Discos do mês - Dezembro de 2014

Por Fabricio C. Boppré em 07/01/2015

Smoke Fairies - Wild Winter

As inúmeras gradações e variações possíveis sob um rótulo tão geral e antigo quanto “folk” fazem com que seja possível amar e odiar o folk, ao mesmo tempo. Em geral não me comovem aqueles artistas que parecem buscar a mais delicada e angelical das belezas com suas vozes e violões; Nick Drake, por exemplo, é tão bonito e tão perfeito que me enfastia um pouco, e toda a gama de imitadores do inglês não me desce pela garganta de jeito nenhum; do Bob Dylan e todas suas imperfeições e rebeldias eu gosto muito, e do Fairport Convention, pelas experimentações e lisergia, também. Já aquelas cantoras americanas da época dos hippies e de Woodstock, Joni Mitchell, Marianne Faithfull etc, também nunca arrancaram muitos suspiros meus… Isso para citar alguns nomes canônicos. Mas duas outras moças, inglesas, têm sido responsáveis sozinhas por quase 100% das minhas audições de folk nos últimos tempos. Conheci as Smoke Fairies ao ganhar um single delas de brinde do pessoal da Rough Trade, e gostei logo de cara, e passei a acompanhá-las através de cada lançamento. Também naquela mesma época eu conheci a Laura Marling, que fez a apresentação de abertura de um show do Neil Young que eu assisti, e ouvi o primeiro LP dela e gostei, e depois saiu outro que também ouvi mas já não me lembro muito dele, e depois outro também rapidamente esquecido, e então meu interesse por ela se dissipou, mas as Smoke Fairies, pelo contrário, vão ficando melhores a cada álbum, seja EP ou LP. A dupla têm uma produção intensa, e só neste ano que passou foram dois LPs — sim, dois álbuns completos, como faziam em seus tempos de juventude Beatles e Led Zeppelin… E, embora ora um pouco mais rarefeita, ora um pouco mais matizada, está sempre lá na música delas uma certa estranheza onírica, uma atmosfera de encantamento das paisagens noturnas ou nevadas, que é o que realmente me atrai nos discos delas. Escutei mais o disco que saiu em dezembro, o Wild Winter, que coloquei entre os meus preferidos de 2014, mas acho que agora, durante o restinho da minha folga neste começo de ano, vou me dedicar ao que saiu em abril, auto-intitulado. E não vou me espantar se, no fim das contas, eu constatar de que o justo teria sido colocar dois discos das Smoke Fairies entre os meus favoritos do ano passado…

Boards of Canada - Music Has the Right to Children & Bach - Os Concertos de Brandenburgo

Tendo conseguido escapar das três ou quatro coisas para as quais fui convidado para a noite da virada do ano, passei-a sozinho assistindo ao último filme do Tarkovski que me faltava ver (O Sacrifício), bebendo vinho, lendo e ouvindo uns discos, ou seja, uma noite quase perfeita, ainda mais pacífica e agradável por conta da sensação de desobediência e de exílio, por estar fazendo algo totalmente auto-centrado e diferente do convencional — em suma, por não estar em meio à multidão assistindo fogos de artifício ou em uma aborrecida festa familiar com trilha-sonora feita das paradas globais do momento, cerimônias compulsórias para as quais eu já não tenho a menor paciência. “Não, obrigado, mas é que… ” (posso ser pouco sociável, mas não sou ingrato: agradeci de coração aos convites e expliquei francamente quais eram os meus planos). O calor absurdo daquele dia pedia o máximo de imobilidade possível, a bebida um pouco mais resfriada do que de costume e um som perfeitamente condizente (perfeitamente condizente significa condizente em níveis ainda mais cirúrgicos do que os costumeiros), e foi então que a lombadinha azul-turqueza do Music Has the Right to Children praticamente saltou da estante quando passei os olhos sobre ela, no momento em que procurava por algo para ouvir antes da janta e do filme, e quando os mais exaltados e descontrolados começavam já a soltar seus foguetes e rojões pela vizinhança. E foi o disco perfeito: aliado ao vinho, me extraiu da realidade e me manteve firmemente ancorado ao mundo das minhas coisas preferidas, por mais que tudo e todos exigissem com estardalhaço que eu embarcasse junto na direção diametralmente oposta à toda e qualquer possibilidade de serenidade e metafísica, e tomasse parte nessa overdose coletiva de trivialidades e vacuidades, como se já não tivéssemos uma dose insuportável disso durante todos os outros dias do ano, ou pelo menos têm aqueles que não conseguiram ainda se mudar para as montanhas e viver à margem da sociedade. Um pouco mais tarde, durante o filme do Tarkovski, um personagem conta a outro sobre um jardim que havia na casa de sua mãe, e que era muito bonito, mas que ele pressentia que poderia ser melhorado, já que nos últimos tempos ele havia crescido desmazeladamente sem os cuidados de um jardineiro. Certo dia ele mesmo resolve lançar-se ao trabalho de jardinagem e após muitas horas de cortes, podas, escavações e etc, enfim dá o trabalho por terminado e afasta-se e põe-se a contemplar o novo jardim, e então entra em desespero, pois tudo que ele consegue enxergar ali é violência, a imemorial e inquebrantável violência humana. Isso foi pouco antes dos fogos começarem a estourar, no mundo real, por causa da meia-noite; terminado o filme, acendi um incenso e prolonguei ainda um pouco mais o meu exílio espacial-temporal ouvindo Os Concertos de Brandenburgo de Bach (os filmes do Tarkovski sempre me deixam com vontade de ouvir música clássica), e depois fui dormir, com a certeza tranquila de que 2015 será também um bom ano, sem precisar de nenhum ritual de expurgação para isso.

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1 comentário:

  • Vicente em 08/01/2015

    Se já me identifico com muitos dos teus textos (ou partes deles, ao menos), me identifiquei ainda mais com esse: passamos mais ou menos a virada do ano nas mesmas condições. Entretanto, no cume da data estava sim com a família entregue à mais clássica das inocuidades (ou seria ela o carnaval?), porém todos os dez dias que rodearam a troca oficial de ano foram saboreados no mesmo perfil que brilhantemente batizasses de exílio. Livros, filmes, muitos sons e esportes mostraram-se acolhedores para atravessar meu primeiro feriadão independente após anos acompanhado. Só faltou o vinho para fecharmos mas eu e o álcool tomamos caminhos divergentes :-P

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