Discos do mês - Outubro de 2016

Por Fabricio C. Boppré em 01/11/2016

Os três discos que eu conheço deste colosso de banda chamado Cobalt são todos absolutamente devastadores, o que talvez não seja lá um grande elogio, afinal, não é exatamente um talento muito raro ou especial este que permite alguém compor e executar uma música que seja violenta e massiva, que se pareça com a trilha-sonora para o apocalipse: basta que, no plano da física, a coisa soe como um ataque frontal aos sentidos, e na metafísica, uma dose de niilismo e algum senso de maldade. Talvez nem isso: alguma destreza técnica e as devidas configurações nas guitarras e demais equipamentos podem ser mais do que suficientes. Entretanto, fazê-la como fazem esses caras, hipnóticas como as faixas deste magnífico álbum duplo Slow Forever — isso sim é somente para alguns poucos abençoados ao inverso. Elegi-o meu disco favorito de metal de 2016 quando ainda não havia passado nem três minutos da primeira faixa, já no primeiro play. E não foi uma surpresa constatar que toda a uma hora e 22 minutos que vem depois é igualmente excepcional, alucinante e selvagem de fazer ferver o tutano dos ossos.

Eu ia acrescentar ao parágrafo acima que o Cobalt é a melhor banda de metal da atualidade, mas resolvi deixar essa frase de efeito de lado, afinal, seria uma imprecisão ou no mínimo uma simplificação. São muitas as bandas de metal fantásticas na atualidade; como já escrevi aqui algumas vezes, na minha opinião vivemos o grande momento da música do mal, a despeito dos anos 80 quando havia tantas camisetas do Iron Maiden e do Metallica nas ruas que hoje, uma geração depois, elas foram incorporadas ao vestuário das pessoas que obedecem aos ditames da moda e do comércio de shopping center. Mas aquilo tudo era brincadeira de crianças birrentas perto do cenário atual. Não hesito em dizer que hoje a coisa é concebida e executada como arte de verdade, talvez em função das bandas terem calibrado melhor suas expectativas e ambições a partir da exaustão do primeiro boom do gênero e do posterior estabelecimento da internet como meio de divulgação e distribuição, meio este que torna possível um público, ainda que restrito, mesmo para os artistas com as visões mais singulares e bizarras imagináveis. E hoje, de fato, você chuta uma árvore na web (ou seja lá qual for a alegoria equivalente no mundo paralelo internético) e caem centenas de bandas com maravilhosas visões singulares e bizarras. Ouçam, por exemplo, o último e totalmente insidioso disco do Oranssi Pazuzu, chamado Värähtelijä, uma farta e audaciosa mistura de sons e climas que transitam entre evocações de terrores cósmicos e enigmas velados em abismos marinhos, em ambos os casos atmosferas de cores e densidades completamente diferentes da nossa cotidiana, para não falar nas carrancas e apetites das criaturas que lá habitam. Um futuro (ainda distante, talvez até mesmo incerto) onde todas as espécies e todos os quadrantes do universo estejam cartografados e catalogados talvez seja meio sem graça, e acho ótimo que ainda estejamos neste meio de caminho da humanidade, com amplo espaço para a imaginação e a fantasia, e bandas como o Oranssi Pazuzu com suas especulações sobre os enigmas das zonas penumbrosas.

E este último do Inter Arma, o que dizer deste glorioso cataclismo sonoro? Uma catedral diabólica de sons consagrados aos anjos caídos, hinos místicos que vêm direto dos círculos do inferno. Uma delícia! Parece não haver mais limite algum a restringir o que podem fazer essas bandas, após terem dominado essa espécie de alquimia moderna: eletricidade transformada em veneno.

A música que mais tenho escutado nos últimos dias, no entanto, e embora possa ocupar essa mesma categoria de música cabalística, ou música sinistra, ou seja lá o que for que também a distingue da música ordinária feita para nos sentirmos humanos e felizes, esta é de execução completamente diferente. A música de György Ligeti foi escolhida por Stanley Kubrick para ser a protagonista etérea do miraculoso 2001: A Space Odyssey, o que pode ser perfeitamente igualado a ganhar a medalha de ouro nas Olimpíadas definitivas da música no fim dos tempos. Algo parecido ou um título ainda maior. A obra deste compositor húngaro é um mundo de sons deslumbrantes, às vezes perturbadores, às vezes vaporosos e insondáveis, sons que parecem vazar de uma outra dimensão durante breves e imprevistas intersecções de espaços-tempos que ainda exigirão muitos séculos para termos idéia do que pode ser isto, de onde pode estar vindo isto. O que acaba resultando num espasmo de assombro quando retornamos deles e nos vemos novamente entre as paredes de casa, e ouvimos a TV do vizinho sintonizada na novela e o horroroso estrépito dos automóveis na rua, e estes objetos todos, sólidos e imóveis, a nos circundar, a lei da gravidade mantendo tudo grudado ao chão e mais ou menos em equilíbrio… E por fim sentimos todo o peso e a indiferença das coisas e nos damos conta de que aquele outro mundo é tão-somente uma partitura concebida por um homem apenas, executada por um grupo de atenções e braços e vozes convergentes, seguindo as marcações daquele primeiro — ainda assim, um grupo de pessoas comuns feitas de carne e ossos. Como pode isso? Por que não nos ensinam isso nas escolas, a manusear esse poder de transcendência, ou saber de sua existência, pelo menos, e explorar preliminarmente as incríveis possibilidades de visão e criação deste músculo que carregamos no alto de nossos esqueletos? A resposta está, me parece, na conveniência de nos preparar para outros fins, para os quais a liberdade e a coragem podem ser até mesmo uma ameaça. Há de se ter fé de que um dia isso será nada mais do que um longíquo passado, negro e obsoleto.

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