Neurociência

Por Fabricio C. Boppré em 12/08/2013

Daí que a semana começou fria e com a trilha-sonora de Roque Santeiro tocando enquanto eu tomava o café-da-manhã. Eu tinha 6 anos quando a novela passou na TV. Meus pais a assistiam todos os dias, presumo que não necessariamente motivados por algum interesse especial pela estória, mas como parte da rotina(-inércia) de toda família brasileira de classe média dos anos 80, assistir à Rede Globo no final do dia (e é com grande desalento que a gente percebe que nesse sentido pouco mudou de lá para cá). Eu, que já não podia estar na rua jogando bola naquele horário, ficava junto deles assistindo uma vez que não muito mais coisas me interessavam, naquela circunstância, além de tentar estender para cada vez mais tarde o horário de ir para cama, e dormir tarde era a atitude subversiva possível para um projeto de gente que mal sabia então amarrar os cadarços. Bom, voltando à novela: havia na trama um lobisomem — o inusitado disso não me passa desapercebido não, mas vou me abster de comentar porque já estou escrevendo demais e quero chegar logo ao ponto principal —, criatura cujos prenúncios de aparição me faziam sempre pedir para que minha mãe me avisasse quando ele tivesse enfim saído de cena, pois a essa altura eu costumava já estar com o rosto afundado numa amolfada, tal o terror que o bicho me despertava. É, além de subversivo, eu era medroso, e sabia que se me distraísse e visse o bicho, o sono me venceria só depois de um bom par de suadas horas com os olhos grudados nos contornos da porta na escuridão do quarto. E finalmente a trilha-sonora: há uma música do Zé Ramalho no disco (que tenho em vinil, recuperado de velhos baús desprezados e cheios de tralhas diversas que lhe renderam camadas de poeira e fungos, somente extirpáveis na base do algodão, detergente e água corrente) e essa do Zé Ramalho era a música que tocava nas cenas do pavoroso lobisomem. Isso tudo é uma lembrança vívida e inesquecível, mas de resto pouco me lembro do enredo de Roque Santeiro. No entando, as outras músicas todas da trilha-sonora — Fafá de Belém, Elba Ramalho, Moraes Moreira, Dominguinhos, Roupa Nova —, mesmo que totalmente desconectadas de seus temas e personagens na novela, estão indelevelmente impressas na memória, e é algo desconcertante que tantos pequenos detalhes de suas melodias, refrões, letras (“O princípio do prazer/É tão simples de entender/Para quem tem coração aprendiz”), batidas eletrônicas, inflexões vocais, e também alguns truques evidentemente constantes de alguma cartilha para a produção de lotes de sucessos musicais naquele país que, nossa, se hoje ainda somos o que somos, o que éramos então em 1985?, é realmente impressionante que esses detalhes fiquem enterrados em algum canto do cérebro por anos e anos, à margem de um certo nível de atuação cerebral de “linha de frente” e todo o seu tumultuado sistema referencial cuja rede só faz crescer com os anos e que está incansavelmente a trabalhar em todos os momentos de nossos dias — enfim, detalhes como que mudos nessa consciência permanentemente ativa mas prontos para serem despertados, incontinentis, a qualquer instante através de um determinado estímulo e então apresentarem-se frescos, límpidos, como que se estivessem operacionais e nunca esquecidos desde a primeira vez em que foram recepcionados e armazenados. Isso me surpreende sempre que me meto nessas expedições arqueológicas musicais e como efeito colateral delas estou me convencendo, pouco a pouco, de algum dia estudar neurociência, só para tentar entender esses processos fascinantes, e também tentar entender porque que eu nunca serei capaz de esquecer de uma música do maldito Roupa Nova, onde se canta assim: “Tan tan tan Bater na porta/Não precisa ver quem é…”

(E nem posso finalizar dizendo “voltamos agora à nossa programação normal” pois me esperam ali, enquanto secam ao ar livre, vinis de Emílio Santiago e Gonzaguinha, entre outros menos confessáveis.)

Categoria(s) associada(s): Memória

Créditos da imagem: Copiada daqui.



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