Discos do mês - Setembro de 2016

Por Fabricio C. Boppré em 03/10/2016

Maxim Vengerov, Mstislav Rostropovich & London Symphony Orchestra: Shostakovich - Violin Concertos Nos. 1 & 2

No momento em que escrevo isto, escuto pela perdi-a-conta-gésima vez nestes últimos dias ao Concerto para Violino Nº 1 de Dmitri Shostakovich, que vocês já sabem ser o meu herói no mundo da música clássica, o meu guia preferido na jornada que venho empreendendo pelos cenários de horizontes amplos e deslumbrantes da música erudita. Esta obra, dividida em quatro partes, contém todo um mundo em si: começa imponente e ameaçadora (o Terror de Stálin começando a tornar-se inexorável, presumo), transforma-se em beleza indizível, e segue adiante repleta de tensões antecipatórias, transmutando-se de uma coisa em outra sem que se perceba fronteiras muito claras — às vezes um delicado fiapo de música que sustenta sobre sua forma instável e evanescente, sabe-se lá como, um peso inconcebível de sublimidade, às vezes ritmos frenéticos e impetuosos de tirar o fôlego, e por aí vai. É o tipo de música que faz o pensamento desprender-se das rédeas habituais, nos faz especular o quanto é possível abarcar com a música. Faz pensar também naquela frase, cujo autor me escapa completamente agora: “todas as artes gostariam de ser música”.

Marillion: Misplaced Childhood

Nem vou perder meu tempo tentando explicar, mas o fato é que eu gosto do Marillion. A coisa passa pela minha infância, passa por associações inquebráveis que habitam o nível mais basilar das fundações da minha vida, passa principalmente por Kayleigh — que está no tracklist de uma compilação de sucessos radiofônicos que foi muito provavelmente o primeiro disco da minha vida — e passa, é claro, por uma série de deficiências em meus genes. Gosto particularmente deste disco, o Misplaced Childhood, que acabo de adquirir em uma versão especial dupla recheada de b-sides, versões demos e um encarte delirante e bastante fajuto, criado com pouco ou nenhum zelo, uma impressão toda granulada que só deve ter passado pelos usuais testes de qualidade devido ao fato de que em todas as etapas do processo as pessoas envolvidas deviam pensar “ora, deixa pra lá, ninguém vai comprar isso mesmo”. Pessoas que gostam ou já gostaram de Marillion devem ter o vinil original de 1985 em alguma caixa esquecida no fundo de um armário, seus nomes inscritos com caneta Bic sobre o algodão das nuvens da arte sensacionalmente brega de Mark Wilkinson, e interesse zero por música hoje em dia, ocupadas que estão com seus filhos e carreiras ou então com a completa ausência de filhos e carreiras e ao invés disso a preocupante quantidade, cada vez maior, de álcool que precisam para tocar adiante seus dias, ainda que na lembrança ocasional desse disco corram para o YouTube para escutá-lo outra vez e não raro surpreendam-se a si próprios em vias de derramar umas lágrimas ao perceberem ser impossível resgatar seja lá o que se perdeu ao longo do caminho. Ou então, quem sabe, continuem apaixonadas pela banda, e pelo King Crimson e pelo Yes, e pelo Supertramp e pelos discos solos do Fish e do Roger Waters, aos quais escutam regularmente a partir de discos de vinil ultra bem-conservados em cujas capas tiveram o bom-senso precoce na adolescência de não escrever seus nomes, em aparelhos de som caros e sofisticados comprados com facilidade devido aos altos salários proporcionados por seus cargos importantes em multinacionais, enquanto tomam doses bem regradas de whiskey. O infortúnio de ter sido uma banda de (neo-)progressivo nos anos 80! Nem ter gravado esse ótimo — quero dizer, assim me parece — Misplaced Childhood salvou-os desse futuro, desse patrimônio bastante questionável: ser escutado pelos sujeitos descritos acima, e por mim.

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