Discos do mês - Agosto de 2016

Por Fabricio C. Boppré em 30/08/2016

E não muito antes e nem muito depois — no tempo certo da natureza, como sempre — surgem os primeiros presságios de mudança de estação, os sinais óbvios na temperatura e os sutis na orquestra dos animais alados, incluindo aí o maldito zumbido dos pernilongos, que estão de volta depois da trégua de seu sumiço sazonal. A música que preenche meus dias, entretanto, essa não muda já há uns dois meses, e ela ainda há de atravessar comigo um bom período. Nesse exato momento, minhas obsessões atendem pelos nomes suntuosos e exóticos de Johannes Brahms e Leoš Janáček, mas ao longo do mês de agosto a grande estrela foi aquela mesma indicada aqui anteriormente, Dmitri Shostakovich, cujas sinfonias e quartetos de cordas devem ter deixado o meu perfil no last.fm completamente zureta, acostumado que este sempre esteve a contabilizar apenas artistas de rock, metal e jazz, e de repente aquele monte de movimentos, de adagios, de lentos, largos, moderatos, F-minor, E-flat, todo um sistema de numeração e um vocabulário que para mim ainda é bastante enigmático, mas que vou decifrando aos poucos. Um disco que eu indicaria imediatamente, para quem quiser começar a se aventurar no mundo da música erudita (e também para quem essa idéia aparentemente estapafúrdia nunca ocorreu eu indico mesmo assim): Webern / Shostakovich / Burian, gravado pelo Rosamunde Quartett, cuja interpretação magnetizante do quarteto de cordas No. 8, minha peça preferida dentre todas que ouvi até aqui do mestre russo, é formidável para além das palavras. A certa altura, a coisa ganha um andamento e uma intensidade que te levam a lugares que eu não sabia que este tipo de música era capaz de levar. É tão bom quanto os melhores momentos de Pink Floyd e Miles Davis, ou seja, é maravilhoso como pouquíssima outra música é.

Sinfonias são, para mim, um acquired taste, cujo processo ainda está em plena fermentação, mas as poucas que ouvi até aqui de Shostakovich são todas, sem rodeios, fabulosas — em que pese esse adjetivo ser muito pobre, totalmente insuficiente se formos falar sobre a quinta de suas obras sinfônicas: escutei-a duas vezes somente (em gravação da Royal Philharmonic Orchestra conduzida por Vladimir Ashkenazy), sendo que a última audição tem já umas três semanas, e não obstante seus efeitos permanecem latentes em mim, há alguma coisa vibrando ainda em algum ponto de meu cérebro e que tenho medo de estimular ainda mais sob o risco de trincar irremediavelmente alguma coisa. A sensação é de que sempre que esta obra é executada por uma orquestra minimamente capacitada, seja lá em que parte do planeta, seja lá para que audiência, a Terra transforma-se em um emissário de sinais estentóreos e imortais que chegam aos confins do universo e vão além, e informam aos seres de aspectos inimagináveis que por certo existem por aí de que há alguma coisa extraordinária acontecendo em alguma outra coordenada remota do cosmo. Por ora, a Quinta de Shostakovitch é para mim o que parece ser a Nona de Beethoven para o restante da parcela da humanidade apreciadora de música clássica: a criação musical definitiva.

Béla Bartók, outro preferido da casa, é, de certo modo, oposto a isso tudo. Sua música tem uma coisa mais leve e terrena que me encanta, um espírito às vezes até mesmo brincalhão, algo que nunca funcionou comigo quando aplicado ao rock ’n’ roll — eu sempre detestei rock metido a engraçadinho (quase fui defenestrado da turma de amigos do colégio na época do Mamonas Assassinas, por ousar achar aquilo ridículo), mas na música clássica, veja só!, isso funciona, e um violino brincalhão pode ser uma das coisas mais deliciosas que há no reino dos sentidos. Leio que Bartók era muito envolvido e influenciado pelo folclore húngaro, o que me faz amar ainda mais a Hungria, uma terra em que nunca pisei, mas que já apreciava muito por ter-nos dado outro Béla fundamental, e que agora virou meu próximo sonho de viagem de férias.

Outro que posso citar dentre os de música mais miúda é o francês Erik Satie, cujas peças para piano, de sonoridades rarefeitas e arcanas, já ocupam um lugar especial aqui no meu repertório de música noturna.

Por último: curioso como é o Alice in Chains a banda que, dentre aquelas queridas todas de Seattle, vem gradualmente se consolidando como a mais relevante de todas para mim. Refiro-me à música antiga deles, claro, os discos clássicos com o Layne Staley; esses últimos da segunda encarnação da banda eu escutei muito pouco, e nem tenho muito interesse em resolver isso. É curioso pois acho que seria o candidato menos óbvio: eu provavelmente apostaria em Pearl Jam, ou Nirvana, ou Soundgarden, ou mesmo Screaming Trees e Mudhoney, se alguém me questionasse sobre isso lá atrás, quando éramos adolescentes, se naquela época fizéssemos uma brincadeira especulatória sobre qual daquelas bandas ainda estaríamos ouvindo quando estivéssemos chegando à beirada dos 40 anos. Bem, eu escuto a elas todas ainda, mas conquanto seja o Pearl Jam aquela da qual eu ainda me sinta mais próximo, de escutar mais regularmente e comprar reedições em vinil e tudo mais, é a música do Alice in Chains a única que parece conservar certos espaços recônditos nos quais podemos nos recolher e nos deslumbrar sem nenhum ressaibo ou saudosismo, e a voz insuperável de Staley volta muito frequentemente para me assombrar durante o dia. Dia desses escutei hipnotizado ao disco acústico deles. Canções como Nutshell e Sludge Factory, com suas cargas quase insuportáveis de desamparo, suspense e densidade, emocionam a todos ainda? Ou estarei eu em total descompasso com os outros da minha geração? Muito do que escrevi aqui parece apontar para esta segunda opção, mas tenho a sensação nítida de que os discos do Alice in Chains vão envelhecendo melhor do que os dos seus conterrâneos.

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Créditos da imagem: Capinhas copiadas do Google Images.



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