Discos do mês - Maio de 2015

Por Fabricio C. Boppré em 01/06/2015

Compilação - Whatever Nevermind

Passei vários dias cantarolando minhas músicas favoritas do Nevermind depois de ouvir este disco-tributo gravado em sua homenagem. Drain You, In Bloom e Lounge Act são canções fenomenais demais, indefectíveis, que sempre desautorizam imediatamente já no início da formulação quaisquer críticas que se queira fazer ao clássico do Nirvana e que tenham a intenção de desqualificá-lo por via do contexto da época, do poder da MTV, Kurt Cobain isso, Kurt Cobain aquilo, blá blá blá — é tudo blá blá blá desimportante quando explode o refrão de Drain You. Escutei este tributo umas quatro ou cinco vezes em poucos dias, elegendo como preferidas a ótima versão desacelerada de Come As You Are feita pelo Kylesa, a desmontagem e remontagem de Lounge Act por uma banda chamada Touche Amore (de quem eu nunca tinha ouvido falar) e a In Bloom fidedigna e selvagem gravada pelo Torche. E depois, com prazer renovado, voltei a escutar o Nevermind original por alguns dias, e é incrível como ele vai envelhecendo bem, mesmo que eu reconheça já não sentir uma vontade muito frequente de escutá-lo. Mas, indo às raias do otimismo, otimismo este que vem sendo nocauteado amiúde nos últimos tempos, sou até mesmo capaz de achar que esse monte de camisetas do Nirvana que tenho visto ultimamente por aí, trajadas por gente que aparenta ter metade da minha idade — ou seja, que estava nascendo quando Cobain estava morrendo — essas camisetas todas talvez não sejam somente a modinha vendida como a tendência rejuvenescedora da hora, como fora aquela das camisetas dos Ramones usadas até por madames em shopping centers, um tempo atrás: talvez seja a gurizada realmente descobrindo esse álbum e essa banda espetacular, que seus pais comentaram já algumas vezes terem ouvido durante a adolescência no jurássico século passado…

Dire Straits - Dire Straits

Esse é um dos pilares da minha coleção: comprado em julho de 1993, conforme registrado à caneta preta na parte interna do encarte. Certamente um dos meus primeiros dez ou quinze CDs. Já isto não está escrito, mas eu me lembro bem: comprado numa lojinha num pequeno shopping de Ciudad del Este, no Paraguai, para onde fomos, eu, meus pais e meu irmão, três vezes no começo dos anos 90 para fazer compras, pois alguma circunstância político-econômica dessas para as quais eu nunca tenho a inteligência funcional de compreender e reter na memória fazia com que as coisas todas que a classe-média brasileira adora consumir — perfumes, roupas, tênis, eletrônicos, whisky — fossem todas bem mais baratas nas lojas de lá, e por isso partiam caravanas de famílias brasileiras em férias para lá, para trazer malas abarrotadas de coisas para rechear suas casas e apartamentos. Numa dessas ocasiões, eu comprei este disco, e acho que além dele apenas um mini-microscópio para crianças no qual eu nunca consegui ver as tais células vivas nos filetes de cortiça permanece em minha lembrança dentre as tantas quinquilharias que eu devo ter comprado naquelas ruas apinhadas de brasileiros e paraguaios. Mas sobre este primeiro disco do Dire Straits eu tenho a dizer o seguinte: ainda que não seja um disco talhado para despertar paixões arrebatadoras, eu o adoro. Abstenho-me de dizer que o amo pois o tipo de relação que ele evoca é algum coisa mais na linha companheirismo fiel, amizade sincera e genuína, feita de conversas tranquilas, onde as pessoas falam baixo e serenamente e com todas as pausas que lhes convêem, para pensar nas palavras, pois as outras pessoas escutam, as outras pessoas têm aquela conduta cada vez mais rara de esperar e escutar. Essas alegorias me vêem a cabeça por causa da entonação da voz de Mark Knopfler que não tem absolutamente nada de cantor de rock ‘n’ roll, da simplicidade da música, sua descomplicação cabal e despretenciosa, da brevidade e unidade do disco, que me é como um todo tão íntimo e querido. “Sweet surrender on the quayside…”: só a primeira frase da primeira faixa já me me sossega e me traz uma felicidade como poucas outras músicas são capazes! E foi a trilha-sonora perfeita durante alguns dos meus últimos dias, cuja aceleração de acontecimentos, de compromissos, de trabalho, de pessoas, enfim, de coisas a serem absorvidas e processadas — e eu sempre fui muito lento nesses processos que começam sociais e terminam cognitivos, e acho que sou cada vez mais, inclusive tive uma súbita confirmação disso ontem ao pegar uma carona num carro onde o rádio estava ligado numa estação de notícias, e eu, que não ouço rádio e não vejo TV já há muito tempo, quase passei mal ouvindo aquela sucessão initerrupta e vertiginosa de notícias e entrevistas e futebol por cerca de meia hora, e de repente percebi, com uma nitidez implacável, que houve em algum momento destes últimos anos algum descompasso entre o meu ritmo de vida e aquele que é o consuetudinário, e eu me transformei em alguém… defasado? Talvez seja só isso, eu estou envelhecendo precocemente. Mas eu dizia, a celeridade dos últimos dias exigia que nos meus momentos de recolhimento alguma coisa me ancorasse a alguma base sólida e familiar, me acalmasse e me recompusesse, e esse disco acabava sendo não somente a trilha-sonora perfeita, mas penso mesmo que a única possível. Um verdadeiro antídoto milagroso, e um pequeno mundo no qual eu poderia viver para sempre. Bem, só conto com a minha experiência para dizer isso, mas envelhecer por enquanto não está sendo tão ruim assim.

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4 comentários:

  • Sid Costa em 03/06/2015

    Cara, vc sintetizou bem o que é escutar o primeirão do Dire Straits … conversas tranquilas, onde as pessoas falam baixo e serenamente e com todas as pausas que lhes convêem, para pensar nas palavras, pois as outras pessoas escutam… In The Gallery é desde sempre uma das melhores coisas vindo da velha ilha.

  • Vicente em 17/06/2015

    “é incrível como ele vai envelhecendo bem, mesmo que eu reconheça já não sentir uma vontade muito frequente de escutá-lo”. Andei escutando o Nevermind há algum tempo mas acabo sempre morrendo no In Utero que para mim acabou imortalizado como o melhor disco deles e o disco que melhor os representa. Não que o Nevermind não deva ser considerado imprescindível - ele é - além de muito representativo. Mas há algo nele que na época eu não identificava, algum acordo velado entre a banda, o Butch Vig e a Geffen que tornou-lo o disco que foi, um Nirvana amaciado. Mas aí quando se escuta o sucessor e já na largada eles se vingam disso tudo e despejam aqueles timbres podres e o trio exibindo as vísceras, fica difícil de voltar para o Nevermind sem achá-lo um tanto restritivo e por vezes até cansativo.

  • Fabricio Boppré em 19/06/2015

    O Nevermind tem isso, Vicente, tô de acordo contigo. Acho que também já escrevi sobre isso por aqui. O que orientou as decisões em termos de produção do disco é bem evidente, e também bastante documentado em biografias e entrevistas e etc. Mas eu não consigo relativizar sua beleza por conta disso. Como escrevi acima, o poder de algumas daquelas composições é incorruptível. Quero dizer, é minha opinião. Sobre o meu preferido dos três, já foi até mesmo o Bleach! O In Utero é fascinante e também já estive convicto que era este o álbum definitivo da banda. Mas acho que hoje eu apontaria o Nevermind.

  • Vicente em 22/06/2015

    Entendo perfeitamente. O que acontece comigo na prática é que em 2015 quando chego na metade do Nevermind minha percepção me transmite um feeling de que o disco está requentado, que já tirei dele tudo o que poderia de melhor. Um belo filé mignon ou uma iguaria indescritível, porém, requentada. Já o In Utero ainda não perdeu aquele status desafiador, aquela certeza de que mesmo tanto tempo após seu lançamento e centenas de escutadas, vai continuar sendo capaz de te despertar alguma coisa nova. Acho que é porque o In Utero transmite uma sensação de catarse onipresente que melhor ilustrava a banda e essa sensação nunca se esvai.

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