sentidos rejuvenescidos e a redescoberta do antigo encanto pelo cosmos e seus enigmas, alguns deles incógnitas que persistirão sempre um passo adiante de toda a ciência humana, eternamente inalcançáveis. É uma jornada mistério adentro indispensável, ao meu ver, pois para além de todos os múltiplos horrores dos dias atuais, algo me diz que perdermos a curiosidade seria a verdadeira grande tragédia da humanidade, o evento irreparável que anunciaria o começo de nossa derrocada.

Pauline Oliveros, essa feiticeira dos tempos modernos, morreu no fim do ano passado, mas Sofia Gubaidulina continua viva — tem 86 anos. The Canticle of the Sun, gravado por Gidon Kremer e sua Kremerata Baltica e lançado em 2012 pela ECM, traz duas obras da compositora russa e segue a linha de Deep Listening: música vasta e profunda. As formas e a instrumentação podem ser um pouco mais convencionais do que as utilizadas por Pauline e sua turma de exploradores — aqui é inconfundivelmente “música clássica” — mas o efeito é o mesmo: assombro, fascinação, recalibragem do espírito. Como já gastei meu vocabulário pomposo e grandiloquente descrevendo o Deep Listening, encerro por aqui. Não deixe de ouvir, quem estiver me lendo e que anseie por uma música que seja mais do que simplesmente um som a preencher o espaço enquanto se trabalha ou se lava a louça.

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1 comentário:

  • Alexandre em 10/07/2017

    Eu não tenho lembrança quase que nenhuma do filme, quando da notícia do relançamento da trilha até tinha ficado com vontade de rever mas agora desanimei. Mas o disco é sim excelente, eu ganhei o cd de presente de uma pessoa muito querida numa época bem especial, então tenho todo um carinho por ele.

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