Discos do mês - Maio de 2016

Por Fabricio C. Boppré em 31/05/2016

Radiohead: A Moon Shaped Pool

Mas que maravilha este novo disco do Radiohead! Foi paixão à primeira escutada, tal como o In Rainbows. Estão ali todas as grandes virtudes da banda, depuradas e executadas com a habitual precisão lapidar, mas principalmente aquela deliciosa esquizofrenia, uma esquizofrenia sutil, requintada — músicas cheias de beleza e pequenas esquisitises que deixam sempre um desconforto meio indefinido pairando no ar, um encanto nunca desacompanhado de um laivo de estranheza. Como se fosse a trilha-sonora de um outro planeta em que o LSD é distribuido gratuitamente mas as pessoas nem se interessam muito posto que a substância não acrescenta muita coisa ao estado natural delas. O álbum anterior, The King of Limbs, me passou completamente batido — não devo tê-lo escutado mais do que três vezes — e isso esfriou meu interesse pelo Radiohead nos últimos tempos, mas agora fiz as pazes com a banda, tornei-me novamente um fã devotado e acho até que já sei qual será o meu disco favorito de 2016.

Nick Cave and the Bad Seeds: No More Shall We Part

Nosso querido amigo Nick Cave é também escritor e autor de roteiros para cinema, mas há um item de sua discografia com os Bad Seeds em que ele parece juntar num único pacote esses seus talentos todos: me refiro ao fantástico No More Shall We Part, de 2001. É um disco longo, denso, por vezes até mesmo épico, cheio de dramas e narrativas, cuja música encerrada ali parece apenas a muito custo se conter para não romper seus limites físicos e transformar-se em imagens e banhos de sangue e neve gelada de verdade contra a pele. Discaço daqueles que clamam preparação especial para sua apreciação: recolhimento, luz de velas, uma garrafa de vinho… ainda que nenhuma dessas coisas mundanas impeçam que, se atingida a devida sintonia, você logo se veja transportado para o interior de igrejas sem sinos e bares semi-vazios e esfumaçados, os lugares habitualmente frequentados pelos fanáticos e desesperados que são os personagens de Cave.

Rolling Stones: Beggars Banquet

Eu já dei umas espinafradas nos Stones por aqui, falando mal deles por conta desse mega-espetáculo em que eles se tornaram, esses shows enormes e horríveis que eles fazem, tudo em total contradição com o blues de seus heróis originais. É o poder do dinheiro que degenera, que “destrói coisas belas”, como já dizia o poeta. Mas se cheguei a dizer que eu não gosto dos Stones, me perdoem, eu estava mentindo. Mentira deslavada, bravata pura… eu adoro os Rolling Stones! Vejam a sequência matadora que eles gravaram e lançaram entre 1968 e 1972: Beggars Banquet, Let It Bleed, Sticky Fingers e Exile on Main St.. Esses quatro discos sozinhos teriam sido suficientes para tornar justa a fama intergaláctica da banda. Tenho a impressão de que o Exile on Main St. é o mais celebrado de todos, mas certamente não por mim; gosto dele, mas menos do que o Let It Bleed, e fico entre o Beggars Banquet e Sticky Fingers na hora de apontar o meu favorito, pendendo para o Beggars, que parece homenagear meio vagamente os temas e personagens de A Ópera dos Mendigos, obra escrita por John Gay e Johann Christoph Pepusch em 1724, e que inspirou também o disco Ópera do Malandro, do Chico Buarque. Há algo de estranho nesse disco, no entanto, algo ambíguo que sempre me deixou intrigado, justamente na letra de Salt of the Earth, que começa como uma ode à classe trabalhadora (“let’s drink to the hard working people, let’s drink to the lowly of birth…”), mas lá pelas tantas, com uma franqueza enigmática, tem Mick Jagger cantando que “when I search a faceless crowd, a swirling mass of gray and black and white, they don’t look real to me, in fact, they look so strange”. É, talvez seja Jagger antevendo quem seria o público exclusivo das apresentações de sua banda, no futuro, algo bem diferente do salt of the earth que devia assisti-los na Inglaterra meio século atrás…

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