Le Bataclan

Por Fabricio C. Boppré em 16/11/2015

É bem comum, quando confrontados com aberrações do tipo Estado Islâmico e seus terroristas — ou, se não quiser ir muito longe, com a bancada evangélica do Congresso nacional e seus Bolsonaros e Felicianos — é bem comum pensarmos algo na linha: em pleno século XXI esse tipo de coisa grotesca e medieval? Mas nada, aparentemente, sugere que esse tal século XXI tivesse de ser afinal o século do triunfo da paz e da tolerância, da convivência serena entre as diferenças e da racionalidade. Desconfio que o que nos leva a acreditar nessa ilusão não é nada menos do que uma grande e egocêntrica falta de perspectiva histórica — é o século que vivemos, afinal, nós, que há pouco — e alguns até hoje — acreditávamos que o universo girava em nossa volta. Contudo a verdade é: pode parecer, mas não faz tanto tempo assim os campos de concentração nazistas, a escravidão, o Tribunal do Santo Ofício, Giordano Bruno queimado vivo na fogueira dos inquisidores, Jesus Cristo crucificado. Daqui uns 10.000 anos talvez a violência e o fanatismo religioso sejam anacrônicos e absurdos, mas hoje, em 2015, infelizmente ainda não o são, pelo contrário: são a tônica de nossos dias, são os desenlances inevitáveis das narrativas de diversos locais e circunstâncias, do grande tabuleiro da geopolítica das nações que não levam em conta o indivíduo aos morros e favelas brasileiros que despejam sem parar jovens sem educação básica e sem futuro nas cidades entupidas de gente igualmente sem boas noção de civilidade, mas com um pouco mais de dinheiro no bolso e o salvo-conduto para todo tipo de ganância socialmente permitida que lhes é concedido através da participação mais ou menos regular nos rituais das igrejas e do capitalismo. O resultado disso tudo é violência.

Estive várias vezes no Le Bataclan, um dos palcos da carnificina em Paris na última sexta-feira. A foto acima eu tirei do Elbow no palco do Le Bataclan, em 2009, um dos mais belos shows da minha vida. Bad Religion e Medeski, Martin & Wood acho que vi lá também (minha memória começa a me faltar com alguma frequência, por isso a incerteza), e pelo menos mais um ou dois shows que já não me recordo mais quais foram. Lembro das filas nas calçadas e do pessoal entregando flyers dos shows que ocorreriam ali nas próximas semanas. Imaginar agora pilhas de cadáveres lá dentro é terrível. Claro que boa parte das ruas e momumentos de Paris e de muitas outras metrópoles européias já foi palco de inúmeras guerras e revoluções e derramamentos de sangue, mas disso tudo temos a distância cronológica de décadas e séculos assegurada pelos livros de história e a própria distância infinita determinada pela nossa inexistência quando daqueles acontecimentos todos. É como se, apesar de não fazer tanto tempo assim, como se não fôssemos parte daquilo tudo que aprendemos no colégio, ou, no máximo, como se aquilo tudo — movimentos sempre tão épicos e teatrais — fosse uma longa ficção imaginada por algum escritor inglês morto há muito tempo, a quem coube explicar porque somos o que somos sem necessariamente ater-se aos fatos, enquanto que o massacre no Le Bataclan é totalmente parte de nós, não é mais “aquilo tudo”, é presente, é brutalmente próximo: um de nossos ídolos estava sobre o palco; aconteceu na última sexta-feira; vimos incrédulos as notícias sucederem-se e a contagem de corpos aumentar em tempo real nas telas de nossos aparelhos conectados à internet, esse mesmo mecanismo mundial descentralizado e fantástico que jihadistas utilizam também, para articular coisas como… isso. Isso. Isso aconteceu depois de eu ter ido e retornado algumas vezes àquele local. Isso: cento e poucas pessoas morrendo perfuradas por balas enquanto faziam algo que eu já fiz várias vezes, exatamente naquele mesmo lugar. Posso sentir nesse momento meus pés ensopados pelo sangue que por lá derramou-se em litros, em nome de Alá.

Vivemos ainda em um século de barbárie, em uma extensão histórica dos séculos que vieram antes. É bom que tenhamos isso claro de uma vez, que reconheçamos o cotidiano da barbárie e nossa miséria e nossa fragilidade. E não veremos, nenhum de nós e nem nossos filhos e nem nossos netos, infelizmente, chegar o tempo em que se poderá dizer com um espanto minimamente justificado: ainda hoje esse tipo de coisa grotesca e medieval?

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Créditos da imagem: Foto por Fabricio C. Boppré



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