Discos do mês - Junho de 2015

Por Fabricio C. Boppré em 02/07/2015

Black Rebel Motorcycle Club - Live in Paris

Eu escrevo frequentemente sobre o BRMC por aqui, e de modo cada vez mais carinhoso, como que numa relação onde os pares se enternecem até mesmo com os defeitos um do outro, que às vezes se desapegam um pouco e depois voltam com afeto redobrado. Isso é um degrau acima de ser fã, e acho que nós, os loucos por bandas e discos, apesar dessa nossa loucura, acabamos por reunir apenas um pequeno punhado de nomes dos quais podemos dizer tal coisa ao longo da vida, ainda que sejamos fãs de dezenas, centenas de outros. Outro fator de distinção aí é a forma como essa relação é construída: ela vai se sedimentando pouco a pouco, disco a disco, e nunca através do fenômeno fugaz de um único CD ou música ou show; há algo de entendimento lento e gradual, confiança e gratidão estratificando-se naturalmente, e de repente, percebemos, somos-lhes não mais apenas admiradores, não mais apenas compradores de seus discos, mas amigos íntimos e fiéis. Sempre tenho a intuição de algo genuíno e obstinado neste trio, que se materializa em uma persistente sibilação de fundo, e uma espécie de reverberação que fica ainda vibrando por algum tempo após ouvir qualquer um de seus discos: os caras acreditam enfaticamente no que fazem, pões suas almas em cada disco, e ela está lá mesmo quando a música não agrada particularmente. Bem, o caso é que no ano passado eu escutei muito ao BRMC, acho que eles emplacaram umas duas ou três citações nesta série de relatos mensais (e só não foram mais vezes para não ficar muito repetitivo), e múltiplas escalações nas saudosas mixtapes das sexta-feiras, mas neste ano, por outro lado, eu não vinha escutando-os muito. Talvez tenhamos dado um tempo, como se diz. Então veio a notícia do lançamento de um disco ao vivo, e não um disco ao vivo qualquer, mas sim um gravado a partir de um show em que eu estava na platéia, e que foi um dos shows mais fantásticos e emocionantes da minha vida (este comentado brevemente aqui). A banda voltou com tudo aos meus fones e caixas de som: sem conseguir esperar pela oportunidade de comprar o disco, baixei já as mp3 e tenho escutado diariamente ao show, que teve o disco Specter at the Feast executado na íntegra na primeira parte, e na segunda várias das minhas favoritas, sobretudo versões arrepiantes de Rifles, White Palms e Mercy. De quebra, redescobri o primeiro álbum da banda, que nos últimos anos costumava ficar relegado mais para o fim da fila na hora de escolher algo do BRMC para escutar, mas é um álbum espetacular, e nunca me esqueço de que ele me foi enviado via e-mail por um amigo — isso mesmo, por e-mail, cada faixa convertida em um arquivo mp3 e anexada a uma mensagem, totalizando onze e-mails que ressaltavam com muitos pontos de exclamação que eu tinha que conhecer imediatamente aquela nova banda e que devem ter ocupado a linha telefônica de casa por algumas horas, pois isso foi muito antes da internet de banda larga e antes até mesmo do Napster, sendo que acabo de me dar conta de que até mesmo o Napster já é coisa de outra era e muita gente não deve fazer idéia do que se trata. Bom, são as histórias de uma relação. Taí uma banda que está no meu mais restrito e culminante grupo de mais queridas, no grau último de estima.

Iron Maiden - Brave New World

Saiu dias atrás a notícia de que teremos agora no segundo semestre um novo disco do Iron Maiden. O disco se chamará The Book of Souls e tem uma capa sensacional. Não só isso: será um disco duplo. Não consigo estimar quais são as chances de quem estiver lendo isso aqui entender em toda a sua dimensão o que vou dizer, mas essa é uma notícia que faz exultar a criança dentro dos adultos que foram fãs de Iron Maiden em suas infâncias e adolescências, adultos esses que dificilmente obliteram por completo essa relação tão devotada e intensa de outrora, e quando estes (nós) ficamos sabendo de uma notícia desse tipo — um disco duplo, o primeiro da banda! — é uma transmutação quase física que sentimos: já passamos a sonhar com o dia da ida à loja para comprar o disco, antecipamos o deleite de ouvi-lo pela primeira vez, e dá vontade de puxar um caderno e desenhar na margem do alto da página o logotipo da banda, que sabemos de cor em todos seus contornos e pontas, apesar de desprezar a pequena mudança que lhe aplicaram quando o Bruce Dickinson deixou a banda. Tem um mérito aí que mesmo os não-fãs hão de reconhecer: poucas bandas hoje em dia ainda são capazes de despertar esse alvoroço em torno de um novo álbum, poucas conseguem transformar o anúncio do lançamento de um desses objetos de plástico e papel em eventos dessa magnitude, e continuar a difundir sua música principalmente por meio desse artifício tão cheio de história e significados, ao invés de simplesmente fazê-la fluir diretamente aos nossos ouvidos por meio da tecnologia onipresente dos computadores, smartphones e internet. Ou seja, há o fã, a banda, e entre eles toda uma série de rituais, já repetidos algumas dezenas de vezes, mas periódicos e teatralizados o suficiente para serem sempre renovados em cada uma de suas partes litúrgicas constituintes e então ansiosamente aguardados e festejados. Ok, eu entendo que não é um mérito que devemos atribuir exclusivamente ao talento da banda, e sim parte do legado de um outro tempo, uma outra maneira de fazer as coisas, um processo semi-extinto e totalmente hieroglífico às gerações atuais que já nasceram na era da internet, mas para os mais antigos o valor disso tudo é inestimável, e a coisa toda já ganhou faz tempo ares de seita esotérica e sigilosa, restrita a somente alguns poucos membros especiais. E seu poder, atestamos mais uma vez, ainda é irresistível e move nossas vidas. Enfim, como parte do processo de preparação ao novo disco, tomei um banho de Maiden na última semana: a velha e incansável donzela de ferro continua soando divertida e vigorosa como há 30 anos atrás. O que eu mais ouvi acho que foi o Brave New World, o CD de 2000 que marcou a volta do vocalista Bruce Dickinson após este ter passado uns aninhos fora da banda, e é um belíssimo disco, evidência notável daquilo que sempre foi o atrativo maior do Maiden, na minha opinião: cada faixa um pequeno mundo em si, um pequeno conto totalmente sólido e auto-suficiente com suas atmosferas próprias e clímax e tudo o mais. As letras são uma bobagem sem fim, claro, mas se uma música sobre o heroísmo dos nômades soa majestosa e empolgante como aquela, você tem que respeitar e dar algum desconto, afinal, os caras ainda têm que tocar aquele monte de guitarras e se preparar para esse tanto de shows monumentais e pilotar aviões e ainda cuidar do monstrengo Eddie. E agora termino essa reflexão ponderada e adulta dando finalmente espaço à voz estrindente que não cala aqui na minha cabeça e quer falar logo de uma vez e resumir a coisa toda: porra, um novo disco do Iron, que notícia massa pra caralho! Up the Irons!

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2 comentários:

  • Vicente em 02/07/2015

    Legal ter um registro em altíssima qualidade dum evento que presenciasses. Como se tivesse sido lançado exclusivamente para ti. E o que dizer dos discos que representam verdadeiras paixões que nunca cedem, nunca arrefecem, nunca terminam? Andei revivendo vários discos recentemente, de vários artistas, e embora escute com razoável periodiocidade, intensifiquei as sessões de Loveless. Até hoje não sei como o MBV trouxe aquilo para nós, acho que nem eles sabem, mas ao contrário das paixões de carne e osso que por mais que nos esforcemos simplesmente chegam num estágio em que a tormenta de emoções não consegue mais ser reproduzida, a paixão que Loveless desperta não só se reafirma como às vezes se intensifica. Fico pensado que se eu pudesse viver dentro de um disco (surrealismo mode on), eu gostaria de viver no mundo rosado / azulado de Loveless.

  • Fabricio Boppré em 02/07/2015

    Esses são preciosos! E são bem poucos. O Specter at the Feast do BRMC tá ganhando uma moral muito grande comigo, cada vez mais… E foi um disco que eu meio que deixei passar batido, na época do lançamento.

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