Manifesto contra as bandas que usam terno

Por Fabricio C. Boppré em 02/02/2015

O mínimo que tenho a dizer sobre as bandas de rock que se apresentam trajando ternos é que elas têm um péssimo senso de humor. E se não for meramente uma questão de humor, então é muito pior, é um sentido totalmente falho de ocasião, circunstância e história. Uma banda de rock que usa terno não tem sequer o senso mínimo necessário para distinguir que o terno não se situa em nenhum ponto entre os dois extremos do largo espectro de vestuário condizente com esta atividade, a saber: as mantas hippie-indígenas do Jimi Hendrix de um lado e os hábitos de monges da idade média do Sunn O))) de outro. Esse mínimo necessário também ensina claramente que parecer-se com um político ou um advogado não é exatamente algo desejável para um artista, mesmo que você deixe o cabelo cuidadosamente desarrumado, e que se os Beatles usaram ternos no início da carreira, isso se deu simplesmente porque eles estavam inventando o rock naquela ocasião, e para com os inventores é sempre permitida uma certa tolerância, uma vez que ninguém sabe direito o que será feito daquilo que está sendo inventado. (Desnecessário relembrar que no fim da carreira, eles, os Beatles, utilizavam batas indianas, sendo que o John Lennon, vez ou outra, preferia até mesmo usar roupa nenhuma.) A banda de rock que usa terno evidentemente sofre também de uma defasagem de imaginação, uma triste atrofia dos músculos cerebrais responsáveis por um dos mais desejáveis pré-requisitos para este modo de vida: me refiro ao coeficiente de rebeldia, de insubordinação. Nunca um compositor de canções de rock que usa terno irá, por exemplo, entender o que diz aquele personagem do livro do Thomas Pynchon que, ao ver um comercial de atum enlatado na televisão, começa a discursar sobre a pulsão de morte que reside no âmago do capitalismo. Seus pensamentos (os do cantor de rock que usa terno) voltam-se constantemente à agenda das próximas sessões de fotografia para as capas de revistas, não conseguindo, dessa forma, alçar vôos imaginativos mais ousados e questionadores. O cantor de rock que usa terno tem como ídolo, muito possivelmente, o ator Clark Gable ou então o seu próprio pai, que trabalhava no banco, e não um poeta ou um guitarrista morto aos 27 anos. Isso eu até poderia entender se ao menos o seu pai se ocupasse, secretamente, de tarefas de sabotagem do sistema financeiro, agindo diretamente dentro da barriga da baleia, e lesse livros de filosofia de noite em casa junto aos filhos, mas geralmente não é o caso (e Clark Gable, muito menos, ocupou-se de qualquer tarefa subversiva na vida; consta que ele cobrava 5 dólares para dar um autógrafo). A banda de rock que usa terno dá um valor muito grande ao espaço que há entre o palco e o público — espaço sempre muito convenientemente ocupado por seguranças musculosos de olhar severo, seres abrutalhados sempre muito concentrados na perscrutação do público em busca de qualquer filetezinho insinuante de fumaça de cigarro e nunca girando sequer num ângulo mínimo o pescoço para ver a música que está sendo produzida no palco às suas costas (que, no caso das bandas de rock que usam terno, nunca é grande coisa mesmo) —, sem perceber que um show de rock deveria estar sempre aberto à possibilidade de diluição desse espaço a qualquer momento, e à possibilidade de fogueiras e danças ritualísticas. As bandas de rock que usam terno são sempre inglesas, mesmo quando não são, e elas tocam sempre no inverno, mesmo quando é verão. Para finalizar, devo acrescentar apenas mais duas coisas: primeiro, que o Elbow é a exceção que confirma a regra, pois pelo menos os ternos deles parecem ter manchas de cerveja e cheiro do bacon dos muquifos mais gordurosos de Manchester (sem contar que a música deles está rapidamente se transformando em algo que logo logo não será mais reconhecido como rock), e segundo, que se isso que tenho a dizer sobre as bandas que usam terno soe talvez um pouco exagerado, então é melhor eu nem começar a falar sobre aquelas que, ainda por cima, usam também gravata.

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4 comentários:

  • Alexandre Luzardo em 03/02/2015

    Cara, sensacional.

    “As bandas de rock que usam terno são sempre inglesas, mesmo quando não são, e elas tocam sempre no inverno, mesmo quando é verão.”

    Essa frase me aniquilou! :)

    Em tempo: trabalho de terno e gravata e a melhor coisa que me aconteceu foi disponibilizarem um vestiário pra poder ir de bermuda todo dia e colocar o terno só lá. Sinceramente não compreendo o uso de terno que não seja por obrigação.

  • Vicente em 03/02/2015

    hahahahaah

    Sou dissidente neste tópico, nunca parei para analisar essa questão. Bom, com o passar dos anos me acostumei a desvincular imagem do som, até cheguei a me dar conta há algum tempo que 99% dos discos que compro sequer têm fotos que retratam o artista. Na época da MTV era o contrário: os encartes eram recheados de fotos das bandas. Quero dizer que embora entenda que som, imagem e “atitude” se complementem, um não implica no detrimento do outro, necessariamente. A própria imagem mítica que eu tinha de bandas e artistas apagou-se com o tempo e hoje os vejo como caras que escolheram a música para sobreviver, isto é, são absolutamente iguais a nós. Ainda mais que muitos gravam as coisas em casa. Mas voltando aos ternos: não vejo nada de errado ou não acho que eles queiram transmitir algo maior. Na verdade, é uma forma razoavelmente segura de você se ver daqui a vinte anos e não ficar muito constrangido com o que você usava na época (risos).

  • Fabricio em 04/02/2015

    Espero não ter ferido suscetibilidades de ninguém! [risos] O que vai acima aí é só uma piada, um pouquinho de acidez contra umas bandinhas chinfrins de muita pose e pouco conteúdo de uns anos atrás, lembram? Particularmente, nada contra o terno e a gravata, desde que eu não tenha que usá-los, claro, e nesse intento, tenho sido até muito bem sucedido até o momento: apenas uma vez na vida precisei usar um terno. Gravata, até hoje, nunca.

  • Vicente em 04/02/2015

    [risos] Acho que “gosto” de usar traje + gravata justamente por não ter que fazê-lo no meu cotidiano. Aí quando uso, é meio que um símbolo de que estou fazendo algo diferente.

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