Discos do mês - Janeiro de 2017

Por Fabricio C. Boppré em 31/01/2017

Brian Eno - Small Craft on a Milk Sea

Lembro de ter ficado imediatamente hipnotizado quando escutei pela primeira vez este Small Craft on a Milk Sea, pouco depois de seu lançamento em 2010: a primeira música era tão familiar e ao mesmo tempo maravilhosamente nova, uma evocação nostálgica das trilhas-sonoras assinadas por gente como Jerry Goldsmith, Vangelis, John Carpenter e Tangerine Dream algumas décadas atrás, música coadjuvante criada em teclados e sintetizadores para filmes (em sua maioria) vanguardistas de terror e ficção científica. Eram sons que não pareciam se prestar a uma vida própria, não pareciam realmente preocupados com a possibilidade de descolarem-se das imagens para serem ouvidos isoladamente… E ainda assim, devido ao poder mágico dos filmes, muitos deles tornaram-se inesquecíveis, se transformaram em elementos distintivos de uma era e de um tipo de cinema, e como sempre há loucos para tudo neste mundo (diziam-nos nossos pais, como se revelando um grande segredo que lhes fora ensinado pela larga experiência, enquanto que hoje em dia isso é fato óbvio e banal para aqueles nascidos já na era da internet), logo surgiram os aficcionados e os praticantes desse tipo de música estranha, um nicho pequeno porém entusiasmado e duradouro. John Carpenter, que não dirige cinema há anos, lançou recentemente dois álbuns com composições suas que não entraram em seus filmes, ou seja, há ainda interesse na boa e velha música de sintetizador, ainda que a coisa nunca tenha de fato deixado o underground. Por isso o impacto da primeira faixa deste disco do Brian Eno, que começa como se fosse a melhor destas trilhas-sonoras, gravada para um filme que jamais existiu. Soa deliciosamente atmosférica e anacrônica, um tributo aos sons e imagens de uma época que já nos parece agora tão rudimentar, quando tudo era tão lento e simplório em comparação com a estética destes nossos tempos atuais. Depois desta primeira faixa, o disco, que voltei a ouvir frequentemente após finalmente tê-lo comprado no ano passado, fica bastante variado, com faixas curtas que parecem abranger o amplo espectro de sons criados nos últimos 40 anos por Eno, com mais alguns pequenos temas típicos de trilhas-sonoras oitentistas emergindo de vez em quando — a melodia da primeira faixa, inclusive, volta a repetir-se aqui e ali em outras roupagens. E, claro, é importante dar o seguinte crédito: um dos colaboradores de Eno nesse álbum é Jon Hopkins, que tem em sua discografia algumas trilhas-sonoras reais, inclusive uma para um filme chamado Monsters que foi bastante elogiada mais ou menos pelos mesmos motivos expostos acima. Small Craft on a Milk Sea se transformou rapidamente em meu disco favorito do Eno fora da série Ambient.

Steve Reich: Octet/Music for a Large Ensemble/Violin Phase

É inevitável como a solução de um enigma matemático (expressão maravilhosa roubada de Thomas Pynchon): sempre que eu ouço uma obra maior do Steve Reich durante o dia, eu sonho com ela de noite. Confesso que não sou um fã muito entusiasmado de Reich; dentre os pioneiros do minimalismo americano tenho preferência pelo mestre Terry Riley, de quem tudo que conheço é excepcional. Contudo, é inegável que a música de Reich também opera algo em mim, ainda que em alguma região periférica do consciente onde seus efeitos não são perceptíveis de imediato, enquanto estou desperto — é matéria para o mundo dos sonhos, quando então esses sons voltam a preencher o tempo e o espaço, e de seus ritmos hipnotizantes e repetições geométricas e de toda aquela pureza prolongada e expurgatória emerge finalmente a mensagem que não pôde ser captada à luz do dia, durante a vigilância dos olhos abertos e dos sentidos alertas. Qual é essa mensagem, tão cristalina e evidente ali, no universo intermediário do sono? Não sei, nunca consigo me lembrar, ela me escapa nos primeiros segundos do despertar… Mas desconfio que tenha a ver com aquilo que sabem plenamente os monges tibetanos e ascetas montanheses e demais desgarrados de todas as eras e sociedades, coisas relativas à quietude e à disciplina como modo de vida, a observância dos ritmos naturais e a verdadeira natureza do som e do silêncio, que são muito mais complexos e poderosos do que à maioria de nós é dada a chance de compreender ao longo de nossas aceleradas vidas urbanas.

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