Apertando o botão do 'unfollow'

Por Alexandre Luzardo em 11/02/2015

Já estando há bastante tempo nessa brincadeira de gostar de música, uma questão que ainda gera algum tipo de conflito e hesitação é quanto a deixar de acompanhar certas bandas e artistas. Você sabe, o lado racional que questiona a validade de ouvir o novo álbum daquela banda que não lança nada de relevante há 20 anos, ou que teve a formação original esquartejada, ou ainda daquela banda que encerrou as atividades de forma dramática e definitiva que de repente retornou do nada por motivo$ duvido$o$ com um disco novo picareta embaixo do braço.

Quantos discos meia boca são necessários para deixar de ser fã? Quantas decisões questionáveis quanto ao direcionamento de uma carreira ou entrevistas desastradas são necessárias para simplesmente largar de mão? Hoje em dia onde a restrição é de tempo e não de acesso, a possibilidade é muito maior de descobrir novos sons ao não ficar restrito aos velhos nomes do passado que já não tem muito a dizer.

Parece simples, mas a racionalidade não se impõe tão fácil e eu sempre acabo abrindo espaço para seguir acompanhando discografias que comecei a montar na época da fita cassete. Pensando sobre isso cheguei à imagem de encontrar um conhecido de infância décadas depois de passado o convívio, ao acaso. Ao invés de um protocolar cumprimento, a opção por ouvi-lo contar das novidades e dos seus interesses mesmo que os caminhos da vida o tenham colocado em outro contexto. É uma analogia rasa e tola, e cheguei à conclusão que não é bem isso que ajudaria a explicar em parte minha dificuldade em praticar um ‘desapego musical’. Além da mera curiosidade ou da nostalgia de relembrar figuras familiares e importantes em uma outra época, o ponto seria a sensação de construção de uma espécie de narrativa. Pois cada banda ou artista constrói uma trajetória única, com ascensão e queda, deslizes e triunfos, pequenas incoerências e mudanças de rumo não explicadas. São por estas histórias construídas disco a disco que, indiferente da música não fazer tanto sentido nesse momento da minha vida, continuo acompanhando determinados artistas, definitivamente.


Para não me furtar de dar nome aos bois, dois discos que ouvi que se encaixam na descrição acima: Love Stories & Other Musings do Candlebox e For Your Friends do Blind Melon.

E , sim, tem bandas que ouvi há pouco tempo e abandonei de vez porque tudo tem limite. Uma delas Architecture in Helsinki, da qual tinha gostado do In Case We Die, disco de uma psicodelia pop inquieta e criativa, mas que descambou num pop eletrônico convencional e desinteressante nos mais recentes. E outra o Death From Above 1979, que, acho que na verdade nunca teve nada a ver comigo em tempo algum.

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3 comentários:

  • Vicente em 12/02/2015

    Creio, Alexandre, que minha motivação principal (um tanto obscura e inconsciente) é de tentar resgatar os mesmos impulsos que essas bandas me trouxeram no passado. É uma iniciativa que se toma sabendo que as coisas dificilmente atenderão as expectativas mas, acima de tudo, acho que é uma demonstração de compromisso com aquilo que fez sua cabeça em alguma etapa da tua vida. Você transmite para o(s) cara(s) que “bem, tentei te ajudar com mais essa”.

  • Fabricio Boppré em 13/02/2015

    Cara, justificar que se escute Candlebox e Blind Melon é mamão com açúcar. Tem coisas bem mais constrangedoras, pode ficar tranquilo! Sei do que tô falando…

    Falando sério: acho que tu acertou na mosca ao falar em “narrativa”. Estabelecer uma relação mais profunda e atenciosa, para além do raso e rápido que parece ser cada vez mais o espírito da contemporaneidade. É um dilema frequente hoje em dia, tendo tanta coisa à disposição. Também tenho essa mesma inclinação sua, ainda que eu também tenha os meus muitos Architecture in Helsinkis e Death From Aboves (lembro da tua empolgação com o Architecture in Helsinki!). No fim das contas, é bem difícil conjecturar, com antecedência, o que levará uma banda a seguir um ou outro caminho em nossos afetos… Mas, passado um tempo, olhando em retrospectiva, é bem divertido ficar analisando as razões que afinal prevaleceram, sem dúvida.

    E uma banda paradigmática nessa discussão aí: Smashing Pumpkins! Eu e o Vicente ainda uns dias atrás trocamos uns e-mails cheios de especulações sobre nossas relações semelhantes com essa banda que carrega tantas das nossas lembranças e deslumbramentos e decepções.

  • Vicente em 13/02/2015

    Sem falar que, às vezes me dou conta, essas oportunidades de ver determinadas bandas terem suas segundas (e terceiras… e quartas…) vidas não se resumem apenas a nos colocarmos numa posição de críticos ou consumidores desses retornos. Acho muito interessante usá-las com um espelho de quem éramos quando as curtíamos originalmente e em que ponto estamos hoje para tentarmos estabelecer uma nova comunicação com esses artistas que, da mesma forma, raramente são as mesmas pessoas daquela época. Das recentes, acho que o mbv conseguiu reafirmar meus laços com eles sem o mínimo de esforço mas reza a lenda que esse disco de 2013 foi todo criado logo após a conclusão de Loveless. Aí não vale.

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