Discos do mês - Abril de 2016

Por Fabricio C. Boppré em 02/05/2016

Charada: o que os discos Happy Songs for Happy People do Mogwai, Acid Eaters do Ramones, Superunknown do Soundgarden, Boys Don’t Cry do Cure e aquele ao vivo do Pantera de que não me recordo o nome têm em comum? (Além do fato — piada roubada desse filme — de não serem chineses?) Resposta: o fato deles todos terem um CD-R dentro de suas caixinhas em minha estante, já que os CDs originais pifaram. O único motivo que consigo imaginar para esses óbitos todos é prazo de validade excedido — datas que deveriam vir grafadas nas embalagens, mas não vêm. Prefiro não especular a respeito de como estará essa estatística funesta daqui uns 20 anos.

O do Cure é o mais recente sepultado no meu cemitério dos CDs que não tocam mais: fui escutá-lo uns dias atrás, e bem quando inicia a minha amada Jumping Someone Else’s Train começa também aquele maldito tchic-tchic-tchic-tchic e a coisa enguiça totalmente antes da música ultrapassar 20 segundos. E depois não querem que baixemos música da internet! Bem, no caso desse disco, é claro que não me acalmou os nervos saber que tenho-o também em mp3, e tampouco possuir a versão deluxe do Three Imaginary Boys me sossegou: apesar do Boys Don’t Cry ser uma versão um pouco diferente do TIB (ele foi lançado nos EUA meio que como uma compilação de músicas do TIB e mais alguns singles que não entraram no tracklist deste último, após a banda se tornar um sucesso comercial na Inglaterra), é só no BDC que é possível escutar Killing an Arab, já que nem no disco bônus da versão deluxe do TIB ela entrou, desse vez por ser considerada uma música polêmica. E também tem o fato da Jumping Someone Else’s Train estar enterrada lá pro final do disco bônus no TIB deluxe… Ou seja, não dá de ficar sem o Boys Don’t Cry na coleção. O Three Imaginary Boys é o disco de estúdio oficial, o primeiro da banda, e é ótimo, mas eu prefiro o Boys Don’t Cry. O Cure é uma banda que eu adoro, apesar de não escutá-los mais com muita frequência.

E esse foi, na verdade, um mês praticamente inteiro dedicado somente às minhas bandas mais queridas, e aos discos que são os meus portos seguros: Black Rebel Motorcyle Club, Smashing Pumpkins, Cure, Wilco, Pearl Jam; In Utero, Are You Experienced e New Adventures in Hi-Fi. Do Wilco escutei muito o A Ghost Is Born. Acho que pouca gente comenta isso, mas foi um verdadeiro milagre que depois de um disco espetacular como Yankee Hotel Foxtrot, a banda tenha lançado esse espantoso A Ghost Is Born, que na minha opinião é ainda melhor que o Yankee Hotel Foxtrot. É um disco inteiramente fantástico, de cabo a rabo, mas há uma música nele que se destaca de forma especial, sem maiores alardes, munida apenas de uma beleza tranquilizadora, ímpar: a minha favorita Hell is Chrome. Eu também adoro a Handshake Drugs — acho até que por algum tempo eu a tive como minha preferida oficial — mas com o passar do tempo a Hell is Chrome foi se impondo, um pouquinho mais a cada vez que ela tocava no rádio da minha consciência, de onde as músicas emergem meio que aleatoriamente durante o dia, e numa estatística total consolidada, com todas as músicas conhecidas por mim ao longo destes 37 anos de vida completados dias atrás, é garantido que a Hell is Chrome esteja entre as cinco primeiras mais tocadas, e é das poucas que quando começam costumam ir até o fim — das primeiras notas ao piano e a voz serena de Jeff Tweedy, verso por verso, e depois aquele solo de guitarra ultra-torto vibrando sem pressa no silêncio, e o fim da canção, plácido como um lago num fim de tarde de verão — e quase nunca ela se perde pela metade, ou se abrevia diante de outros pensamentos, outras músicas, outros barulhos.

E finalmente, passados quatro anos da compra — durante esse tempo todo a caixa tendo permanecido intocada no armário — finalmente me assaltou também a vontade de voltar mais seriamente ao Mellon Collie and the Infinite Sadness, e resolvi então explorar esta versão deluxe, ou estendida, ou especial, ou seja lá qual o nome tenham dado à paquidérmica reedição do magnum opus do Smashing Pumpkins. Puseram-no embalado num belíssimo produto, de capricho estético apurado, livretos enormes que exalam em quantidades ainda mais embriagantes aquele aroma de discos novos recém-abertos, e o conteúdo sonoro distribuído em cinco CDs e um DVD. Inicialmente me ative aos dois discos originais mesmo, velhos conhecidos, e em alguns momentos senti recapturado o fascínio da descoberta desta singularíssima coleção de músicas, o que aconteceu há exatos 20 anos. É um leque de música extraordinária e variada ainda não igualada nessa medida de extensão e inspiração e execução avassaladora, não? Lembro do choque das primeiras audições, da compulsão que foi me tomando gradualmente à medida que eu compreendia que aquilo era possível; sim, The Arms of Sleep e Tales of a Scorched Earth num disco só; sim, Muzzle, Porcelina of the Vast Oceans e Thru the Eyes of Ruby mirando o infinito, sem receios quanto a tudo que elas têm de exagerado e de enorme, porque é isso aí, não há mesmo limites para o espírito humano, ou se há, ainda estamos muito longe de encontrar suas fronteiras. A plenitude de Bodies e Tonight, Tonight a aniquilar tímpanos e sistemas pessoais de equilíbrio. 33, Beautiful, 1979, We Only Come Out at Nigh: só o fato de existirem nessas suas formas imaginativas e extravagantes. É um disco todo extravagante, na verdade — na ambição, na voz rasgada do cantor que parece gritar mais e mais na medida mesma que se dá conta de quanto ela é esquisita quando muito exigida, na ausência de moderação e na coragem de enfileirar 24 músicas que têm abismos a separá-las, e assim o álbum se descortina como essa paisagem ampla, mas também pontilhada de detalhes meticulosos, como que brechas para mundos abstratos noturnos, metafísicos, um quadro em quatro dimensões. E mais uma penca de adjetivos poderíamos despejar aqui, mas chega. Há discos menores melhores, por certo; há, evidentemente, discos mais revolucionários; mas não há disco algum como o Mellon Collie and the Infinite Sadness. Ele meio que justifica a espiral de loucura e egocentrismo em que gradualmente se meteu o Billy Corgan depois de seu lançamento. Justifica, seguramente, a posição de meu disco número 1, ainda.

E pra citar rapidamente pelo menos um disco não pertencente à categoria “discos-ouvidos-já-mais-de-uma-milhão-de-vezes”, na qual todos os citados acima se encaixam: tem essa banda Polvo que conheci recentemente através do disco Exploded Drawing. O som é noventista clássico salpicado com umas boas influências de Wire, naquilo que tem de minimalismo baixo-guitarra-bateria inventivo — soando sempre tão somente isso, mas ao mesmo tempo parecendo muito mais — e também de PiL, a quem eu acho que, na verdade, a grande maioria das bandas do pós-punk devem alguma coisa. Nesse sentido é o oposto do Mellon Collie and the Infinite Sadness, o que não significa de modo algum que não seja ótimo. É ou não é? É sensacional, e preciso procurar mais discos desses caras.

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1 comentário:

  • Sid Costa em 06/05/2016

    Hell Is Chrome é a melhor canção de Lennon lançada no século 21.

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