Discos do mês - Fevereiro de 2017

Por Fabricio C. Boppré em 02/03/2017

Krzysztof Komeda - Astigmatic

Um fato histórico ajuda a entender a surpreendente maravilha que é o jazz feito na Polônia: o comunismo. Naqueles anos em que a liberdade era restrita, uma parte da represada criatividade artística dos poloneses acabava rebentando em bares escondidos em porões, clubes literalmente subterrâneos onde a “decadente música ocidental” podia ser praticada sem que os músicos corressem o risco de ganhar uma passagem só de ida para a Sibéria. As apresentações eram testemunhadas por apenas umas poucas dezenas de almas, e no entanto a proximidade e a intensidade daquelas sessões catárticas deixavam marcas profundas em todos, e assim o jazz tornou-se lentamente parte do cenário musical polonês. Então passou-se o tempo, caiu o muro… mas a música continuou rica e vigorosa, mesmo quando deixou de ser subversiva: ainda hoje os clubes de jazz na Cracóvia, uma cidade de irrefreável pendor artístico, são incríveis experiências musicais, uma das coisas mais legais de se fazer nesta pequena e simpática cidade, onde tais porões — não mais clandestinos, evidentemente — recebem amantes de jazz que vêm de todas as partes do mundo para assistir ao generoso cardápio de sub-gêneros que vai do mais tradicional e alegre quinteto ao trio mais soturno e meditativo, do bom e velho bebop ao mais experimental e barulhento free jazz. Só não dá mais de dizer que os locais são atmosféricos e esfumaçados, já que agora é proibido fumar em locais fechados… a vodca polonesa, por outro lado, continua permitida e maravilhosa. Em termos de registros fonográficos, o disco Astigmatic, de Krzysztof Komeda, é uma unanimidade entre os entusiastas que já investiram tempo para investigar o que há além das fronteiras dos Estados Unidos. Escutei-o diversas vezes nas últimas semanas, e a conclusão é mesmo incontestável: não é apenas um dos melhores discos de jazz já gravados na Polônia — é um dos melhores discos de jazz de todos os tempos. São três faixas magistrais, que fluem com a mesma mágica dos grandes álbuns dos mestres americanos. Não tivesse a morte precoce em 1969 lhe impedido de estender e evoluir sua obra, tenho certeza que hoje Krzysztof Komeda seria um dos grandes, ao lado de Monk, Coleman e Coltrane.

Jan Garbarek - Visible World

Apesar de ter sido lançado em 1996, este disco começa empilhando em suas primeiras faixas muitos dos cacoetes que nos anos 70 e 80 acabaram se tornando a face musical da New Age, todos aqueles truques meio bregas que pretendiam evocar os sons relaxantes da natureza, do céu noturno estrelado, da correnteza de riachos perdidos na selva amazônica e xamãs libertando os espíritos debilitados dos moradores das grandes urbes ocidentais, estes escravos modernos subjugados pela televisão e pelo consumismo. Coisas deste tipo. É realmente uma overdose, e se você tem traumas daquela época e sente um gosto nauseante na boca quando ouve alguém citar o nome de Enya, passe longe desse CD. Mas se você tolera, ou até mesmo gosta (não consigo decidir qual é o meu caso), então tem aqui um disco imperdível. Garbarek é um saxofonista norueguês que após um começo de carreira influenciado por Albert Ayler, logo abandonou o free jazz e passou a injetar uma certa sofisticação nas formas de sua música, com parcerias com gente como Keith Jarrett, Charlie Haden e George Russell amparando e fazendo evoluir esta sua inclinação, isso tudo ainda lá nos anos 70, uma expansão que foi tornando sua música gradualmente mais pura e flexível, suas gravações guiando-se cada vez mais pelo imperativo da beleza, estivesse ela onde estivesse. E assim, na fase madura de sua carreira, vieram parcerias com grupos vocais de música barroca, pianistas eruditos e compositores contemporâneos dos mais variados lugares do mundo: Índia, Geórgia, Grécia e Checoslováquia, para citar alguns. Em Visible World, as faixas Desolate Mountains I e Desolate Mountains II (Rainer Brüninghaus no piano) são exemplos eloquentes desta direção, e elas marcam também o ponto em que o disco praticamente abandona as sonoridades da Nova Era e fica ainda mais bonito, traçando belas paisagens atemporais, com apenas um ou outro pecadilho perfeitamente desculpável — a filha do xamã, por exemplo, aparece para cantar no lindo desfecho do álbum.

Valery Afanassiev – Franz Schubert: Sonate B-Dur, D 960

Eu adoro o carnaval! É sempre uma ótima oportunidade para uma folga no trabalho e um retiro sossegado em casa, preenchendo o tempo com maratonas de filmes, discos e leituras. Esse ano eu planejava me atirar no oceano da música de Brahms, pretendia abrir finalmente uns três ou quatro CDs dedicados a sua obra camerística que comprei no ano passado e que aguardavam lacrados na estante pelo momento certo de… Mas acabou que este plano não se concretizou. O cansaço de uma viagem da qual eu havia acabado de retornar me obrigou a repor algumas horas de sono, e também algumas horas de trabalho atrasado tiveram que ser compensadas. Tudo bem — Brahms pode esperar. Enquanto isso, outro compositor acabou re-encontrando seu caminho por aqui: Schubert e sua obra para piano solo foram ótimos companheiros nos últimos dias de fevereiro, uma trilha-sonora de cadência e suavidade em perfeita sintonia com a preguiçosa readaptação ao fuso horário e ao clima para os quais retornei. A sonata D 960 — a última escrita por Schubert, que morreu aos 31 anos — é uma obra-prima, é música para se perder no fim da tarde, com sua beleza tão natural aos ouvidos, tão generosa e introspectiva, uma beleza vinda direto da essência do que há de mais extraordinário no humano. É muito fácil entender como algumas pessoas acabam se tornando obsessivas por estas sonatas finais de Schubert. Tenho esse CD com a D 960 gravada pelo pianista russo Valery Afanassiev, mas em meu computador há também lindas versões pelas mãos de Paul Lewis, Mitsuko Uchida e Murray Perahia, e cada gravação dessas, com suas nuances e tempos distintos, é como um tesouro único e inestimável. Também muitos destes artistas são acima de tudo homens e mulheres generosos e generosas para os quais não há aplausos entusiasmados nas casas de concerto que bastem, não há ovação que seja suficiente para lhes demonstrar nossa gratidão por manterem vivos Schubert, e Liszt, e Chopin e Beethoven.

Martha Argerich - Liszt: Piano Sonata in B Minor / Schumann: Sonata in G Minor

Por mais hipérboles que eu use, nada do que vai dito aí em cima faz juz às obras e seus autores e intérpretes, e nem tenho essa pretensão, já que a palavra escrita não tem como competir com a música (é minha opinião, pelo menos). Estes textos que vou publicando por aqui têm mais a ver com devaneios, desvendamentos íntimos e a ordenação dos pensamentos, ou pode-se dizer também desta forma: tentativas de fazer o cérebro observar e refletir sobre o espírito, que é a parte de nós com quem as melhores músicas falam. (E é claro que eu sei que “espírito” é também mera atividade neurológica, mas não tenho nada contra preservarmos a antiga metáfora.) Os textos finais soam tolos na maioria das vezes, mas tudo bem, a elaboração deles segue sendo um divertido exercício intelectual, com a publicação neste espaço funcionando como uma estratégia bastante eficiente para manter a disciplina da escrita. E me estimula também, claro, a chance de acabar intermediando o encontro de alguém com alguma música que venha a lhe tocar da mesma forma que eu fui tocado por ela, fazer repetir-se a mágica que me levou em primeiro lugar a escrever sobre tal disco ou tal obra. Há o caso de certas músicas, no entanto — e finalmente aqui vai o que eu queria dizer desde o princípio — há os casos em que o melhor é não tentar escrever nada. Não racionalizar, não procurar palavras, não tentar compreender o que se passa intimamente durante a audição — não perder tempo com nada disso e apenas ouvir. O poeta T. S. Eliot expressou isso assim:

Music heard so deeply
That is not heard at all, but you are
The music
While the music lasts

E este é um exemplo disto:


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Créditos da imagem: Capinhas copiadas do Google Images.



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