Discos do mês - Março de 2016

Por Fabricio C. Boppré em 03/04/2016

Primeiro foi o Iron Maiden, uns meses atrás, quando fiz uma contagem regressiva para o lançamento do The Book of Souls ouvindo cada um dos discos da banda em ordem de lançamento, um por dia, culminando na data em que o novo álbum chegou às lojas, quando então comprei-o e passei a escutá-lo alucinadamente. Foram duas ou três semanas como uma criança aguardando ansiosamente e então finalmente de posse e fascinada com seu brinquedo novo. Depois foi o Black Sabbath: nova maratona de audição de discografia completa em ordem, desta vez em jornada paralela à leitura da biografia da banda. Atravessei a coisa toda: Tyr, Headless Cross, Forbidden, etc. No fim, eu misturo os nomes de todos aqueles vocalistas e baixistas e bateristas contratados e demitidos e recontratados (não necessariamente nessa ordem) incontáveis vezes pelo Tony Iommi ao longo do tempo, mas foi bem legal. E então, terminada a maratona do Sabbath, senti o foco do meu interesse mover-se gradualmente para uma outra pilha de discos da minha estante, a pilha que tem os discos do Metallica e do Sepultura.

Sepultura eu sempre ouvi com regularidade; Metallica, nem tanto. Com o Metallica eu tenho uma relação bem incomum: adoro o Load, o disco que 138% dos fãs detestam, mas eu verdadeiramente o considero um belo CD, já o disse aqui algumas vezes. Por outro lado, os idolatrados primeiros discos, esses eu custei até conseguir me interessar de verdade por eles. Lembro que nos tempos de colégio eu tinha um amigo que os tinha todos, e eu frequentemente pegava com ele o Master of Puppets e o …And Justice for All emprestados, mas aquilo nunca me caia bem: me soava um metal excessivamente quadradão, abrutalhado, maçante demais em sua total falta de nuance. Sem nenhum suíngue, se é que vocês me entendem. O Ride the Lightning tem Creeping Death e For Whom the Bell Tolls, então não tem como não gostar, mas estes dois seguintes — ícones sagrados na Santa Ortodoxia Metaleira — não eram música para mim, concluí em algum momento daqueles anos feitos de poucos vinis e CDs e muitas fitas K7. Porém, com o passar do tempo, sempre curioso em entender o culto prestado principalmente ao Master of Puppets, passei a me entender melhor com esse disco, e até mesmo a gostar dele; passei a apreciar essa massa avassaladora de guitarras que ainda me soa absurdamente opressiva e antiquada, mas também divertida e saciadora de algum apetite primitivo por truculência animalesca que talvez reste em nossos genes. E esse apetite esteve intenso aqui em casa recentemente, e foi além: durante alguns dias o CD (ao qual me rendi de vez e comprei no ano passado) transfigurou-se em um verdadeiro monolito extraterreno em minha estante, criando um campo gravitacional que frequentemente me apanhava e me levava até ele e me fazia colocar o CD no aparelho de som, para mais uma escutada naquelas músicas sólidas, colossais, de ângulos resolutamente retos tal qual o artefato clarke-kubrikiano. É, enquanto o gosto da maioria das pessoas parece evoluir, o meu vai no sentido contrário, convergindo em direção ao seja lá o que for aquilo que seja correspondente ao zero em termos de capacidade de apreciação musical…

Sobre o Sepultura, andei ouvindo muito o Beneath the Remains (uma das capas de disco mais lindas de todos os tempos). Sou muito afeiçoado ao Sepultura, em todas as suas fases — das tosquices dos primeiros discos aos lançados com o Derrick Green —, mas com admiração especial pelo lugar em que chegaram Max e o resto da banda antes de separarem seus caminhos, Chaos AD e Roots, esse último uma das coisas mais radicais e catárticas na história do metal, reafirmo isso para mim mesmo sempre que o escuto.

Mas não só de música xucra foi feito este meu último mês. Eu já tive o Test for Echo do Rush na minha coleção, mas não me lembro do que aconteceu com ele, se o perdi (improvável), ou emprestei e ele não me foi devolvido (talvez), ou troquei por alguma outra coisa em tempos de pouca grana e interesse por Rush esvaziado (deve ter sido isso). E esse disco é música bonita por excelência, não? É inspiradora e altamente sinestésica, pois me faz pensar naquela coisa da busca pela perfeição na escultura clássica; um som de formas perfeitas, refinadas, idealizadas, que parecem flutuar por atmosferas mais limpas, muito longe da coisa rastejante suja de terra e sangue dos Sepulturas e Metallicas. Gosto muito do Test for Echo, apesar de ser provavelmente o Rush mais pop de todos, um Rush fofinho lavado com amaciante, mas gosto muito mesmo assim e resolvi então tentar repô-lo na coleção procurando primeiro nos sebos da cidade, mas em vez dele achei o Permanent Waves, de que também sou fã e acabei comprando. É um Rush fase intermediária, que tem na fantástica Natural Science um dos últimos suspiros progressivos da banda, e pelo menos duas faixas certeiras maravilhosas: The Spirit of Radio e Freewill. O Test for Echo eu não achei e acabei encomendando pelo Mercado Livre, deve chegar essa semana.

E nos estertores deste verdadeiro festival de horrores que foi o Março de 2016 no Brasil (com promessas de capítulos ainda mais deprimentes a serem apresentados nos próximos meses), redescobri o primeiro do Horrors, chamado Strange House. Quem conhece esse som? Eles costumavam ser uma versão alucinada do Cramps — um Cramps rejuvenescido e de olhos esbugalhados injetados de sangue, com uns toques de demência a la Liars e a tônica maluca californiana substituída pelo gótico inglês — de quem me tornei fã desde a primeira escutada, e o segundo disco também é bem legal, mas já indicava uma abrandada no som, ou uma amadurecida, alguém poderia dizer, depois de passada alguma febre da juventude que tenha acometido os rapazes quando ainda podiam dedicar-se intensamente aos grandes ícones da Inglaterra, a saber: cerveja, The Cure e Hammer Film Productions. O terceiro disco, para minha decepção, já parece mergulhado de cabeça nessa moda da “neo-psicodelia” e seus sons rarefeitos e insonsos perfeitos para as novas gerações das redes sociais, música de fundo para já um outro fundo, esse novo cimentado pelas notícias e memes e conversas ubíquas e intermináveis a manter as pessoas acorrentadas aos computadores e celulares… Mas talvez eu esteja sendo injusto, pois escutei-o poucas vezes, e talvez o contraste em relação ao primeiro disco é que tenha me brochado. Vou dar uma nova chance a ele, e tentar ouvir também o quarto e mais recente álbum.

Categoria(s) associada(s): Discos do mês



2 comentários:

  • Sid Costa em 06/04/2016

    Load é massa. Me entusiasmo toda vez que encontro outra pessoa que goste dele. Me soa ainda fresco, se fosse lançado por outra banda seria considerado um clássico do Stoner Rock. Mas são apenas conjecturas de um cara que gosta de discos tortos.

    Rush é fantástico, para mim eles chegaram ao ponto em Counterparts. Tem tudo ali. Prog, pop, hardrock, aquela instrumental de cair o queixo.

    Às vezes tenho uma certa pena do Derick Green. Substituir o Max depois de uma sequencia de trabalhos matadores…

  • Fabricio em 07/04/2016

    O Load é um disco estigmatizado, lamentavelmente. Preciso revisitar os discos dos anos 80 do Rush. Lembro de ouvi-los muito em fitas K7 vagabundas, mal gravados, um som baixinho… Isso muito antes da internet, claro. Cara, eu gosto muito – muito mesmo – do Against, o primeiro disco do Sepultura com o Derrick.

Não é mais possível adicionar comentários para este post.