Discos do mês - Abril de 2015

Por Fabricio C. Boppré em 03/05/2015

Miles Davis - Kind of Blue

Recapitulando abril: bastante trabalho; uma viagem à Itália; uma grande mudança na minha rotina diária; a gripe mais brutal que já tive na vida. Foram umas semanas deveras intensas e memoráveis, sendo que as coisas que aconteceram mais lá pro começo do mês me parecem, neste momento, terem ocorrido há muito mais tempo. A tal gripe não teve nada de corriqueiro: no auge do padecimento, uma noite de domingo para segunda que passei inteira às claras, eu senti nitidamente que minha cabeça estava prestes a explodir tal qual naquele velho e maravilhoso filme do David Cronenberg. Mas não chegou a esse ponto e ninguém precisou enxaguar as paredes aqui de casa com água sanitária; sobrevivi, e na noite seguinte, ainda mal mas já entrando naquele período de convalescência molenga pós-gripe, como novamente não estava conseguindo dormir, na hora mais silenciosa e tranquila da madrugada eu me deitei no sofá da sala e pressenti que havia uma música rondando minha cabeça, se insinuando devagarzinho por entre as frestas dos pensamentos, um som que eu deveria ouvir naquele momento e ele provavelmente teria efeito melhor do que a última pílula de paracetamol que eu planejava tomar para extirpar de vez a doença (não gosto de remédios, evito-os ao máximo, mas o estado lastimável em que eu me encontrava não permitia recusar ajuda nenhuma, mesmo essa vinda da torpe indústria farmacêutica). Não foi preciso muito esforço para descobrir que bálsamo sonoro era esse: Kind of Blue, do Miles Davis. Enquanto ouvia o disco e sentia o prazer intenso, quase carnal, daquela música percorrendo e desobstruindo vias respiratórias e canais sensoriais, passei definitivamente dos estágios finais da febre para o de convalescente-relaxado, e depois para um outro semi-delirante e exultante, até que finalmente atingi a mediunidade e ainda regressei uns anos no tempo: estava dentro da mente de Miles Davis enquanto este concebia Kind of Blue. Tive então acesso aos seus pensamentos, que me pareceram ser desta ordem: “toda música é uma perturbação do silêncio, mas eu preciso fazer uma música que não seja isso, que na verdade seja o oposto disso; uma música que não se oponha ao nada-sonoro, mas que germine deste, que seja uma evolução orgânica deste para um outro estágio que conserve do silêncio original a serenidade e nos relembre da cada vez mais perdida e remota familiaridade que tínhamos com ele”. A espraiada influência de Kind of Blue, sua recorrência no topo das listas de maiores discos de jazz de todos os tempos, e o poder medicinal que descobri naquela madrugada, testemunham que alguma coisa muito extraordinária Miles Davis conseguiu.

Medeski, Martin & Wood - Radiolarians Vol. I

A viagem à Itália citada acima foi para Florença, cidade que eu já conhecia, mas que naquela primeira visita, em função das circunstâncias daquela vez, não pude captar bem o seu espírito. Dessa vez foi diferente e apaixonei-me intensamente por Florença. Cidades, assim como corpos, tem suas formas, seus metabolismos, suas sutilezas diversas que vão se encadeando e definindo a balança da atração ou repulsa — seus cheiros, cores, alma. Florença tem (e nem os milhares de turistas a percorrer suas ruas e museus conseguem solapar isso) uma suavidade e uma receptividade ao caminhante que a tornam desses lugares especiais para percorrer ouvindo música. Botei para tocar num daqueles dias — que foram todos de perfeito céu azul imaculado e aconchegante friozinho primaveril — o primeiro volume da série Radiolarians do Medeski, Martin & Wood, e me embrenhei pelos labirintos outrora percorridos por Da Vinci, Dante, Botticelli e Galileu com aquela música cósmica desvairada decretando os rumos e aumentando meu deslumbramento a cada passo. As impressões causadas por cenário e música vão se retro-alimentando, os limites entre os sentidos se diluindo, e para evitar a saturação, é indicado parar numa trattoria qualquer, tirar os fones, descansar, e pedir um daqueles inigualáveis vinhos italianos. Ah! Para ter um único dia desses por mês, eu toparia aguentar, mensalmente, até mesmo três ocorrências daquela gripe descrita acima…

Bush - Razorblade Suitcase

Em algum momento entre os dois eventos narrados acima me ocorreu essa idéia despirocada de escutar Bush. Alguém lembra dessa banda? Tive durante um breve período o disco Razorblade Suitcase gravado numa fitinha, que creio não ter ouvido mais do que duas ou três vezes: muito rapidamente ela foi regravada com alguma outra coisa melhor que agora não tenho como lembrar o que era, já que “alguma coisa melhor do que Bush” siginifica virtualmente tudo. Já não gostava naquela época, mas desta vez, quando escutei ao álbum novamente via mp3 (ah, a infindável montanha de lixo que é a tal nuvem digital, viabilizando a vida de tarados e malucos diversos desde mil novecentos e noventa e poucos), dessa vez fiquei até meio envergonhado. Devo justificar esse ato bizarro como parte de um costume que tenho de vez ou outra escutar novamente algum disco há muito não escutado, algo ouvido em algum momento remoto da vida e logo depois descartado por falta de interesse maior — tipo um programa meio esporádico de recapitulação de tudo que já escutei até hoje. Uma bobagem, evidentemente, e somente os nostálgicos como eu talvez não passem a me ver como um completo desocupado. Mas Bush já é demais, devo reconhecer; o som dessa banda era desonestidade e cálculo indecoroso por todos os poros, formulaico até não poder mais, de deixar tonto, nível Creed de infâmia. É daquelas provas incontestáveis sobre o poder do mercado, da propaganda, da indústria do entretenimento e sua maquinaria em permanente desova de produtos minuciosamente planejados para engrossar as prateleiras das lojas e fundamentar as “tendências”, seus obsequiosos servidores e usufrutuários enredados num esquema que, em troca da participação nesta ilusão, drena suas almas. Aprendi lendo e relendo o Kafka que já somos todos, sem exceção, alienados, mas a mera existência de uma banda como o Bush demonstra que a coisa já foi longe demais nesses nossos dias atuais, e seria bom alguém por ordem na humanidade.

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3 comentários:

  • Vicente em 18/05/2015

    O que me atrai no Razorblade é o fato dele representar exatamente esse charlatanismo que ilustrasses mas mesmo assim ter sido gravado pelo Steve Albini (que teoricamente escolhe seus trabalhos segundo critérios díspares dos da indústria) e ter as baterias e a sonoridade geral muito calcadas no In Utero. Fico imaginando se o Gavin Rossdale embebedou o Albini antes de induzi-lo a apertar as mãos ou se o produtor simplesmente resolveu fazer disso sua piada particular, conduzindo uma quase banda-cover de Nirvana rumo à gravação de uma drenagem de In Utero custeada por uma grande gravadora. Mas sabe que a sonoridade de Razorblade não é de todo ruim não?

  • Fabricio Boppré em 18/05/2015

    Vicente, essa é uma forma de encarar esse disco, decididamente. Só mesmo através de meta-linguagem. E confesso que não sabia que ele tinha sido produzido pelo Albini; de fato tem a sonoridade bombástica do In Utero, e esse é o melhor elogio possível, com a ressalva de que isso sequer deveria ser um elogio, pelo contrário…

    (Ah, e foi mal pela demora na liberação do teu comentário! O golpe do fim das mixtapes me deixou tão triste que acabei ficando uns dias sem passar por aqui e cuidar das coisas do site…)

  • Sid Costa em 22/05/2015

    Monta um set list e posta os links do Youtube mesmo.

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