Meus discos favoritos de 2016

Por Fabricio C. Boppré em 30/12/2016

Olhando em retrospectiva, me vejo perplexo com a quantidade de música extraordinária que eu descobri e escutei neste ano que vai findando. Foi, no balanço geral, um intervalo de 12 meses abominável, o ano em que perdi de vez as esperanças no país em que nasci, com toda esta estupidez e mesquinharia geneticamente pátrias, e também um ano sombrio em várias outras partes do mundo, cada qual com seu quinhão de desgraças, seus magnatas e fanáticos de todas as estirpes, tendo sobre seus altares deuses ou cifras, tanto faz, dando curso inabalável a esta história de opressão e de horror, que é a história da humanidade, escrita desde sempre por estes mesmos personagens, com uma ou outra nota de rodapé a servir apenas como falsa esperança, como renovação de nossos vistos de eterna massa de alienados. Porém, em termos de música, há de ter sido um dos mais memoráveis, talvez sendo este fenômeno mesmo uma resposta a estas falências e atrocidades todas, a força criativa da humanidade tentando desesperadamente compreender o que acontece consigo própria, como pode caminharmos tão convictamente em direção a nossa própria extinção. Diante dessas visões mórbidas todas, minha coleção de discos, se a modéstia me permite dizê-lo, adquire cada vez mais a forma de um refúgio de recompensas infinitas, uma defesa inexpugnável contra o desmoronamento de tudo o mais. Não que eu seja um recluso ou um solitário total (em alguma medida, sou um pouco ambas as coisas, devo reconhecer, mas nada que chegue a despertar comentários e suspeitas da vizinhança… eu acho), porém se um dia vier a tornar-me um, por motivos internos ou externos quaisquer que sejam, estarei muito bem equipado para sobreviver sem sair de casa. Só não posso me esquecer, antes de me enclausurar em definitivo, de providenciar a compra de um novo aparelho de som, pois o meu atual começa a dar sinais de esgotamento.

De modo que a brincadeira anual de escolher os meus discos favoritos do ano foi bastante intrincada. Escolher apenas 14 dentre tantos escutados e apreciados foi uma grande crueldade… Peraí, como assim, 14? Não eram sete? Sim, sempre foram sete (já não me lembro mais que cabala nos levou a escolher esse número estranho), contudo, neste ano em que o arco dos meus interesses musicais cresceu consideravelmente — se for pensar em termos de abrangência temporal, mais que quintuplicou — resolvi dobrar o número de homenageados, que é para dar conta desse mundo de sons e fazer justiça a mais discos. Poderia chutar logo o pau da barraca e apontar tranquilamente uns 30 discos, mas acho que exercitar uma certa rigorosidade é bom também… E 14 é um bom número: mantém-se um vínculo com aquele original, que lega a este novo a impressão de algo meio randômico. É a evolução da tradição, sem eliminá-la completamente. Bom, uma completa trivialidade isso tudo, claro, então vamos logo aos meus discos favoritos de 2016, sem ordem de preferência:

  • Radiohead: A Moon Shaped Pool
  • David Bowie: Black Star
  • Savages: Adore Life
  • DIIV: Is the Is Are
  • Inter Arma: Paradise Gallows
  • Cobalt: Slow Forever
  • Oranssi Pazuzu: Värähtelijä
  • Vijay Iyer & Wadada Leo Smith: A Cosmic Rhythm With Each Stroke
  • Yann Tiersen: EUSA
  • Maria Radutu: Insomnia
  • Katia & Marielle Labèque: Invocations
  • Anja Lechner, Kadri Voorand, Tõnu Kõrvits, Tallinn Chamber Orchestra, Tõnu Kaljuste & Estonian Philharmonic Chamber Choir: Tõnu Kõrvits: Mirror
  • Patricia Kopatchinskaja & Saint Paul Chamber Orchestra: Schubert: Death and the Maiden
  • Pinchas Zukerman & Royal Philharmonic Orchestra: Vaughan Williams: The Lark Ascending & Tallis Fantasia / Edward Elgar: Introduction and Allegro & In Moonlight

Sobre alguns destes eu escrevi ao longo do ano; sobre os outros, nada me ocorreu em forma de palavras à época de meus contatos iniciais com eles, o que não significa que tenham me marcado menos. Foram, eu sua maioria, audições mesmerizadas de fim de tarde, quando tenho por hábito escutar alguma coisa que me ajude a desapegar da primeira seção do dia — a parte iluminada na qual me ocupo de trabalho e coisas práticas — e lançar-me para o outro lado desta dicotomia básica que nos define desde sempre, para a parte escura, para a noite. O A Cosmic Rhythm With Each Stroke, por exemplo, é de uma beleza inebriante inesquecível, e eu o colocaria em primeiro lugar da lista, se tivesse que arranjar estes títulos em ordem de preferência. Escuto-o novamente neste exato momento, enquanto escrevo este texto, um domingo de chuva fina ainda bem cedo e cercanias silenciosas, e tudo me parece mais belo e profundo com este som, me parece até mesmo que há alguma chance de redenção para este confuso aglomerado humano que somos. Quem sabe, há.


Como de hábito, termino citando algumas bandas e artistas queridos cujos discos lançados em 2016 eu ainda não tive oportunidade de ouvir, o que, obviamente, os tirou do páreo, mas é bem provável que alguns deles aparecessem na lista, caso eu já tivesse me dedicado a eles. Por isso, é justo mencionar que não escutei: os dois que o Neil Young lançou, e também os dois do Melvins; a trilha-sonora do Mogwai e o último do Swans (que, de acordo com o Michael Gira, é o último não apenas no sentido de mais recente, mas também o último definitivo a ser lançado por esta incrível formação da banda, e isso é mais uma das tantas mortes lamentáveis de 2016); Nick Cave and the Bad Seeds, PJ Harvey, Wilco, Leonard Cohen, Bon Iver, Warpaint e o disco solo do Peter Garrett (Midnight Oil); SubRosa, Neurosis, John Carpenter, Body, Aluk Todolo e Entombed. Devo estar esquecendo alguma coisa, mas estes são os nomes principais.

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2 comentários:

  • Sid Costa em 08/01/2017

    Escutei poucos lançamentos esse ano, alguns deles figuram em sua lista. A Moon Shaped Pool é muito bom, mas confesso que esperava algo mais direto então o disco só foi engrenar de fato depois que assisti aos clipes ao vivo que eles soltaram de* The Numbers* (a guitarra funky de Greenwood no vídeo é foda) e Present Tense. Blackstar é clássico, não é uma afirmação post-morten, já havia dito isso a alguns amigos. Difícil destacar uma faixa. O Savages passou com louvor pelo teste do segundo disco. A faixa título é um achado, ainda mais quando no refrão elas começam a soar como o Smiths. Já o DIIV não desceu. Fiz força pra escutar, mas não passei da quarta audição.

  • Fabricio C. Boppré em 09/01/2017

    Sid, dificilmente Radiohead faz o que esperamos, não é mesmo? O Savages foi das minha descobertas recentes mais legais. Aliás, três das bandas de rock mais legais que descobri nos últimos tempos são formadas exclusivamente por mulheres: La Luz, Warpaint e Savages. As exceções são DIIV e War on Drugs.

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