Relato de uma festa

Por Fabricio C. Boppré em 08/02/2016

Em fins de janeiro nós fizemos uma festinha do vinil, eu e uns amigos: cada um levava quatro ou cinco discos de sua coleção particular, e ouvíamos uma ou duas faixas de cada e ficávamos substituindo os discos na vitrola e bebendo e rindo, e foi legal pra caramba. Alguns dos sons que tocamos: Oingo Boingo, Sepultura antigão, Ratos de Porão (RDP ao Vivo: discaço), RPM também ao vivo (não sei o que dizer), Motörhead, Technotronic, Neurosis, Guns N’ Roses, Erasure (nessa hora, alguém que filmava trechos da festa me apontou a câmera e me perguntou o que eu achava do Erasure, e eu queria muito lembrar qual foi a minha resposta, mas tenho medo de pedir para ver a gravação) e Roberto Carlos. Pois é, sempre tem que rolar a praga do Roberto Carlos. Duas figuras esdrúxulas que me assombram desde as mais remotas lembranças da infância: Sílvio Santos e Roberto Carlos, protagonistas frequentes daqueles deprimentes domingos da família brasileira em frente à TV, nossa miséria geral muito provavelmente elucidada através dos mesmos fundamentos que explicam também o prestígio de que gozam esses dois ainda hoje. Achei oportuno expôr esta minha teoria antropológica para um ou dois amigos durante a festa, mas não lembro se eles compreenderam alguma coisa. O fato é que lá estavam alguns representantes da galera revisionista que ama o “Roberto” — assim o chamam com uma intimidade que me dá calafrios —, a turma que enxerga nele um gênio vanguardista ou sei lá o quê, e eu acho legal esse interesse em pesquisar e valorizar as coisas antigas de nosso país, de fato temos um acervo musical maravilhoso (a melhor parte infelizmente acessada e celebrada por apenas alguns poucos), mas Roberto Carlos, vocês têm certeza? Botaram para tocar um disco chamado Em Ritmo de Aventura, que pelo o que pude apreender é a trilha-sonora de um filme de mesmo nome estrelado pelo próprio “Rei”, e o negócio era calamitosamente ruim, completamente risível para ser levado minimamente a sério — na verdade, nem mesmo como momento cômico aquilo funcionou para mim, pois tinha um tal nível de repelência constrangedora (antevisões pessimistas de um Brasil destinado à mediocridade espiritual eterna) que me obliterava completamente a possibilidade de relaxar e unir-me às gargalhadas daqueles de juízo mais equilibrado que encaravam aquela música como mera piada somente, nada de muito sério. “Ah, mas naquela época”, alguém pode dizer… Não. Em época alguma. Roberto Carlos já era tão ridículo naquela época quanto é hoje, isso está evidente na capa e na contra-capa deste disco e na música rocambolesca que emana dele. Mas acabei descobrindo que a coisa do revisionismo atinge graus ainda mais desvairados: captei trechos de uma conversa sobre a descoberta da discografia do… Ronnie Von. O primeiro disco do Ronnie Von é pura psicodelia, alguém garantiu, e eu fiquei pensando que isso só pode ser alguma espécie de delírio coletivo. Bem, entre as figuras esdrúxulas adoradas pelos meus pais e por alguns lunáticos da minha própria geração, e as figuras esdrúxulas adoradas por mim e todos os demais, essas últimas pelo menos faziam uma música melhorzinha, não? Um dos discos que eu levei foi o Appetite for Destruction do Guns N’ Roses, um vinil em muito bom estado e com a capa original, aquela que foi censurada em algumas partes do planeta devido a uma pouco disputável hipótese de sugestão de estupro. A festa era também a despedida de um amigo nosso que mora na Suíça e estava passando seus últimos dias de férias aqui na ilha, e quando ele viu esse meu disco, ele pirou: ando atrás desse vinil há tempos, disse-me ele todo cobiçoso, dessa versão com essa capa, claro, e o olhar lascivo típico dos record junkies já percorria a superfície negra do disco para avaliar seu grau de preservação. Parece que lá pelas bandas do Velho Mundo a arte original do Appetite for Destruction foi trocada por aquela outra da cruz com as caveiras, o que torna este meu exemplar bastante raro e desejado por lá. Daí veio a proposta para vendê-lo, o que eu a princípio não estava muito a fim de fazer, mas ele insistiu e eu acabei cedendo, após considerar que talvez não demorasse tanto assim até achar uma outra cópia em bom estado e preço razoável, coisa que meu amigo já estava resignado de que não lhe aconteceria nunca na Suíça. E eu nem faço tanta questão assim daquela capa. Enfim, acabei trocando-o por várias publicações deste meu camarada, que é um ótimo cartunista, e agendei mentalmente para a semana seguinte o início da caçada por um novo Appetite for Destruction. E a festa foi até altas horas regada a cerveja e vodca e eu aproveitava para ir ao banheiro ou lavar a louça quando botavam Roberto Carlos e se matavam de rir, todo mundo já meio bêbado, mas nem bêbado eu via graça naquilo, ainda mais que tinha uma porrada de disco legal empilhado ali. Na semana seguinte, nas primeiras explorações pelos sebos e negociantes de vinil da cidade (existe um mercado subterrâneo de discos de movimentação bem intensa por aqui, ainda que eu tenha grandes restrições em relação ao estado da grande maioria dos itens que essa galera negocia), nas primeiras inquirições, nada; um ou outro boato sobre um Appetite for Destruction com esse ou com aquele, porém nada se concretizava. Acabou que achei o CD bem barato, e decidi levá-lo para tê-lo em casa enquanto não achava o vinil (pois esse disco não pode faltar de forma muito prolongada), uma situação inicialmente provisória mas que acabou se tornando sem data para expirar, pois me dei muito bem com o CDzinho, tendo escutado-o seguidamente nas últimas semanas. Como a essência da coisa toda para mim ainda é a audição, e no caso do Guns nunca fez muita diferença para mim se o som vinha de um CD ou uma fita K7 ou um vinil, então abortei por ora a caçada para a reposição do vinil. E finalmente, sobre o disco, não preciso me estender muito: como é sensacional! O início com Welcome to the Jungle é um dos melhores da história do rock ‘n’ roll, e, bem, indo direto ao ponto, lá na faixa número nove está a Sweet Child O’ Mine. Essa música é incontestável, não? O que é essa música? É uma música que é um gênero próprio ela sozinha, gênero fundado e definido e encerrado por ela mesma; uma música cuja singularidade e estranheza ficam praticamente obscurecidas pelo quão boa ela é, o quão bem funcionam juntas cada uma daquelas poucas linhas simples e límpidas que a compõem, arranjadas numa cadência relaxada e meio sedativa, algo verdadeiramente único, ficando apenas debilmente latente em algum canto periférico de nossa consciência a percepção de que há algo de insólito ali, alguma coisa que nos deixa levemente atentos desde o primeiro milésimo de segundo e assim vai até o trecho final mais exaltado que confirma aquela sensação incubada, e serve de fundo para o solo épico de Slash, e o fim que fecha alguns dos minutos mais memoráveis de todo o universo da música pop. Ou talvez não seja nada disso, e seja somente um hit radiofônico com profundas ressonâncias na minha infância, na minha e na de muitos dos meus amigos, que se põem a cantar “”uôôôôôôô-uôu-uôu sweet child o’ mine” e a imitar as dancinhas de Axl Rose com sorrisos de felicidade genuína na cara, que transcende os efeitos do álcool, quando rola essa música na vitrola.

Categoria(s) associada(s): Opinião

Créditos da imagem: Copiada daqui.



Nenhum comentário.

Não é mais possível adicionar comentários para este post.