Robin Williams

Por Fabricio C. Boppré em 18/08/2014

Nesta última mixtape eu incluí o R.E.M., e eu tinha uma sensação meio vaga de que havia um motivo mais específico para isso, para além da minha ligação intensa com a banda, mas nas breves reflexões sobre o caso enquanto eu montava a fitinha eu não consegui identificar qual era este motivo, e acabei deixando o assunto de lado rapidamente, pois aquele dia estava bem atarefado e havia outras coisas ocupando minha cabeça. Até que hoje, segunda-feira, no primeiro pensamento mais elaborado do dia, ainda na cama enquanto reunia coragem para sair de debaixo dos cobertores — pensamento preambular esse que não-raro, e aleatoriamente, costuma trazer algum desvendamento, algum boa idéia, alguma solução, engendrados sem esforço pelo cérebro descansado e ainda não afetado pelas notícias e banalidades que logo começarão a nos bombardear assim que o mundo souber que estamos enfim despertos —, nesse primeiro raciocínio do dia me veio à mente naturalmente, sem que eu sequer estivesse ainda preocupado com isso, a razão de eu ter cantarolado músicas do R.E.M. durante boa parte da semana que passou: Robin Williams.

A história é assim: eu conheci o R.E.M. via Out of Time, era a época de Losing My Religion e Shiny Happy People tocando sem parar, e era também a época pré-internet, 1991/92, quando muitas vezes acontecia de conhecermos uma banda pelo rádio e ficarmos ainda um bom tempo sem saber qual era a aparência daquelas pessoas e de onde vinham e etc, pois não havia ainda o Google para pesquisarmos. A curiosidade só viria a ser saciada quando enfim os víssemos nas páginas da Bizz, que muito de vez em quando comprávamos (com 12/13 anos, a mesada mal dava para os gibis, para as figurinhas e para os doces da vendinha da esquina, que eram as prioridades, logicamente), ou quando os víssemos na TV, o que também se daria por via de uma eventualidade bem improvável já que a MTV ainda não estava na casa dos amigos (eu nunca a tive na casa dos meus pais), e só havia (havia mesmo?) uns pouquíssimos programas de notícias musicais e videoclipes que podiam passar R.E.M. na TV aberta naquela época. Havia então espaço de sobra para a imaginação, e muito baseado nas faixas do Out of Time que tocavam no rádio (tocava bastante também a Near Wild Heaven, e essa eu gostava mais do que todas as outras) foi que eu formei uma imagem na cabeça de como deveriam ser os caras daquela banda tão legal. E, o cantor, eu imaginava, devia ser um cara parecido com o Robin Willlams.

Não sei se foi por causa dos filmes de Willians, que faziam bastante sucesso naquela época; Hook, por exemplo, eu fui ver no cinema, e Sociedade dos Poetas Mortos foi um dos primeiros filmes que eu acho que vi com um olhar não mais infantil, e me tocou de verdade, sendo que ainda hoje o adoro, e o revi nesta sexta-feira mesmo da última fitinha, como um tributo pessoal ao ator recém-falecido. Acho que Shiny Happy People, principalmente, tem responsabilidade por esse conexão: é uma música bem-humorada, quase que uma comédia em forma de música (comédia boba e fraquinha, devo dizer), e apesar dos papéis mais cômicos e palhaços de Willians, no começo dos anos 90, ainda estarem por vir, ele já tinha aquele jeitão benevolente e aquele tocante sorriso de rosto inteiro… Sorriso que já exibia, por maneiras sutis mas que nunca me passaram desapercebidas, algo de sombrio e profundamente melancólico.

Pois bem, a semana passada começou com a notícia trágica do suicídio do ator — que tentou primeiro cortando os pulsos e depois finalmente se enforcou, o que é bem difícil de conceber. Difícil conceber que chegou a esse ponto o Mork, o Peter Pan, o prof. Keating. Mas daí as notícias começam a surgir e descobrimos o alcoolismo, a depressão, os problemas financeiros… Enfim, era uma típica estrela de Hollywood que passou dos 60 anos. Pensei nisso várias vezes durante a semana, enquanto músicas do R.E.M. me vinham constantemente à cabeça, sem que eu ligasse uma coisa com a outra, o que só aconteceu, repentinamente, agora, nos primeiros momentos desse novo dia em que eu já deveria estar trabalhando, mas primeiro tenho que terminar de escrever isso aqui. Já não lembrava da historinha relatada acima há muito tempo, até porque não deve ter demorado muito para vermos como eram de fato Michael Stipe, Peter Buck, Mike Mills e Bill Berry, e é uma pena que ela retorne à minha lembrança nessas circunstâncias… Mas isso é uma das coisas que a sucessão dos dias nos trazem: as coisas ficam para trás, empalidecem, e muitas vezes até somem. O que não precisa ser necessariamente uma coisa ruim, e pena que nem todo mundo se aperceba disso. Thank you for playing, Mr. Willians!

Categoria(s) associada(s): Memória

Créditos da imagem: Copiada daqui.



3 comentários:

  • Vicente em 18/08/2014

    Legal esse gancho sobre a imagem das bandas. Engraçado que isso aconteceu comigo justamente com os Smashing Pumpkins. Explico: época de 2o. grau e nós estávamos ensandecidos com as bandas grunge / pós-grunge. Nosso elo era a MTV e a materialização de parte desse mundo se dava através de uma locadora de CDs (!) onde semanalmente chegavam novos discos, selecionados tendenciosamente pelo dono. Se tivesse guitarras ou pudesse de alguma forma ser relacionado com nossa ânsia por mais barulho, ele colocava pra dentro da coleção. E o curioso é que não havia uma preocupação sequencial: ele podia começar pelo mais recente do Soundgarden, perceber o interesse dos clientes e no mês seguinte disponibilizar o primeiro, depois o terceiro. Era muito comum a gente achar que as discografias tinham uma sequência diferente da real, onde montávamos elas de acordo com como os discos nos foram apresentados. Numa dessas centenas de visitas à Underground Laser, já no apagar das luzes o dono me apresentou o Gish quando eu me despedia (eu acho que eu tava saindo de mãos abanando porque naquela semana não tinha entrado nada de novo) sob o clássico argumento “ó, isso aqui é pra quem gosta de Nirvana, Sepultura (risos), a gurizada tá gostando”). Aí eu lembrei que tinha visto o nome da banda na trilha do Singles e levei, copiei pro K7 e lembro que aquela fita teimava em sair do player, normalmente à noite quando eu tava sossegado desenhando capinhas de fitas. Mas ao contrário de Nirvana, Alice In Chains, Pearl Jam, Metallica e tantos outros que tinhas os clipes exibidos na MTV e cuja aparência real dos músicos eu já conhecia (R.E.M. também), os Pumpkins eram mais segmentados, não passavam nas tardes da MTV (isso foi antes de Today estourar e aí sim tomar seu espaço com um caminhão de sorvetes). Aí lembro que enquanto eu desenhava ao som de Gish, ouvia o Corgan e imaginava um cara meio velho, talvez meio gordo e semi-calvo, um cara provavelmente mais nerd do que os sujos que eu já via na MTV e conhecia de fato. Fiquei um bom tempo confortável com minha própria criação, meio que me convencendo que eu já tinha um irremediável tino para gostar de bandas fantásticas que ninguém mais curtia e que eu talvez fosse o único cara da cidade com aquele K7 no Walkman. Eis que numa madrugada de sábado o Fabio Massari rolou Rhinocerous no Lado B, D’Arcy (uma… mulher?), Iha nipônico, as cores psicodélicas e Corgan, um jovem cabeludo… absolutamente diferente daquela imagem que tinha dele. Acabei reconstruindo os Pumpkins na cabeça a partir dali e hoje quando escuto o Gish percebo que meu cérebro tenta resgatar o outro Corgan que a informação correta tratou de destruir. Muito do meu consumo voraz de música é resultado daquela época em que a cada nova visita podia descobrir uma nova banda ou um novo som. Isso persiste até hoje, onde a possibilidade de um novo clique revelar um trabalho capaz de estabelecer um novo marco em nossas vidas de ouvintes permanece inabalável. Se essa empolgação, mesmo que mais comedida hoje, um dia acabar, provavelmente a música terá se acomodado para mim e perdido muito de seu encanto. E por ironia do destino, Billy Corgan acabou um gordo calvo nerd algumas décadas depois. Acho que eu realmente tinha tino aguçado para essas coisas.

  • Fabricio Boppré em 18/08/2014

    É, a gente desenvolve uma espécie de sexto sentido para muitas coisas relacionadas à música…

    E desenhando capinhas de fitas, hein? Que legal! Acho que já tinhas comentado comigo, em outra ocasião, o hábito de desenhar enquanto ouves música. Faz isso ainda? Quero dizer, não necessariamente no espaço quadrangular das velhas fitinhas… [risos]

    Eu fazia os logotipos das bandas nas lombadas das fitas; alguns eu acabava até por aprender a desenhar de cabeça sem precisar de modelo algum, os mais famosos, tantas às vezes em que eram repetidos: Doors, Maiden, Metallica… Na capa eu escrevia os nomes das músicas ou fazia umas colagens de algum modo relacionadas à banda (ou não). Tenho muitas dessas fitinhas aqui ainda.

    Ah, e aqui em Fpolis também um locadora de CDs foi um dos principais endereços da cidade para toda uma geração de garotos como nós, a Muzak, infelizmente já fechada há bastante tempo.

  • Vicente em 18/08/2014

    Infelizmente, Fabricio, minha veia para desenho foi deixando de pulsar a medida que o tempo passou e, bem, a vida ficou mais objetiva. Nunca deixarei de ter o DNA para a coisa, nem o prazer de fazê-la. Mas não consigo mais visualizar um espaço em branco e preenchê-lo com a empolgação ou a dedicação de outrora. Imagino que os músicos passem pelo mesmo processo à medida que as décadas avançam, por isso é tão comum ver grandes discos gravados por jovens adultos que quando seguiram na carreira, foram perdendo controle sobre a chama criativa, nunca mais conseguindo brilhar como brilharam antes.

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