Discos do mês - Fevereiro de 2016

Por Fabricio C. Boppré em 02/03/2016

Tangerine Dream - Sorcerer Soundtrack

Trilha-sonora do espetacular filme de William Friedkin, que se passa em uma floresta sul-americana não-identificada, um inferno verde cheio de ameaças e sortilégios que os personagens principais do filme devem atravessar em condições sinistríssimas. A música do Tangerine Dream é essencial para a experiência: como nas melhores cenas dos melhores filmes de Kubrick, Carpenter e Argento, ela instaura um clima maligno, enigmático, cheio de prenúncios de calamidades. Um caso exemplar de casamento bem-sucedido entre som e imagem, mas dá para apreciar também somente a trilha-sonora, que foi o que eu fiz várias vezes depois de ter visto o filme num dos dias do feriado de carnaval.

God Machine - One Last Laugh In A Place Of Dying…

O som dessa banda é 90s no talo, com excelência em todos os itens essenciais daquele léxico musical: as guitarras cheias de distorção e feedback, o melodrama das melodias e das alternâncias de clima, a aspereza calculada e dissolvida para nunca chegar a ser música restrita a círculos muito pequenos. Até a entonação da voz do vocalista parece nos convidar para um teletransporte rápido para um outro tempo e uma outra geografia, tempo de ápices e de ruínas diversas, tempo que já ficou há muito para trás na torrente da história. Mas é esse o ponto: One Last Laugh In A Place Of Dying… é, pra mim, um dos discos daquela época que melhor resistiu aos anos, aliás, o são os dois LPs dessa banda, que por uma lastimável injustiça, nunca chegou a experimentar da mesma popularidade de tantas outras daquele período, algumas que não chegam nem aos pés do God Machine. Mais lamentável do que isso só a morte prematura do baixista, Jimmy Fernandez, que abreviou a carreira da banda e truncou sua discografia em apenas dois discos. Se não conhece, ouça In Bad Dreams, Painless e The Life Song e junte-se ao fã-clube.

Black Sabbath - Dehumanizer

Overdose de Black Sabbath por aqui nos últimos tempos, eu sei. Se isso lhe desagrada, se você não gosta do grande Sabiá Negro imortal — se você não cultua essa banda e não reza pela saúde de Tony Iommi todos os dias antes de ir dormir — então não somos amigos. Lembro de quando esse disco foi lançado, no ápice do sucesso das bandas de Seattle, e falava-se da influência de Alice in Chains e Soundgarden no novo som do Sabbath. Ora, não fosse Tony Iommi, não haveria o grunge, então esse tipo de correlação meio solta e superficial deveria ser um pouco mais elaborada, em respeito aos veneráveis precursores. E por mais que o timbre atualizado da guitarra de Iommi de fato pareça saído do Facelift ou do Badmotorfinger, Dehumanizer soa feroz e brutal como banda nenhuma de Seattle jamais soou. Mesmo para os padrões sabbathianos, é um disco devastador, uma aula de metalzão badass dos infernos. Dio, em particular, está monstruoso: a performance mais intensa e ameaçadora de sua fantástica carreira, na minha opinião. Uma pena o baixinho ter nos deixado tão cedo. Não tive (ainda?) a oportunidade de ver o Sabbath original, mas vi a versão Heaven & Hell em 2009 (a abutre Sharon Osbourne já tinha o controle do nome Black Sabbath naquela época, e obviamente não autorizaria que ele fosse usado sem que a múmia do seu marido estivesse envolvida), a última formação com o Dio à frente da banda, e foi uma ótima surpresa vê-los tocando algumas faixas do Dehumanizer. Daí tem a questão da mixagem do disco, que suscita discussões entre os fãs nos fóruns on-line: não vejo tantos problemas assim; posso concordar que soa um tantinho mais metalizada e abafada do que o necessário, e fosse um pouco mais direta e grosseira o álbum talvez ficasse ainda melhor. Mas não é nem de longe esquisito como a lama sonora do Born Again (que eu até acho que de maneira não-premeditada faz parte do charme do tão subestimado álbum com o Ian Gillan). Enfim, como vi alguém escrever em algum lugar, um prisma possível para se considerar essas questões todas — não é o único álbum do Sabbath a provocar esse tipo de discussão — é o da boa-ventura de se ter à disposição toda essa variedade de sonoridades dentro do longo catálogo da banda. Para os aficcionados nesses detalhes, deve ser diversão sem fim. E pra finalizar essa minha temporada Black Sabbath: uma pena, uma verdadeiramente muito grande e lamentável pena que deverá ser mesmo o 13 o capítulo final da carreira fonográfica da banda, pois é um disco muito fraco. O The Devil You Know (o disco único lançado pelo Heaven & Hell), mesmo não trazendo Black Sabbath impresso na capa, teria sido um desfecho muito mais à altura do legado da maior de todas as banda.

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