Mixtape #145

Por Fabricio C. Boppré em 10/10/2014

Mixtape #145 by Fabricio C. Boppré on Grooveshark

Acho que é hora de eu prestar um pequeno e justo tributo a esse disco do Jane’s Addiction, o Kettle Whistle. Se o Grooveshark fechar as portas na semana que vem, não me sentirei um ingrato por não tê-lo feito durante esses quase três anos de mixtapes. Sabe essas entrevistas com músicos onde eles falam sobre seus discos preferidos? (Eu adoro a série Baker’s Dozen, da Quietus.) Então, frequentemente esses caras falam daquele disco crucial que mudou suas vidas, aquele que após a primeira audição nada mais foi como era antes, um novo mundo se abriu diante aquelas músicas, e outros eufemismos grandiloquentes desse tipo; milhares de guitarras e baterias foram compradas após o contato iluminador com este sacrossanto álbum, as primeiras bandas foram formadas, e por aí vai. Discos do Velvet Underground, do Sex Pistols, Beatles, Joy Division, Black Sabbath e Led Zeppelin costumam ocupar esse posto na memória das pessoas, mas eu, contrariamente, não consigo escolher muito convictamente um disco desse para mim. Centralizar uma mudança de vida ou uma importância de magnitude semelhante em um único álbum não seria muito verdadeiro no meu caso, já que, olhando retrospectivamente, vejo a história da minha paixão por discos como uma edificação de construção bem gradual, sem muitos solavancos, música por música, K7 gravado por K7 gravado, disco por disco, e depois viagens e shows mediando e se confundindo com tudo isso, e a essa altura deve haver, pelo menos, uma centena de discos fundamentais e queridíssimos ocupando o posto mais alto aqui no meu pedestal sentimental (pedestal tipo coração de mãe, que sempre pode acomodar mais um), discos os mais diversos — das mais diversas épocas e tipos e escutados nas mais diversas circunstâncias. Mas se eu estivesse sob a mira de um revólver e fosse obrigado a escolher esse disco, o grande álbum que mudou minha vida, então eu pensaria um pouco entre este Kettle Whistle e o Mellon Collie and the Infinite Sadness do Smashing Pumpkins e escolheria, afinal, o do Jane’s. Meio truque sujo, já que é uma espécie de compilação, mas é o disco mais próximo desse posto que eu consigo imaginar, e também não chegou a mudar minha vida, apenas deu uma bela chacoalhada… Mas, enfim, se minha vida dependesse de fazer essa escolha, eu apontava esse. Eu não conhecia ainda o Jane’s, conheci direto via Kettle Whistle, CD emprestado por um amigo (a banda estava, na época, naquela turnê de reunião com o Flea no lugar do baixista original Eric Avery), e a mistura que eles faziam de tudo que eu adorava me capturou de imediato, mas sobretudo me fascinou o temperamento meio selvagem da banda, e aquele monte de referências a montanhas, oceanos, mergulhos e praias que havia nas letras. Assim que pude, comprei o CD. Lembro de audições noturnas com fones de ouvido, muitas, dia após dia, examinando o encarte e tentando adivinhar, a partir de uma foto da banda sentada num sofá, quem seria o cantor, quem seria o guitarrista, e repetindo várias músicas do tracklist, de modo que uma única audição podia demorar às vezes duas ou três horas noite adentro. Up the Beach e Three Days, minhas duas faixas preferidas, significam milhões de coisas para mim, sendo que a primeira faz minha pele arrepiar até hoje, mesmo depois de tê-la ouvido já milhares de vezes. Acho que esse seria então o meu disco para uma ilha deserta. É isso, tá prestado o tributo, por escrito e também por ondas sonoras, já que na fitinha aí vai a Three Days citada anteriormente. É ou não é um som espetacular? Essa época de primavera, prelúdio do verão, é perfeita para ouvir o Jane’s…

Categoria(s) associada(s): Posters e artworks, Mixtapes e streamings

Créditos da imagem: Copiada daqui.



2 comentários:

  • Vicente em 13/10/2014

    Hahah, achei que teu disco seria o MCiS. Mas confesso que é difícil resistir a discos que fazem alusão ao mar.

  • Fabricio Boppré em 14/10/2014

    Cara, talvez na época (e durante um bom depois depois), eu não imaginasse que algum outro disco poderia algum dia receber mais veneração de minha parte do que o MCiS… Mas o efeito do Jane’s tem sido mais duradouro, suas músicas ainda me falam bastante diretamente, ainda sinto aquele arrepio citado acima, enquanto que o efeito do Pumpkins foi abrandando-se com o tempo, ao ponto de ouvir muito pouco hoje em dia… Essa é a situação atual, que ninguém garante também que não vá mudar! [risos]

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