Discos do mês - Julho de 2015

Por Fabricio C. Boppré em 31/07/2015

Tommy Guerrero: Soul Food Taqueria

A música do Tommy Guerrero é uma expressão evidentemente urbana, mas é o urbano da Califórnia quente e ensolarada no verão, a agitada amálgama de praia e cidade que eu sempre achei tão extravagante. O calor, o barulho e a luminosidade são a propulsão do fluxo emaranhado de vidas entre o mar e as ruas, e os discos de Guerrero me parecem a trilha-sonora perfeita para o desenrolar deste cenário caótico e animado, pois sua música parece desacelerar um pouco o ritmo vertiginoso que há na superfície e revelar uma cativante harmonia interna, algo até mesmo meio comovente. É a música natural deste ambiente, a nota certa para simpatizarmos com toda essa massa que quer apenas refrescar-se, beber, rir, expressar-se, e ainda que o som emudeça-lhe as milhares de vozes simultâneas, ele acaba por ressaltar suas figuras e suas almas, das mais discretas às mais exóticas, e a tranquila convivência entre discrição e excentricidade me parece ser a melhor definição da Califórnia. O melhor de Soul Food Taqueria, no entanto, são as faixas mais lentas e contemplativas, que sincronizam-se perfeitamente com o pôr-do-sol líquido característico desses lugares, aquele entardecer que vai se esparramando dourado e horizontal, e também com o arrefecer da febre que antes atingia a todos vinda de cima com a luz equânime do sol — agora a multidão, lentamente, vai se recolhendo em pequenos nichos de luz e fechando-se em grupos mais íntimos de pessoas, os contrastes vão se embaralhando, a música emoldurando um retrato doce e sossegado dessa transformação. Soul Food Taqueria ficou o tempo todo me dizendo: preste atenção, preste bastante atenção ao seu redor, ao ciclo do dia e da noite, não deixe seu coração se calcificar a ponto de você não se enternecer mais com as multidões e as cidades, e mantenha-se sempre por perto do mar.

Necks: Chemist

Então, esse post é meio “Discos do mês”, meio diário de viagem. Passei recentemente uma semana na Califórnia, e fui embora convencido de que poderia morar lá para sempre. Vinhos e cervejas artesanais maravilhosos por todo o estado, lojas de discos e livrarias fantásticas sobretudo em San Francisco e Los Angeles, um belíssimo litoral (ainda que eu prefira as praias brasileiras): isso é basicamente tudo de que eu preciso. San Fracisco tem, além de um delicioso aroma de ervas flutuando permanentemente no ar, a City Lights Bookstore, outrora epicentro dos escritores e poetas beatniks de quem eu gosto muito e ainda hoje uma belíssima livraria; Los Angeles tem a Amoeba Records, um verdadeiro templo para record junkies de todos os tipos, da turma do hardcore californiano com bonés do Suicidal Tendencies aos velhinhos de camisas enfiadas por dentro da calça garimpando singles raros de jazz em vinil, jovens e velhos igualados unicamente no pleno domínio da arte de perscrutar pesadas fileiras de discos. Estive duas vezes na Amoeba e nas duas vezes saí com sacolas cheias. Mas nessas visitas eu tinha em mente, em particular, um disco que procuro há anos e nunca achei nem mesmo nas lojas com as prateleiras de jazz mais generosas da Europa, e começava então a me conformar com o fato de que não o acharia fora de seu país de origem, a Austrália, mesmo sabendo que há uma edição inglesa desse álbum. Trata-se do Chemist, do trio The Necks. Na primeira visita à Amoeba acabei me distraindo com outras coisas, mas na segunda fui direto aos fundos da imensa loja, onde fica a seção jazz/música clássica/trilhas-sonoras, pensando que era agora ou nunca ou se algum dia eu for para a Austrália, e na primeira pesquisada, decepção: nada de Necks sob a etiqueta N da seção principal de jazz. Aliás, é curioso como existem tão poucas bandas e artistas de jazz que começam com N. Reparei então em algumas sub-categorias em prateleiras adjancentes, mas antes de ir explorá-las, meio frustrado que estava, resolvi consultar um dos benefícios que a Amoeba oferece: um especialista em jazz fica ali plantado em um balcão abarrotado de revistas e velhos catálogos de discos — volumes grossos e pesados que quase não se fecham mais de tanto terem sido manuseados —, além de um notebook, auxiliando as pessoas a acharem seus tesouros. Mesmo correndo o risco de não entender nada do que o cara me dissesse, já que às vezes sofro para entender o inglês rápido dos americanos, eu perguntei ao sujeito de óculos de lentes fundo-de-garrafa se ele conhecia um trio australiano chamado Necks; como se pronuncia, ele perguntou, o que quase matou de vez minhas esperanças — se o especialista não conhece, então alguma absurda conjunção de fatores deve fazer com que também os americanos não conheçam essa fantástica banda e a loja não tenha nada deles; respondi-lhe com um gesto apontando para o pescoço, neck de pescoço, e ele replicou que não era familiarizado com essa banda, mas vejamos aqui no sistema: tec tec tec no notebook, olhinhos apertados aumentados pelas lentes aparentemente insuficientes tentando decifrar a resposta do computador, e sim, nós temos “a couple of Necks albums”. Que alegria! — na verdade, aquela pré-alegria meio apreensiva de quando você descobre que a loja tem o artista que você procura, e está prestes a descobrir se tem ou não o disco exato. Ele me indicou onde eles ficavam, era a seção “experimental jazz” que eu não havia esquadrinhado ainda; fui até lá, corri os olhos sobre as lombadas dos CDs com o coração na boca e achei uma cópia do Chemist, versão americana que eu não sabia que existia, linda caixinha de papelão e três longas faixas que funcionam como um dos narcóticos sonoros mais inebriantes que eu conheço, e que passaram então a fazer parte como protagonistas da trilha-sonora da viagem.

Bon Jovi: Slippery When Wet

Para finalizar, outro capítulo da aventura californiana: num táxi que pegamos em Los Angeles, tocou Livin’ on a Prayer do Bon Jovi. Meu estado de espírito receptivo e bem-disposto daquela semana deleitou-se, é claro: Bon Jovi, de volta lá aos anos 80, foi uma das minhas iniciações na música, e tenho e escuto ainda hoje alguns dos seus discos pois adoro mergulhar em nostalgia de vez em quando. Alguns dias depois, outro táxi e de novo Bon Jovi no rádio, novamente Livin’ on a Prayer! A música, sem dúvida, combina com aquele cenário quente, kitsch e ostensivamente vulgar de Los Angeles, um lugar quase de ficção americana (e me pergunto se não foi da ficção americana que nasceu LA), e não deu outra, o clássico Slippery When Wet passou então a ocupar também uma boa parte da trilha-sonora do restante da viagem, porque eu costumo ser facilmente influenciável pelo ambiente e pelas circunstâncias. É nesse disco que está outro grande hit bonjoviano, You Give Love a Bad Name, e essas músicas todas sempre me fizeram lembrar de sábados de futebol na rua e vizinhos um pouco mais velhos exibindo-se para as meninas e lavando os carros de seus pais (provavelmente como parte da barganha para poderem utilizá-los naquele dia de noite), carros ensaboados e mangueiras e camisetas regatas mais ao fundo daquilo que era uma via pública mas também nossa quadra poli-esportiva privada, os hits radiofônicos dos anos 80 tocando em bom volume através dos porta-malas abertos ou de micro-systems na calçada lá na altura de todo aquele desperdício de água, mas chegando até nós em nossas partidas de futebol em frente ao prédio onde morávamos nós a maioria das crianças. Bon Jovi, Guns N’ Roses, Roxette, Dire Straits, Erasure e a-ha são algumas das lembranças musicais mais queridas dessa época, bandas que assimilávamos praticamente sem nenhum filtro por via das ondas de rádio, trilhas internacionais de novelas e desses citados vizinhos mais velhos (por sorte havia também os vizinhos e amigos do colégio que escutavam Clash, Jesus and Mary Chain, mas isso é outra história), e esses sons todos iam se incorporando às nossas caixinhas de fitas K7 e às trilhas-sonoras de nossas vidas naquela época… Mas se por acaso minha memória ainda estiver criando com o mesmo vigor de antes essas associações orgânicas e irremediáveis entre música e tempo-espaço, então acho que a partir de agora Bon Jovi irá me lembrar para sempre da Califórnia.

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