2015

Por Vicente M. em 11/01/2016

Kendrick Lamar : To Pimp A Butterfly (TDE / Aftermath / Interscope) Não foi necessário muito esforço nem recontagens para elegê-lo meu disco do ano. Se eu usasse alguma ferramenta de estatísticas de plays, To Pimp A Butterfly estaria ali com o hi-score de execuções, fácil. Um disco que pessoalmente abriu o interesse para uma miríade de outros discos de hip-hop mas sem que as alternativas (algumas excelentes, por sinal) ameaçassem seu reinado. Revivendo o conceito de álbum, onde as músicas se complementam e conduzem o ouvinte por um fluxo contínuo de questionamentos até um derradeiro e acachapante desfecho, Butterfly é um petardo. Produzido à exaustão e à perfeição, apropria-se de múltiplos gêneros musicais que desafiam o conceito de que o hip-hop tende a ser redundante e cansativo. Kendrick incorpora personagens, alterna ritmos, adapta-se aos espaços disponíveis, berra, gargalha, se embriaga. Levanta sérias reflexões sobre o papel dos negros na América do Norte e sobre a necessidade de interagirem positivamente entre si como o primeiro passo para despertarem sua autovalorização. Uma obra de arte audaciosa e grandiosa. Um obra-prima para a música contemporânea.

Deafheaven : New Bermuda (Anti) New Bermuda foi uma das grandes expectativas de 2015. Em 2012 Sunbather jogou o Deafheaven nas graças dos indies e convenceu metaleiros que a possibilidade de combinar a velocidade do black metal com a ambiência do post rock e shoegazing não comprometeria a reputação do mais obtuso dos cabeludos. New Bermuda seria então o tipo de disco que ou se contentaria em circundar os arredores do álbum predecessor, ou partiria dali em busca de novos sons. Felizmente, o disco revelou uma banda flexível e entrosada, soando mais elástica e diversificada do que no álbum que a expôs. Curiosamente, flerta com riffs clássicos de metal, deixa os vocais, agora mais dinâmicos, em evidência e, óbvio, não abre mão das transições entre as massas sonoras e os interlúdios melódicos que marcam as composições do Deafheaven. New Bermuda superou Sunbather, algo praticamente impensado, além de colocar a banda no panteão do metal moderno. Viciante.

Craft Spells : Our Park By Night (Captured Tracks) Um 7” com apenas uma música. “Apenas” é quase uma sacanagem pois trata-se da minha música pop preferida de 2015.

Sunn O))) : Kannon (Southern Lord) Difícil ignorá-los em qualquer circunstância, basta acompanhar o frenesi que o anúncio de suas turnês e novos álbuns ainda provoca. Incrível como a dupla segue relevante e solicitada fazendo sons que teoricamente não despertariam o interesse por mais de dois álbuns. Mas Anderson e O’Malley são acima de tudo incorrigíveis e reinventam o Sunn O))) conduzindo-o a algo diferente, inusitado, desafiador. Claro, suas colaborações escolhidas a dedo apenas enaltecem sua reputação e os apresentam a novos públicos, eruditos o suficiente para passar a acompanhá-los e ampliar o que seria apenas uma sobrevida para bandas “comuns”. Seus trabalhos recentes com o Ulver e Scott Walker aferiram essa reputação e, combinados com a guinada representada por Monoliths&Dimensions em 2012, desfiguraram o som da banda ao ponto do Sunn O))) não poder mais ser rotulado com seu mais clássico conceito: o das guitarras pesadíssimas em busca da manifestação de um nirvana negro. Vale lembrar que antes de chegar em Kannon, o Sunn O))) lançou dois LPs de demos que remetiam aos primórdios do projeto, calcados apenas em guitarras saturadas. Os Rehearsal Demos já davam, de fato, a tônica de Kannon que é um resgate das origens do Sunn O))), um reencontro com o núcleo sonoro que nunca se perdeu mas acabou dissolvido nas metamorfoses dos últimos trabalhos. Kannon é um resgate que reacende o poderio da dupla e sua expertise num ramo sonoro facilmente emulável e fadado ao cansaço, com destaque para hoje indissociável atuação de Attila Csihar protagonizando os vocais / mantras.

Black Wing : Black Wing …Is Doomed (Flenser) Já citei Dan Barrett por aqui e se compilarmos, veremos que sempre que o menciono tenho dificuldades para conter minha empolgação com sua música. Seja através do incrível Have A Nice Life ou do projeto Giles Corey, Barrett lançou obras que, no universo musical que pratica, são clássicos contemporâneos indispensáveis. Em Black Wing Dan se concentra na instrumentação eletrônica, com raízes na forma oitentista de fazer música, porém, com a angústia e desilusão características de seus outros projetos. Apesar da suposta impessoalidade inerente à eletrônica, … Is Doomed não se afasta muito do post-punk, nem do clima de trevas que se esperaria de Barrett mas, novamente, tem-se um álbum onde tudo acontece perfeitamente e se extrai grandes momentos que o consolidam como mais um disco indispensável.

Dr. Dre : Compton (Aftermath / Interscope) Dr. Dre é uma das lendas vivas que transformaram o hip-hop num gênero fértil em ideias e dotado de crescente popularidade. Compton chegou emparceirado com a filme-biografia do NWA, banda de gangsta rap seminal da qual Dre foi membro ativo e que o oportunizou desencadear sua respeitada carreira de produtor e artista solo. O álbum ultrapassa o estigma de ser o resultado de cerca de quinze anos de gestão, nascido das cinzas de Rehab, um longo projeto que acabou engavetado, apresentando-se como uma avassaladora representação da evolução que Dre ajudou a forjar desde os tempos em que atuava como DJ, nos primórdios do NWA. Apesar da alcunha, o álbum não gira em função do ego de seu autor, ao contrário, parece muito mais um veículo para Dre exercitar sua vocação de produtor e contar com a contribuição de seus rappers preferidos para contextualizar as músicas. A jornada inclui nomes dos primórdios de sua carreira (Ice Cube, menções a Eazy-E), grandes rappers que estouraram por sua mão (Snoop Dogg e Kendrick Lamar) e promessas que não surpreenderão se seguirem o mesmo caminho (Anderson .Paak). Compton é um compêndio que comemora o passado e ao mesmo tempo projeta o futuro, reunindo diferentes décadas e subgêneros de hip-hop, conduzido com a maestria irrefutável de seu mentor.

Sumac : The Deal (Sige / Profound Lore) Aaron Turner e o baterista dos Bapstists, Nick Yacyshyn, enchem um container com hardcore, thrash e *mathcore * e o despejam sobre você. The Deal é um conciso disco de metal que por vezes chega a lembrar a rispidez dum Old Man Gloom, porém, sem senso de humor. A performance de Yacyshyn é o ponto alto do Sumac, uma contundente ebulição em forma de bateria, que enche o espaço e deixa tudo muito confortável para as guitarras brutais e urros de Turner. Um disco que é pura energia em toda sua extensão.

Kamasi Washington : The Epic (Brainfeeder) Bem, The Epic é um disco de jazz, no talo, sem prefixos de tipo neo ou post. Há uma clássica (e polêmica) brincadeira (com todos os fundos de verdade, dependendo de como se encara o contexto) que diz que “o jazz é um gênero fantástico para quem está tocando na banda” ou algo assim, sugerindo que para os ouvintes seria, no mínimo, desinteressante. E a partir dessa natureza supostamente inócua do jazz, seus apreciadores automaticamente estariam abraçados em discos dos quais é mais cool gostar do que efetivamente ouvir. Dentro desse contexto, o que chama atenção em The Epic? Primeiramente, Kamasi Washington veio à tona graças a sua participação nos arranjos do multiplatinado To Pimp A Butterfly, despertando o interesse de um público contemporâneo que teoricamente não consome discos de jazz. Segundo, sua busca é longe de ser modesta: o álbum acomoda dezessete longas músicas executadas por uma orquestra de trinta e dois músicos e um coral de vinte cantores, uma verdadeira usina sonora. E sua arte majestosa distribuída em três LPs graficamente fantásticos é o complemento que faz um interessado bater o martelo e imergir em nada menos do que duas horas e cinquenta e quatro minutos de uma miríade de subgêneros jazzísticos, onde basta apenas deixar-se levar por um gigante universo de sons, ritmos e sensações. Para os novatos, uma bela porta de entrada. Para os calejados, uma obra que não deixa a desejar para discos de grandes nomes que provavelmente influenciaram Kamasi em sua trajetória.

Mamaleek : Via Dolorosa (Flenser) O álbum anterior dessa dupla já era de difícil digestão: black metal, noise e eletrônica desenfreados, onde se criava um clima no mínimo caótico. Via Dolorosa é muito melhor delineado e ao invés de atirar para todos os lados, parte de uma combinação de jazz (?!) e metal para consolidar um trabalho bastante criativo e convincente. Em tempos onde se mistura tudo com qualquer coisa, um disco onde as coisas funcionam do começo ao fim é digno de nota.

The Soft Moon : Deeper (Captured Tracks) Luis Vasquez fez do Soft Moon um projeto consistente em seus discos anteriores. Eram bons, porém, deixavam a impressão de que algo deveria ser cavado mais profundamente para se chegar em um som mais vigoroso, capaz de suscitar uma melhor posteridade e repetidas audições. Deeper chegou finalmente nesse estágio, onde Vasquez encontra um DNA robusto e o forja com sua combinação de post punk e eletrônica oitentista. Deixada para trás a tendência à repetição e um demasiado distanciamento do ouvinte, o Soft Moon acabou bem mais orgânico e convidativo.

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4 comentários:

  • Fabricio C. Boppré em 14/01/2016

    Eu escutei o The Epic uma vez, depois duas, e fiquei meio frustrado. Soou pomposo e tradicionalista demais pro meu gosto… O que não são defeitos por si só, claro que não, porém é mais para quem gosta dos mestres pioneiros tipo Dizzy Gillespie e Dexter Gordon e suas big bands, o lado clássico e acadêmico do jazz americano. Minhas incursões no jazz seguem sempre os experimentos e desafinações de Miles e Coltrane, os bonachões como Mingus e excêntricos como Monk. Mas isso não é uma sentença definitiva sobre minha relação com esse disco não; ele tá aqui no computador ainda, talvez em outro momento eu venha a descobri-lo. Certas coisas altamente ambiciosas exercem um fascínio estranho sobre mim, e sinto que as expectativas que eu tinha quanto ao Kamasi Washington ainda não se esvaíram por completo.

    Cara, hip-hop é algo bem distante de meus interesses, apesar de eu já ter gostado de algumas coisas que eu ouvi de uma banda chamada Roots, conheces? O problema é aquela iconografia todo que me causa um pouco de repulsa… Mas compreendo superficialmente as raízes sócio-culturais de tudo aquilo, e por isso não me meto a fazer crítica alguma — apenas me mantenho respeitosamente desinteressado. E nem sei se todos os grupos e vertentes compartilham dessas imagens e interesses todos, posso estar sendo um grande ignorante aqui. De qualquer modo, é claro que essa tua empolgação toda com o Kendrick Lamar me deixou curioso! Vou tentar escutar.

    Deafheaven: Dei várias chances, mas não adianta, não consigo gostar dos caras. E não tem nada a ver com a acusação habitual de ser “hipster metal”e coisas do tipo — realmente não ligo para isso, gosto de vários sons que devem se encaixar no rótulo (e outros bem piores), mas no caso específico do Deafheaven, todo aquele barulho e caos me soam meio plásticos, um tanto forçados.

    Cara, não ouvi o Sunn O))) ainda! Mas acho que não vou resistir por muito tempo, e vou escutar pelo computador mesmo. Essa brincadeira de esperar para ouvir o disco pela via tradicional do vinil ou do CD é bem legal, mas em algumas situações, inviável… No caso do Sunn O))), já estou sentindo que é apenas perda de tempo.

    Não conheço e fiquei curioso: The Soft Moon. Tem aqui, se mais alguém ficar curioso: https://thesoftmoon.bandcamp.com

  • Fabricio C. Boppré em 14/01/2016

    Cara, já escutei o The Soft Moon: discaço! Gostei muito. Vou procurar conhecer mais da banda, digo, do one-man-band.

  • Vicente em 15/01/2016

    Kamasi: creio que The Epic tenha repercutido bem porque serve mais como porta de entrada do que como desafio. Uma vez que o jazz é um gênero difícil de trazer para o dia-a-dia, com discos que dependem muito do clima certo para “descerem”, esse álbum meio que reúne várias abordagens que facilitam a vida de ouvintes menos treinados. E, claro, um pouco da graça do jazz está em entrar no gênero, conhecer os estilos dos principais protagonistas (como tão bem ilustrasses) e daí enveredar para seus favoritos. Não acho que [i]The Epic[/i] seja revolucionário (será que passei essa impressão no post?), porém, creio que ele seja uma ótima oportunidade para quem tem curiosidade e/ou receio de conhecer um gênero tão “impenetrável” quanto o jazz.

    Hip-hop: eu pensava exatamente como tu e não deixo de pensar quando escuto a maioria dos discos de hip-hop. Mas assim como em tantos outros estilos, os artistas de hoje têm mais recursos e até cabeça aberta para desvincular sua música do que o público espera deles. Por isso têm surgido discos tão interessantes assim de uma hora para outra, fundido estilos, pairando para bem mais além do que se gravaria caso um selo ou a MTV impusesse um formato que vende. [i]Butterfly[/i] é apenas um exemplo disso mas é o meu favorito, de longe.

    Deafheaven: Acho o Sunbather um tanto superestimado. É bom, tem pelo menos dois momentos incríveis em sua extensão, mas não é algo top de linha, inovador como se costuma ler a respeito. Na melhor das hipóteses circunda o que se faz de bom no US Black Metal. Mas New Bermuda tem aquele quê de pulo do gato que me convenceu já nas primeiras escutadas.

    O))): É uma volta às origens. Se tu preferes a fase mais elaborada deles, não precisa ter muita pressa para conferir.

    Soft Moon: os discos até Deeper eram legais mas um pouco robóticos demais, faltava uma veia pulsando, me lembravam a efemeridade do Trans AM ou mesmo a esterilidade do Kraftwerk. Mas como escrevi, Deeper encontrou o Ponto G.

  • Vicente em 15/01/2016

    Ah, sim, conheço The Roots. É um ótimo exemplo de banda que se descola do clichê e cruza diferentes estilos, deslizando para funk e r&b. Acho eles bem bons no que fazem embora eu ainda prefira hip-hop com um pouquinho mais de “vigor”.

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