Discos do mês: fevereiro a junho

Por Vicente M. em 22/06/2015

Breakbot: By Your Side (Ed Banger, 2012)

Com o carnaval lucida e decididamente desfrutado aos moldes do retiro iniciado na virada do ano, me vi novamente imerso em livros, discos e esportes, obviamente alheio às enfadonhas coberturas midiáticas de quem usufrui seu direito de levar nossa brasilidade às últimas consequências. Alheio também à concentração indiscriminada nos litorais e pontos turísticos, encontrei-me conciliado com a merecida inércia da esvaziada metrópole durante o período daqueles poucos dias, conformado com as pequenas ocasiões em que interagia com outros poucos “desafortunados” que por seus distintos motivos optaram por outros carnavais. Em meio a drones, obscuridades, metais, experimentos sonoros, me dei ao luxo de brincar com a possibilidade de abrir o escopo sem traçar maiores julgamentos sobre as possíveis consequências (afinal, era carnaval), de modo que cheguei ao supracitado disco de estreia do DJ francês. Assim como os conterrâneos do Daft Punk e Justice, Breakbot dedica-se à saga de resgatar gêneros de black music dos anos 70 e 80 passando-os pelo inevitável tratamento eletrônico contemporâneo, o que a mídia chamaria preguiçosamente de electro. Embora não se possa reconhecer em seu álbum uma magnitude ou maturidade sequer próxima de Random Access Memories (obra definitiva do Daft Punk), By Your Side oferece melodias de fácil assimilação, letras dignas de uma ótima escola pop e grooves que combinados servem de meio de transporte capaz de aproximar um ouvinte obtuso do que seria um carnaval menos sisudo. Quando me dei conta, estava com o disco a tiracolo fazendo as vezes de abrir o sol em meio à névoa, sem grandes culpas ou constrangimentos, confesso. E, claro, como todo competente disco pop, ele tem seu grande hit, Baby I’m Yours (que se não estou enganado foi celebrizado como fatídica trilha-sonora de comercial na televisão). A descoberta (e companhia) foi tão oportuna que adentrei março prestigiando o disco com novas audições, numa ironia que questiona a tese de que paixões de carnaval nunca serão duradouras.

Aphex Twin: Syro (Warp, 2014)

Da série “músicos que os outros dizem que ouvem mas eu não achava que era para mim”, insisti no LP mais recente de Richard D. James e o absorvi lentamente, de início nas sessões de academia (me satisfaz saber que eu e meu MP3 player criamos um contraponto à trilha sonora plastificada que o som ambiente do recinto prolifera – é, sou um idiota) para aos poucos levar o disco para passeios casuais, percursos automotivos pela cidade e até durante o trabalho. Ainda não cheguei no estágio de conhecer o restante de sua incensada obra, de modo que me centralizo em Syro ignorando a possibilidade de estar aqui talvez descrevendo o celebrado som do Aphex Twin caso o novo disco coincida com seus trabalhos anteriores. Em entrevistas, Richard comentou que Syro foi obra de inúmeras experimentações com equipamentos que construiu, portanto, um álbum onde os meios são no mínimo tão importantes quanto o fim. Tal abordagem é percebida já nos primeiros segundos, onde as expectativas de um desenvolvimento linear das faixas tombam quando diferentes ritmos, quebras de melodias eletrônicas e intrusões sampleadas colidem entre si. E assim, torto e fragmentado, o disco transcorre por onze inteligíveis faixas. Esse efeito traz nas primeiras audições uma indesejável impressão que o Aphex Twin foi perspicaz o suficiente para não ter gravado um álbum mas ter usufruído de seu prestígio para lançar nada mais do que rascunhos reunidos, exercícios técnicos passíveis de descarte. Porém, o caráter desafiador daquele conjunto de beats é tão intrigante que o ouvinte menos acomodado não se contenta enquanto não encontra um fio de meada, uma espinha dorsal que justifique três discos de vinil numa embalagem, ao passo de submeter-se a sucessivas audições até que algo seja revelado. E é. Syro é mais um daqueles álbuns em que a cumplicidade é necessária, assim como familiarizar-se com a linguagem que ele impõe ao invés de tentar adaptá-la às prerrogativas que trazemos em nossas bagagens. À medida que o ouvinte se identifica com ele, passa a fazer sentido a questão do meio antes do fim, quando torna-se interessante acompanhar a trabalheira que Richard tem para conter e acomodar a incessante revoada de beats e carga eletrônica que tentam escapar-lhe por entre os dedos, as melodias vazando pelas frestas, o descontrole de uma linha sonora que nasce vigorosa e em questão de segundos já está obsoleta, atropelada por outra mais recente. É um álbum sensorial, livre de formas e restrições, que mesmo sem se dar a chance de mergulhar em áreas profundas, é instigante o suficiente para que a frieza dos seus sons desperte a curiosidade em torno de onde ele chegará. E termina brilhantemente com aisatsana [102], uma calorosa “balada” ao piano acompanhada por cantos de pássaros que brindam a chegada do ouvinte até aquele ponto, contradizendo tudo o que foi explorado, revelando a carga humana até então acobertada por aquela tonelada de sons frenéticos.

Kendrick Lamar: To Pimp A Butterfly (Top Dawg / Aftermath / Interscope, 2015)

Pois é, hip-hop é um universo que não me comove muito. É difícil se envolver com um gênero tão segmentado sem se sentir deslocado ou com a barra forçada, como a cena clássica do turista que visita o Rio de Janeiro e é submetido a passos desequilibrados de samba com uma mulata de dois metros de altura. Seja pelo papel imprescindível que os temas exercem no gênero ou pela dificuldade natural de se acompanhar as linhas recheadas de gírias e sotaques, tenho como paradigma que há pouco de interesse pessoal a tirar desses artistas, uma dificuldade natural de estabelecer um vínculo com o que eles têm a dizer. Porém, pulsa em paralelo a insaciável curiosidade de escutar discos impensados, surpreendentes, capazes de transcender conceitos até então sólidos simplesmente sendo grandes discos, libertos de gêneros, rótulos ou públicos específicos. To Pimp A Butterfly é exatamente isso: uma obra incrível, inventiva e altamente viciante. Kendrick Lamar despontou para a web com seu primeiro disco, Section.80, e conquistou as graças de uma ampla audiência com good kid, M.A.A.D. City, discos razoavelmente fiéis à estética do hip-hop, basicamente narrando a violência e segregação das áreas proletárias dos Estados Unidos. Ótimos discos que demonstraram a incrível habilidade de Kendrick de criar diferentes performances segundo a demanda de cada música. Mas o terceiro e recente álbum, To Pimp A Butterfly, é um arregaço: transcende rótulos, alça voos por diversos tipos de música e nunca, absolutamente nunca se dá por satisfeito em tentar algo diferente e inovador. Atropelando clichês do gênero, Kendrick distorce o conceito de que o hip-hop deve pregar o conflito, optando por questionar os próprios negros sobre a necessidade de emergir de suas rusgas rumo à conquista da justa autoestima. Musicalmente, Kendrick conceitualiza o disco num crescendo, com capítulos se revelando em cascata até culminarem em um grande ponto final. Ele destrincha e subverte hip-hop, jazz, funk, ragga, soul, desconstrói personagens e resgata como há muito não se fazia o álbum como um formato poderoso de entretenimento, justamente numa era onde a efemeridade dos singles reina nos smartphones. Indispensável.

Craft Spells: Nausea (Captured Tracks, 2014)

Meu apreço pelo disco de estreia de Justin Vallesteros (Idle Labor, de 2011) não corrói com o tempo. Embora tente emular alguma espécie de New Order (reforçado pela quase cara-de-pau da capa escolhida), as músicas são tão inebriantes e dotadas de personalidade que o resultado transcende a influência e apresenta um belo dum daqueles discos gravados num dormitório com bateria eletrônica e computador. Quando o elaborado Nausea saiu, a reação automática foi de contradição: arranjos de banda contrapondo a solidão de Idle Labor e músicas não tão redondas, como se Justin tivesse que entregá-las antes que um prazo expirasse. Com o tempo, entretanto, Nausea deixou pingar seus encantos, que residem justamente no fato dele ser diferente e antagônico ao seu predecessor, revelando amadurecimento e ambição. Agora que começamos a enfrentar (ou aproveitar, no meu caso) a temporada fria do inverno, o disco é um daqueles aliados que de alguma forma complementa a estação, coerente com dias chuvosos, cinzentos ou mesmo nos que um sol esforçado não consegue elevar as teimosas temperaturas baixas. Seja na seara das baladas (Komorebi, Laughing For My Life) ou dos semi-hits (Twirl, Breaking The Angle Against The Tide), Nausea carrega consigo um misto onipresente de sensibilidade e fragilidade que remetem a Nick Drake ou ao primeiro disco solo de James Iha.

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2 comentários:

  • Fabricio em 22/06/2015

    Só acho que tu não precisava lembrar ninguém de que o James Iha lançou um disco solo.

  • Vicente em 22/06/2015

    Hahahaha! Não acho o Let It Come Down ruim, hein? Tem lá seus momentos e ocasiões. Analisado hoje ele tem boas qualidades. E era tarefa árdua deixar ele crescer naquela época, espremido entre os grandes MCiS e Adore.

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