Discos do mês - Janeiro de 2016

Por Fabricio C. Boppré em 31/01/2016

Apicultores Clandestinos - Astronauta do Campo

A melhor banda da história de Santa Catarina! Só os Skrotes chegam perto. E percebam que em matéria de dar nomes para suas bandas, pelo menos para isso os cidadãos catarinenses apresentam aptidões admiráveis: Skrotes é o melhor nome de banda de todos os tempos, descontando uns dois ou três outros que eu mesmo, que também sou catarinense, inventei para algumas certas bandas imaginárias. Pena que para quase todo o resto somos uma nulidade e uma constrangimento total, principalmente para qualquer coisa que envolva política: votamos pior, por exemplo, do que os moradores desta cidade. Mas eu falava sobre os Apicultores: tava para comprar esse Astronauta do Campo em formato digital via bandcamp (eu sei, uma insensatez total, mas eu queria ajudar os caras e não achava meios de comprar o CD) quando por acaso descobri que a ilustração da capa foi feita por um camarada meu, e daí consegui comprar o CD com ele. O disco é do ano passado, e pena que só fui escutá-lo agora no começo de 2016: teria entrado fácil na listinha dos meus preferidos de 2015! Surf music frenética e chapada, perfeita para o verão.

Black Sabbath - Heaven and Hell

Dessas coisas curiosas da vida de colecionador: amo essa banda, adoro esse disco, mas só uns poucos dias atrás é que fui ajuntá-lo à minha pilha de CDs do Sabbath. Nenhuma razão especial para a demora: até então, nunca havia se apresentado naturalmente a ocasião para comprá-lo. Meu modus operandi de colecionador costuma seguir os caminhos e descaminhos da opotunidade, sem metodologias muito rígidas: é raro eu me organizar para completar uma discografia ou fazer pedidos ao mercado cibernético on-line. Vou seguindo meus interesses do momento sempre que me vejo em alguma loja que eu gosto e com alguma grana para dispensar ao vício, conjunção de fatores que nunca antes havia resultado na compra do Heaven and Hell… Mas na minha última visita à Roots Records — a loja de discos que sobrou em Florianópolis, que por sorte continua ótima — preenchi finalmente esta lacuna, comprando uma simpática edição nacional de 2012 em formato digipack, muito agradável ao toque e cuja arte gráfica se vale muito da ausência dos reflexos das caixinhas de acrílico. Ainda assim, Black Sabbath, na minha opinião, continua sendo para ouvir em vinil; o som da banda perde muito no CD. Não sei explicar em termos técnicos, mas a guitarra de Iommi parece vacilar sutilmente em alguns momentos, como pequenos guinchos angustiados de um animal que se vê de repente em um ambiente que não é o seu natural (pode ser também alguma imperícia na produção desta edição em particular, creio eu), e toda uma camada espectral setentista do som da banda parece eliminada na limpeza cristalina dos CDs (camada que pode ser apenas a poeira dos dois ou três velhos vinis que tenho ou ainda o poder da auto-sugestão de outrora, tempos de imaginação mais fértil). Mas enfim, ter toda a discografia da banda em vinil é um possibilidade distante, então por ora, tudo bem. Este é o meu Sabbath favorito depois dos seis primeiros clássicos insuperáveis: a faixa-título é das coisas mais poderosas e arrebatadoras gravadas pela banda em toda sua longa carreira e a abertura com Neon Knights é o clássico justamente idolatrado que eu fico imaginando que, em 1980, quando os fãs o escutaram pela primeira vez, ele os fez imediatamente perderem seus temores pela saída do Ozzy e esquecerem por algum tempo de Paranoid. Mas a minha favorita ainda é a Children of the Sea com sua linda introdução acústica: dentre todas as canções do Sabbath com o Dio, ela só fica atrás, na minha opinião, da The Sign of the Southern Cross. O Dio era foda: o melhor cantor da história, pra mim. Estou gastando o CD de tanto tocá-lo aqui em casa, depois de uma vida toda escutando-o unicamente através de fitas K7 e computador!

David Bowie - Blackstar

Nunca fui um grande fã do David Bowie, mas é claro que me chamou muita atenção este ato final de sua vida: no dia de seu 69° aniversário, ele lança um disco; morre dois dias depois; por fim, ficamos sabendo que seu corpo foi cremado numa cerimômia secreta sem a presença de ninguém, nem da família e nem dos amigos mais próximos, pois assim ele havia solicitado que fosse feito. Ou seja, nada de cerimônia fúnebre, enterro, comoções públicas espetaculosas: sua despedida foi, efetivamente, um álbum. E depois ele se foi, discretamente. Fantástico, não? Daí que fiquei curioso para escutar esse disco, a despeito de sequer ter escutado aquele anterior lançado com grande pompa e estardalhaço em 2013, o The Next Day. E que sensacional é este Blackstar! É realmente tudo que andam escrevendo por aí. Tem uma nota melancólica que ganhou, evidentemente, um sentido especial (“I can’t give everything… away… I can’t give everything… away…”, é o apelo contidamente desesperado e solitário dos últimos segundos da última faixa), e um andamento e uma unidade que prendem a atenção do início ao fim. Ouso dizer que tem até mesmo essa virtude rara e essencial dos grandes discos, de ser um pequeno mundo em si próprio, com sua natureza exclusiva e inclassificável, autônoma e absorvente. É claro que eu não ignoro que estes são todos predicados que os fãs e a crítica sempre atribuíram à obra de Bowie, e que só muito tardiamente eu pareço estar reconhecendo, com meu senso crítico talvez meio afrouxado pela morte do cara… Mas o fato é que mesmo agora não sinto vontade alguma de explorar mais atentamente sua discografia pregressa, cuja grande maioria dos álbuns eu ouvi apenas uma ou duas vezes e os descartei por total falta de interesse (somente de uns três ou quatro posso dizer que verdadeiramente gostei e mantenho-os na minha coleção digital para algumas audições ocasionais), enquanto que esse Blackstar me fascinou de imediato e me fez refletir com enlevo sobre este nosso pequeno-grande drama cotidiano da vida e da morte, que é ao mesmo tempo tudo para cada um de nós, e absolutamente nada para o universo. Um disco encharcado de morte para celebrar a vida, afinal, como dizia o Saramago, “a morte serve para que possamos continuar a viver”.

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3 comentários:

  • Sid Costa em 03/02/2016

    The Sign of the Southern Cross é uma grande música sim.O Dio era muito foda. Mas só funcionava no Sabbath.

    Bowie tem discos fantásticos e singles perfeitos. Mas a coisa mais admirável era o seu timming. O cara tinha uma leitura impressionante do universo da música, o que dava a impressão de que ele se antecipava. Dos discos que ele fez para mim O Scary Monsters é o melhor. A demência das guitaras de Fripp em It’s no Game e Up the Hill Backwards me assutam ainda.

  • Vicente em 04/02/2016

    Assim como o Fabricio, nunca consegui imergir na música do Bowie. Sempre o enxerguei como uma personalidade cuja atitude era mais louvável que a massa bruta de seus discos. Pecando na comparação, ele seria uma versão menos apelativa da Madonna: sempre um passo além nas tendências mas sem um anteparo muito profundo nos seus discos. Enfim, não é um cara cujos discos me convidam para mergulhar na sua carreira mas, claro, merece todas o reconhecimento por ter traçado uma forma distinta de percorrer o pop / rock.

  • Fabricio C. Boppré em 06/02/2016

    Sid: eu gosto dos discos solo do Dio, cara! Ah, e gosto de uma ou outra coisa do Rainbow com ele nos vocais, que ouvi já faz algum tempo e preciso revisitar. Basta esse cara cantando, na real — difícil eu não gostar. A carreira solo não chega aos pés de quando ele cantava com o Sabbath, claro que não (aliás: ontem achei o Dehumanizer, que eu também não tinha, num sebo por 15,00 pilas!), mas são divertidos, os discos fluem bem, com uma ou outra canção muito boa, como a Holy Diver do disco de mesmo nome e a All the Fools Sailed Away do Dream Evil.

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