Discos do mês - Outubro de 2014

Por Fabricio C. Boppré em 01/11/2014

Black Sabbath: Born Again

Se tem gente que despreza o Black Sabbath com o Dio, imagina então com o ex-cantor do Deep Purple Ian Gillan! Mas eu gosto deste pequeno monstrinho birrento chamado Born Again, e estou bem acompanhado nesta minha excentricidade: o Dylan Carlson também gosta. Poxa, Zero the Hero é uma das melhores músicas do Sabbath, e eu digo isso com a mais depurada das consciências de que essa é a banda que tem a lista de melhores músicas mais espetacular de todas; essa é a banda que deu ao mundo After Forever, Iron Man, Paranoid, N.I.B., Snowblind, Hole in the Sky, Symptom of the Universe, Sweet Leaf, Solitude, Planet Caravan, Supernaut, e tantas outras, e sim, eu coloco Zero the Hero entre essas todas. Existe uma versão dessa música gravada pelo Cannibal Corpse, parte do tracklist do álbum-tributo Eternal Masters, que é o lamaçal mais espesso do mundo em forma de música, mas só procure ouvi-la se você for também um desses tipos esquisitos como eu e o Dylan Carlson.

Godflesh: A World Lit Only by Fire

No exato momento em que escrevo isso, um sol aniquilador ameaça rachar as paredes e janelas do meu apartamento. Dia 30 de outubro de 2014, o dia de primavera mais quente de que eu tenho lembrança, e o pináculo de uma semana bem anormal. Eu já mencionei diversas vezes aqui que não gosto muito de rock/metal industrial, não sou fã de Godflesh, nem de Ministry, muito menos de Rammstein, e nem mesmo da encarnação anterior — antes desses maravilhosos e irrotuláveis últimos discos — do Swans eu gosto. Sempre achei um som opressivo demais, um som maquinado pelas experiências urbanas mais deprimentes, as falências contemporâneas que mais repelem meu espírito, e senti serem dolorosamente torcidas algumas das minhas fibras mais profundas nas poucas vezes em que escutei discos destas bandas. Ao Godflesh eu cheguei a dar mais algumas chances, pois sempre achei “Godflesh” um dos nomes de banda mais fantásticos e também porque gosto muito de todas as outras coisas que conheço do Justin Broadrick, mas sempre permanecia inalterada a conclusão de que essa música não é pra mim. Ou pelo menos não é para uma determinada configuração predominante de minhas inclinações e disposições… Acontece que, motivado talvez por uma vontade obscura de distender alguns nervos e seus conceitos impregnados, ou simplesmente para testar algum método novo de absorção e interpretação da realidade (a música sendo uma boa cobaia para isso, pois também ela apresenta-se frequentemente sob formas totalmente estranhas umas às outras e aparentemente irreconciliáveis), tenho ouvido nesses últimos dias esse disco novo do Godflesh, A World Lit Only by Fire, e inclusive o ouço novamente nesse exato instante. O título do álbum já havia me chamado a atenção ao conectar em minha consciência certos elementos bem atuais não obstante meio distantes, sensações e abstrações à deriva no infindável mar das coisas coletadas o tempo todo pelos sentidos e processadas em diferentes níveis de consciente e subconsciente. E daí, em meio a esse estado de espírito experimental, com o juízo habitual temporariamente suspenso e não sabendo bem o que fazer com estes signos que me foram sublinhados nesse processo, o fato é que eu tenho gostado bastante de ouvir o Godflesh. E até num sentido meio utilitário a experiência tem valido a pena: como efeito colateral surgido da reequalização de certas frequências íntimas com aquelas que jorram dessa música violenta e intransigente (efeito que inicialmente surgiu imprevisto, e depois intensifiquei induzido-o conscientemente), tenho me sentido melhor aparelhado e mais resistente, ou, para usar logo os termos mais legais, com a casca mais dura e o espírito tal qual o de um faquir, para aguentar o inferno solar das ruas aí fora. Até o ar-condicionado, que me é sempre uma tortura ter que ligar, eu estou tolerando mais facilmente enquanto as guitarras do Godflesh reverberam alto aqui nas paredes, preenchendo rudemente todos os cantos possíveis. E a batida mecânica e maçante que é o elemento mais distintivo desse tipo de música eu enfrentei assim: certas coisas nós temos que fazer delas parte da mobília, “aturar”, como se diz, e nossas guarnições ganham assim em espessura e adaptabilidade. Essa banda faz parte, definitivamente, de uma outra concepção de mundo, uma aspereza e um desencanto que não me são fáceis assimilar, malgrado o fato de eu gostar de muitas formas extremas de metal (no metal há, quase sempre, algo de fantasia). Não sei se o Godflesh persistirá ainda por muito tempo na minha trilha-sonora do dia-a-dia, mas ao menos eles têm me ajudado a enfrentar esse outubro incandescente e incomum.

Corrupted: El Mundo Frio

E esse eu vinha ouvindo direto, antes do Godflesh: El Mundo Frio, dos japoneses do Corrupted. Um disco lindíssimo, uma única música com mais de 1 hora e 10 minutos de duração. Pior que só bem depois de estar ouvindo o disco do Godflesh, conforme narrado acima, eu me dei conta do título desse álbum… Mas, bem, não vou me alongar aqui sobre isso. O mais provável, decerto, é que não haja nada mesmo para se especular, e seja apenas uma curiosa coincidência…

Trail of Dead: IX

E falemos agora de temperaturas mais amenas: esse disco novo do Trail of Dead é muito bom! Nesses últimos tempos eu tenho ouvido, essencialmente, metal (esta lista e a do mês passado me entregam), mas vez ou outra abro uma brecha para alguns discos de ambient e também de punk rock e hardcore (minha adolescência não acabou ainda). Talvez o Trail of Dead não seja nada disso — talvez seja um pouco de tudo isso. O álbum anterior, Lost Songs, também é bem massa, ou pelo menos assim me pareceu num primeiro momento; acabou que ele não persistiu muito nos meus pensamentos, e não o escutei mais depois de apenas três ou quatro audições. Sempre me apoiei muito nesses vestígios e insinuações das músicas em meu cérebro para selecionar meus discos favoritos, o que comprar para ter na coleção, o que levar numa viagem, etc, mas ultimamente já não tenho tanta confiança neste método: são muitos discos, lançamentos em quantidades avassaladoras, coisas interessantíssimas aparecendo por todos os lados, de forma que o compasso de audições e decantações que ritmava esse processo já não dá conta, e tenho certeza que muitos discos acabam me passando desapercebidos, álbuns que se eu os ouvisse com mais tempo e dedicação poderiam ir entrando, gradualmente, nas minhas listinhas mais seletas de audições frequentes e de discos favoritos. Mas, voltando a este IX, acho que com ele nada disso não vai acontecer: gostei bastante logo na primeira audição, e vou colocá-lo já no aparelhinho que carrego comigo para ouvir música fora de casa (isso às vezes desequilibra o jogo em favor de um ou outro disco: tê-lo a mão em determinados momentos efêmeros e imprevistos) e vou torná-lo, muito provavelmente, um dos meus discos favoritos desse ano. E daí, para a listinha de sete discos favoritos de 2014, faltarão apenas seis.

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