New grass

Por Fabricio C. Boppré em 01/01/2016

O último disco escutado em 2015 foi o Laughing Stock, do Talk Talk. Coloquei-o para tocar enquanto jantávamos nas últimas horas de ontem, para abafar o som dos rojões que os mais afobados já faziam explodir na rua antes mesmo da virada do ano, e também, claro, por ser um disco maravilhoso, sempre um dos mais cotados para servir de trilha-sonora para qualquer ocasião especial aqui em casa. Faz alguns anos já que a nossa tradição de ano novo é o recolhimento, o sossego assegurado pela maior distância possível das multidões e das festas de pessoas vestidas de branco. Quero dizer, pelo menos assim tentamos, já que a paz é sempre relativa com esse tanto de gente obstinada em invadir todos os espaços possíveis, mesmo os privados, com suas maneiras estrondosas de comemorar seja lá o que for… Bem, fizemos o possível. A noite passou e hoje, no primeiro dia do ano, acordei cedo e da sacada do apartamento me maravilhei com a mágica operada nesse intervalo: a manhã estava fresca e silenciosa, apenas os pássaros pareciam celebrar alguma coisa (como o fazem todas as manhãs), tudo em total e generosa oposição à balbúrdia e ao calor intenso do dia anterior; na verdade, muito melhor do que isso: não houve mágica nenhuma, foi apenas a noite com suas propriedades naturais que repousou seu manto sobre nós e renovou tudo mais uma vez ao retirá-lo, totalmente indiferente às nossas tramas de números e calendários e novas designações temporais — tudo uma grande ilusão que se ao menos servisse para nos estimular algum senso de aprimoramento, mas ultimamente tem me parecido que nem isso, e as intenções para o ano novo se restringem cada vez mais ao descomedido consumismo que nos é inoculado diuturnamente pela publicidade que se vê por toda parte e aos clichês vazios e intangíveis de sempre. O CD do Talk Talk estava ainda dentro do aparelho de som e a sua caixinha de pé sobre a mesa, e resolvi escutá-lo novamente, dessa vez com os fones de ouvido, para preservar ao máximo o silêncio fora de mim, e deitei-me na rede para apreciar a música com a maior atenção possível. Já escrevi aqui algumas vezes sobre esse disco, nunca com a pretensão de dar justa dimensão de sua beleza pois isso seria missão impossível, mas há uma outra coisa que sempre me ocorre quando eu o escuto, um aspecto enigmático que o torna ainda mais encantador: é a sensação de que essa música não se assemelha em nada com um fruto de nossa época, desses nossos tempos de fins do século passado para cá. Passados 25 anos de seu lançamento, ela continua muito além das gnoses contemporâneas, das nossas capacidades coletivas de atenção e compreensão, deslocada deste tempo-espaço como a melhor garrafa da melhor safra do melhor vinhedo toscano sendo servida a um bando de primatas pré-neandertais enquanto devoram as vísceras de um búfalo morto, dividindo a refeição com hienas e urubus; uma música cujos precedentes necessários para sua existência eu diria que, na melhor das hipósteses, ainda estão sendo gestados pela humanidade em algum lugar remoto que segue oculto de nossa percepção consciente geral, excetuando-se talvez a dos poetas, antena da raça, como dizia Ezra Pound. É uma pena que estejamos longe ainda, muito longe, de sermos uma civilização de leitores, que diria de poetas; ainda não atingimos o grau necessário de evolução espiritual que torne concebível e natural ter com mais frequência uma música dessa beleza e cadência entre nós. Porém, de um ponto de vista mais otimista, pode-se interpretar também esse disco como uma espécie de rara mutação que nos antecipa uma venturosa possibilidade de porvir, uma mensagem presciente de fé no futuro, fé de que iremos em algum momento, enfim, transcender os rojões e fogos de artifício, a necessidade de fartura e de cerimônias empoladas de todos os tipos, os congestionamentos e as buzinas, o modo público e privado de fazer as coisas que só faz revelar que é em um infindável oceano de mesquinharia que nadam as aspirações pessoais da maioria de nós, todos diretamente responsáveis pelo noticiário interminável sobre ganância e usura mas cegos e egoístas demais para perceber isso. De que iremos um dia ter a serenidade necessária para perceber as coisas que estão desde sempre a flutuar pelo espaço, a habitar o silêncio, por entre nós e por entre as estrelas — coisas que nossos sentidos ainda estão embotados demais para perceber.

Por ora, eu proporia o seguinte: a cada ser humano que nascer, que se dê de presente uma cópia desse disco, e a recomendação — assumo plenamente o risco de soar piegas — de que se deite mais sobre a grama, que se olhe mais para o céu e para o mar, que se diminua um pouco esse tanto de coisa a nos ofuscar a visão. Ou que tomemos isso tudo como intenções para o ano novo. Quem sabe assim aceleramos um pouco o processo.

Categoria(s) associada(s): Opinião

Créditos da imagem: Copiada daqui.



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